terça-feira, 25 de julho de 2017

GOSTO NÃO SE DISCUTE? DISCUTE-SE, SIM

Fonte: Google

GOSTO NÃO SE DISCUTE? DISCUTE-SE, SIM

Cunha e Silva Filho

        Leitor, não vou,  é óbvio, mencionar conversas  íntimas sobre  o que me dizem  acerca de autores, nacionais ou estrangeiros. Principalmente, hoje, um  domingo de sol  ameno que dá vontade de sair de casa a   esmo  até procurar, em vão, encontrar aquilo que chamam de felicidade na terra.
       Já vi  muita gente culta que acha chato  até Machado de Assis. Encontra erros  em passagens de grandes autores europeus,  por exemplo, Honoré de  Balsac, e além disso, não gosta de poesia moderna. Prefere os românticos,  os parnasianos, os clássicos antigos,  latinos ou gregos. Enquanto outros me dizem que Paulo Coelho tem algum mérito. Fico confuso, embaraçado e nem me dou ao trabalho de lhes fazer um censura e mostrar-lhes que  estão errados e que nada entendem da grande  literatura.
       Uma vez, uma colega, estudante de mestrado,  me confessou que já estava cansada de analisar  Carlos Drummond de Andrade. “Chega de Drummond” – resmungou ela. Outros ainda reclamam de um escritor porque, segundo eles, só escrevem  cenas indecentes,  coprológicas. Outros há que detestam um autor por motivos religiosos. De James  Joyce dizem que nada entendem. Atacam  Tolstói, Gorki, Dostoiévski por uma ou outra razão. Outros tampouco  gostam  de Casanova, de André Villon,  de Rabelais. Mas é difícil falarem mal de Cervantes, de Shakespeare. Também seria demais. Enfatizo, leitor,  que estou aqui  falando de opiniões subjetivas de escritores  e de intelectuais.
       Um professor universitário desdenhou do grande  contista João Antônio e soltou  essa bobagem: “Por que não escolheu  um tema de Machado de Assis? Ele, sim, é escritor.” Esse professor era o mesmo  que nunca  leu  Graça Aranha e seguramente não iria ler. O motivo? Não sei.
        Como vê, leitor,  gosto, a princípio,   não se discute em matéria de tudo, inclusive  de literatura. Assim, se fica sabendo de que, em conversas informais,  não faltam   subjetividades  grosserias dirigidas a uma grande autor e a uma grande obra. De uma tacada só, lá se vai  a reputação  de um escritor  famoso, cuja avaliação, movida pela irracionalidade, mera ignorância ou soberba   pretende (não o conseguirá jamais) destruir  um gigante da literatura universal. Desprestigiar um autor é fácil e é covardia,  particularmente quando  já é falecido.
        O pior ainda é que falam até mal de escritores que nunca leram! É verdade. Nunca leram nem  lerão. E não falo de leitor comum, mas de leitor letrado, especializado em literatura.
       Digo e repito  incansavelmente que a literatura, por ser arte maior,  é coisa séria, que merece respeito e não algo que, subjetivamente,  imbecilmente, se possa  discutir  ferindo injustamente  nomes  de méritos da produção literária em todos os gêneros.
      Eis por que se deve ser cauteloso e prudente quando expressamos alguma ideia  envolvendo  juízos críticos apressados ou sem  embasamento  sólido  no que tange ao valor maior ou menor de um escritor.
      De improvisação não se faz crítica nem  se produz  uma obra  literária, uma vez que toda  obra de arte pressupõe um conhecimento  prévio  que se situaria no que se denomina  tradição literária, na formação dos grandes cânones do Ocidente  –  base e até, de certo modo, inspiração responsável por aquele princípio  formulado por Harold Bloom, que é “a angústia da influência,”  angústia sofrida por  um poeta novo em relação a um poeta predecessor.
        Imaginar um escritor,  poeta ou ficcionista,  que não se tenha mais nada a escrever em literatura  é doloroso, sim,  mas  é também fator, segundo Bloom, de renovação, ou como ele afirma, sem esse voluntário  revisionismo,”  “desleituras,”  “desaprisionamentos,” reação "deliberada" e  “perversa,” “distorcida,” de “caricatura de auto-salvação” não se teria   o surgimento  da poesia moderna (apud GRAY, Martin, Dictionary  of literary terms.  London: Longmans York Press,  2nd revised edition, third impression, 1994, p.28).
    Por conseguinte,  deve-se pensar, pelo menos, duas vezes antes de se  julgar aleatoriamente  um autor, uma obra. E a advertência serve para nós todos que lidamos  com  o fenômeno literário e com estudos literários. Não ser leviano  e ligeiro nos julgamentos  inconsistentes de obras alheias é um desserviço  palmar  que se comete  com o criador e a criação literária.
      Ao contrário,  deve-se ter, como em qualquer  campo de estudos,  uma espécie de “educação para a literatura,”  i.e.,  ser elemento  agregador,  responsável,  ético e não se esquecendo de que até pelos escritores que, em língua inglesa, são chamados de minor writers,  devemos ter nosso apreço. 
      Já disse alguém que a literatura  não se constrói apenas de gênios, mas de pequenos e medianos  autores, e é essa mediania  que  consegue levar adiante  a permanência,  no presente e no futuro, da história literária  de qualquer  país.
     E, finalmente,  ainda tenho algo a considerar. Por razões ideológicos ou políticas, autores há que descartam  algumas obras por elas não  se afinarem com a sua posição religiosa  ou filosófica ou porque não são obras edificantes. Recordo-me de uma artigo de Tristão de Athayde que ponderava  que a literatura não é moral, nem imoral, mas amoral. A obra  literária, assim como as artes em geral,  não têm  compromisso com a realidade  empírica. Ela é construção da imaginação, da linguagem, de um estilo,  de um objeto criado pelo artista  livre e esteticamente concebido,  de um  mundo possível, não  um  arremedo  da vida em si.
     O que um personagem, num romance,  por exemplo, declara pensa ou faz,   não deve se confundir  com uma pessoa de carne e osso. Ele é uma construção discursiva da linguagem com o seu mundo próprio, específico,  sua autonomia estética, autotélica,  um mundo à parte.
    Patrulhar as concepções de um personagem não passa de uma perspectiva  distorcida  e ignorante do leitor e das instituições  sociais. Vários escritores, no pais e  no exterior,  foram injustamente  processados pela Justiça porque  se confundiu e ainda se confunde muitas vezes persona, personagem  inventado, ser fictício, “criação de papel,” com  indivíduos da sociedade que se viram retratados ou criticados no imaginário de uma obra  literária.Nada tão longe da verdade.           

domingo, 23 de julho de 2017

MUSA MEDUSA


MUSA MEDUSA

Elmar Carvalho

Sem arautos
sem pajens e sem bagagens
inesperadamente chegaste
sem anúncios e sem presságios
egressa de sonhos e miragens
e tão inesperadamente te foste
no mesmo sonho que te trouxe.
E na dor
intrusa que me restou
a Musa se fez Medusa.  

sábado, 22 de julho de 2017

UM REI SONHADOR


UM REI SONHADOR

Valério Chaves
Desembargador e escritor

Passados mais de 600 anos de sua morte, a vida de Dom Dinis I  (1261-1325) – sexto rei de Portugal e Algarves – continua servindo de inspiração para a realização de coisas incríveis, sinônimo de ambição, obstinação e muitos mitos por esclarecer. De uma coisa, ao menos não há dúvida: sua imensa capacidade para sonhar com o improvável e pela composição de poesias trovadorescas que enriqueceram a literatura portuguesa no final do século XIII. Talvez por isso tenham lhe atribuído o cognome de “Rei Poeta”.

Não seria exagero concluir que foram os sonhos e pensamentos de Dom Dinis que levaram a concretizar, em 1421, aquela cena entre cores azuis das águas do atlântico e brancas espumas dos sulcos formados pelas caravelas aventureiras, iniciada há mais de um século antes, mais tarde conhecida como a “era dos descobrimentos”.

Muitas coisas nascem dos sonhos.

Diz-se que, se não houvera os sonhos do Rei Poeta, não teríamos o prazer de saborear os versos de “Os Lusíadas”, considerando-se que nesse poema de Camões o autor utilizou todas as variáveis semânticas de linguagem. Igualmente, não teríamos “Mensagem”, com os versos comoventes de Fernando Pessoa indagando ao mar salgado (…) quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! /Por te cruzarmos, quantas mães choraram! / Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram sem casar”.

Não teríamos, enfim, as caravelas, as terras de Leiria cheias de pinhais para a feitura das caravelas lançadas ao mar rumo à ousada tentativa de ultrapassar o Cabo Bojador, na costa do Saara Ocidental - considerado intransponível e fim do mundo conhecido da época.

Foi graças aos sonhos e a ousadia desse monarca, conhecido como “ O Rei Poeta”, que as esquadras portuguesas descobriram o mundo que hoje conhecemos.

Não foi à toa que Shakespeare nos alertou para o fato de que somos da mesma matéria da qual são feitos os sonhos

         Teresina-PI/julho/2017            

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Comentário de Sílvia Melo sobre Histórias de Évora


Histórias de Évora de Elmar Carvalho

Comentário enviado por Sílvia Melo, através de e-mail, que tomei a liberdade de publicar neste blog, sem lhe pedir autorização prévia, mas crente de que ela não se oporia.

O desejo de Elmar é que o leitor compreenda os enredos, entrechos e narrativas do: Histórias de Évora sem o menor embaraço. Por isso atrevo-me a expressar-me sobre o Livro que o seu riquíssimo prefácio considera uma obra da pós modernidade.

Histórias sempre encantam o leitor e as Histórias de Évora  fascinam pois “brincam” com o sagrado e o profano e põem  “anjos” para perdoar caso surja no leitor (pecados) recordações, identificações ou curiosidades sensuais. A sensualidade é marcante no ser humano e o autor dá um “colorido” um quê para instigar a imaginação e provocar reflexão ... e essa dinâmica é muito interessante e poucos sabem fazer com tanto sucesso.

Como negar que o consagrado poeta Elmar na sua simplicidade, na cotidianidade é um “gigante”? Tem a sensibilidade daqueles mais espiritualizados que abordam com sabedoria muitos assuntos: sentimentos, segredos, fé, mitologia, escatologia, passado... num horizonte de realidade e “ficção do erotismo, amor e saudade”,  nesta obra que ensina a ser leitor.

Precisa mais?

Teresina, 19 de julho de 2017


Sílvia Maria Melo de Sousa
Academia de Artes e Letras de Campo Maior (Pi)                                                                                        ACALE

terça-feira, 18 de julho de 2017

Histórias de Histórias de Évora

Excelente e antiga fotomontagem de João de Deus Netto, formidável artista plástico de Campo Maior

Histórias de Histórias de Évora

Elmar Carvalho

Na sexta-feira passada, cumprindo um antigo desejo meu, resolvi ir à APPM – Associação Piauiense de Municípios, para entregar meu livro Confissões de um juiz a seu presidente, o médico Gil Carlos, prefeito de São João do Piauí. É que nesse livro memorialístico faço referência a ele, em virtude de ter sido o cirurgião que me operou de meu primeiro CA, quinze anos atrás. Como ele estivesse em Brasília, tratando de interesses da entidade, dediquei-lhe um exemplar desse livro confessional e de meu romance Histórias de Évora, e os deixei com a sua secretária.

Em seguida, dirigi-me ao TCE-PI, que fica perto. Pretendia cumprir promessa feita ao Olavo Rebelo, atual presidente desse Tribunal de Contas, quando me encontrei com ele num dos shoppings locais, no sentido de lhe entregar, bem como ao Paulo Machado, seu assessor há mais de duas décadas, e ao Conselheiro Kennedy Barros, que também já o presidiu, um volume de Histórias de Évora.

Conheci Olavo em Parnaíba, ainda na década de 1970, quando éramos colaboradores do jornal Inovação e cursávamos Administração de Empresas, no Campus Ministro Reis Velloso da Universidade Federal do Piauí, sendo ele um ou dois anos mais adiantado do que eu. Ambos presidimos o Diretório Acadêmico “3 de Março” desse campus universitário.

Também nessa época conheci o poeta e escritor Paulo Henrique Couto Machado, primo do amigo e colega Paulo de Athayde Couto, também beletrista. Sempre admirei a poesia e a prosa de Paulo Machado, exemplar servidor público, e correto e honesto intelectual, que sempre reconheceu os méritos de quem os tem, desprovido que o é de inveja e mesquinhez. É ainda um notável historiador, sobretudo da saga indígena no Piauí, e talvez seja o mais importante literato de nossa geração.

Em seguida, me dirigi ao plenário, para cumprimentar o conselheiro Kennedy Barros. Não pude fazê-lo, pois ele presidia a sessão, e, cioso de suas obrigações, se mantinha atento aos processos em pauta e em discussão. Entretanto, vi na assistência o promotor de Justiça aposentado José Gomes de Moura, que me acenou.

Fui cumprimentá-lo, uma vez que desfruto de sua amizade há algumas décadas, logo que ele veio assumir seu cargo no Ministério Público do Estado do Piauí, em que teve brilhante e profícua atuação. Sendo ele escritor e romancista, não me pude escusar a lhe oferecer minha obra romanesca, após a dedicatória de praxe. De praxe não deveria dizer, porquanto o seu autógrafo foi especial, em virtude de nossa amizade e respeito mútuo.

Retirei-me logo em seguida, para resolver uns assuntos particulares no Riverside. Mal estacionei meu carro nesse shopping, avistei o escritor e professor universitário Fernando Dib Tajra. Cumprimentei-o e parei para uma rápida conversa. Logo notei o seu olhar interessado para um exemplar de meu romance, que eu conduzia. Expliquei-lhe em palavras breves de que se tratava, tendo ele me indagado sobre onde poderia adquiri-lo.

Sempre tenho dito que prefiro dar um livro de minha autoria a quem de fato vai lê-lo, do que tê-lo comprado por quem sequer vai folheá-lo. Assim, não hesitei. Saquei da caneta e lhe desferi um autógrafo à queima-roupa, sem lhe dar a menor chance de defesa. E dei o meu dia como muito bem ganho.

Porém, ao chegar a minha residência, e abrir minha página no facebook, vi alguns comentários, entre os quais um do helênico Helano Lopes, o Poeta da Estação, em que este vate conterrâneo me cognominava “poeta mor de Campo Maior”. Apesar de imerecida, não posso dizer que não gostei da homenagem do confrade; por isso mesmo, incontinenti, lhe enviei a seguinte resposta: “Embora não o mereça, gostei do título e da rima: ‘poeta mor de Campo Maior’, apenas devendo ser trocado o mor por menor”. A seguir, em outro comentário, acrescentei: “De qualquer modo, caro Helano, estaremos em mui boa companhia, pois Manuel Bandeira, que era Manuel Bandeira, disse em verso: "Sou poeta menor, perdoai!"

Mas como se tudo isso não fosse o bastante, ao cair da tarde de sábado o meu telefone fixo tocou. Sim, eu ainda sou do tempo em que não existiam celulares. Atendi. Era o meu amigo Francisco Costa, freitense de quatro costados e auditor-fiscal do estado, amante da boa música (da Jovem Guarda em especial) e da boa literatura, que me telefonava para dizer que havia terminado de ler, naquele exato instante, ao cair da tarde daquele sábado, o meu romance.


Disse, após vários comentários argutos e pertinentes, que, ao recebê-lo de minhas mãos, pressentia que iria gostar de sua leitura. Apenas não sabia, acrescentou, para gáudio meu, que iria gostar tanto. E como fecho glorioso do telefonema, leu as frases finais, evocativas e melancólicas de Histórias de Évora.    

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Manuel Antônio da Silva Henriques


Manuel Antônio da Silva Henriques

Reginaldo Miranda

Foi um abastado comerciante, fazendeiro e militar piauiense, nascido na vila de São João da Parnaíba, hoje cidade de Parnaíba, por volta de 1773, filho do comerciante português, natural da freguesia de Padornelos, Concelho de Montalegre, no extremo-norte de Portugal, radicado no Piauí, João Dias da Silva e de sua esposa. Era sobrinho paterno do negociante Domingos Dias da Silva, irmão de seu pai, falecido na vila de São João da Parnaíba, em 17 de dezembro de 1793, deixando avultados cabedais e tendo o sobrinho Manuel Antônio da Silva Henriques, por testamenteiro. Por curiosidade, o falecido tio paterno deixou duas partes de seus bens aos pardos Simplício Dias da Silva e Raimundo Dias da Silva, filhos ilegítimos e órfãos; e de sua terça, legou uma parte aos parentes no Reino e outra a algumas corporações de Pernambuco e do Reino, bem como para pessoas pobres, viúvas e órfãos. Foi seu avô paterno José Dias da Silva, vereador e juiz ordinário na freguesia de Padornelos, onde sempre viveu e faleceu, e sua esposa dona Maria Gonçalves, também falecida no Reino; e bisavô Manuel da Silva e dona Ana de Oliveira, todos naturais e radicados em Portugal.

Foi casado com dona Maria Victória Thomazia Clara, filha do sargento-mor Manoel Pinheiro Osório, português de Valongo, radicado em Oeiras, e de sua esposa Joana Thomazia Clara. Entre as irmãs de sua esposa consta Maria Bárbara da Anunciação, que foi casada com o militar maranhense de ascendência portuguesa Francisco Xavier de Miranda Machado, pais do tenente-coronel Manoel Pinheiro de Miranda Osório e do coronel José Francisco de Miranda Osório, este último seu genro, daí dizer-se ter sido ele seu tio e orientador. De fato, era tio por afinidade.

Do referido consórcio deixou o capitão Manuel Antônio da Silva Henriques, os seguintes filhos: 1. D. Mathildes Nonata Angélica da Silva, nascida em 1795, que com apenas 9 anos de idade, em 27 de dezembro de 1803, conforme contrato de doação esponsalícia, foi prometida e contratada em casamento com o rico comerciante Manuel José da Cunha, de 45 anos de idade, radicado em Parnaíba, mas natural da freguesia de Lamedo, Arcebispado de Braga, Portugal, filho de Antônio da Cunha e Dona Perpétua da Cunha; 2. D. Angélica Rosa Umbelina da Silva, que fora casada com o referido primo materno, José Francisco de Miranda Osório, também biografado nesta obra; 3. D. Leonor Sebastiana Henriques da Silva, prematuramente falecida, solteira, antes do genitor; 4. Domingos Dias da Silva Henriques, cujo nome foi uma homenagem ao tio-avô; e, 5. Ricardo Henriques da Silva, que em 1804, recebeu em doação, duas partes dos bens de Manuel José Vieira de Abreu.

Manuel Antônio da Silva Henriques, desde cedo, ingressou no comércio, ao lado do genitor e do tio, respectivamente, João Dias da Silva e Domingos Dias da Silva, empresários de iniciativa e pioneiros no comércio parnaibano, onde chegaram em 28 de março de 1772, ao que se supõe. Porém, o pai faleceu muito cedo, tendo recebido do tio importantes orientações no início de sua vida comercial.

Herdando grandes cabedais e sabendo multiplicá-los, graças ao tino comercial, tornou-se um dos homens mais ricos do Piauí, ao lado dos referidos primos, Simplício e Raimundo Dias da Silva. Foram eles grandes comerciantes em Parnaíba. A casa comercial do capitão Manuel Antônio da Silva Henriques foi uma das mais respeitadas do Nordeste.

Diversificando suas atividades empresariais, investiu também em fazendas com grande rebanho de gado vacum espalhado pelas capitanias/províncias do Piauí, Maranhão e Rio Grande do Norte.

Ingressando na carreira militar, sentou praça de soldado na 5ª Companhia do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Capitania, sediado na vila de Campo Maior, em 1º de janeiro de 1793. Em 11 de setembro do ano seguinte foi promovido ao posto de Porta-Estandarte do mesmo Regimento.

Entre os anos de 1794 para o de 1795, foi eleito para o cargo de Juiz da irmandade de Nossa Senhora da Graça da vila de Parnaíba, onde morava, e sua mulher em Juíza, onde, juntamente com o procurador Antônio Joaquim Simões da Veiga, fizeram um novo estatuto para melhor administração. Nos festejos de Nossa Senhora da Graça, relativa ao último ano indicado, o procurador da dita entidade distribuiu três medidas da mesma senhora, com o epíteto e franjas de ouro, patrocinados pelo dito casal, com a colaboração do parente Simplício Dias da Silva. Nesse tempo saiu ele, juntamente com o indicado primo, em grande campanha de arrecadação de donativos pelos moradores da vila e sócios da irmandade, conseguindo a importância de 751$480 réis, com que douraram e pintaram o teto da capela maior.

Progredindo na carreira das armas, em 5 de fevereiro de 1795, por ato do capitão-general Fernando Antônio de Noronha, foi promovido ao posto de capitão da mesma Companhia, na vaga aberta com a reforma de Vicente Torres da Costa. Era coronel desta Companhia o Sargento-mor Manoel Pinheiro Osório, seu sogro. Este ato de nomeação foi confirmado por Ato Real datado de 13 de maio do mesmo ano.

No ano de 1796, estando em São Luiz do Maranhão com uma sumaca sua e de seu primo, capitão Simplício Dias da Silva, a pedido do governo, aprontou-a à sua custa, para guarda da costa e dos comboios aos navios daquela praça, prestando assim relevante serviço.

Em 1800, servia na Guarnição de que era coronel Luís Carlos Pereira de Abreu Bacelar. Nesse mesmo tempo assumira o posto de Comandante da vila de Parnaíba e da fortificação da sua respectiva barra e costa. Então, com zelo e prontidão edificou e municiou, à sua custa, o reduto daquela barra do Parnaíba, fazendo disciplina e sustentando os soldados, de forma a garantir o bom e pronto cruzamento dos navios e fragatas de guerra.

Esse cidadão benemérito tinha também sonho de grandeza, tendo pleiteado em 1800, a mercê do hábito da Ordem de Cristo e o foro de Cavaleiro Fidalgo da Casa Real.



Foi, porém, um grande piauiense com larga folha de serviços prestados à sua terra, merecendo o respeito e a consideração das gerações vindouras. Faleceu em Parnaíba, dia 8 de março de 1827, onde foi sepultado. Deixou grande fortuna e um exemplo de trabalho e capacidade empreendedora.

domingo, 16 de julho de 2017

Seleta Piauiense - Ovídio Saraiva


HINO AO SETE DE ABRIL

Ovídio Saraiva (1787 – 1852)

Os bronzes da tirania
já no Brasil não rouquejam.
Os monstros que os escravizam
já entre nós não vicejam.

            Da Pátria o grito,
            eis se desata,
            desde o Amazonas
            até o Prata.

Ferro e grilhões e forças
de antemão se pregaram;
mil planos de proscrição
as mãos dos monstros gizavam.

            Da Pátria o grito...

Amanheceu finalmente
a liberdade no Brasil;
Ah! não desça à sepultura
o dia sete de abril.

            Da Pátria o grito...

Este dia portentoso
dos dias seja primeiro,
chamemos rio de abril
o que é Rio de Janeiro.

            Da Pátria o grito...

Arranquem os nossos filhos,
nomes e ideias dos lusos,
monstros que sempre em traições
nos envolveram, confusos.

            Da Pátria o grito...

Ingratos à bizarria,
invejosos de talento,
nossas virtudes, nosso ouro
foi seu diário alimento.

            Da Pátria o grito...

Homens bárbaros, gerados
do sangue judaico e mouro,
desenganai-vos, a Pátria
já não é vosso tesouro.

            Da Pátria o grito...

Neste solo não viceja
o tronco da escravidão;
a quarta parte do mundo,
as três de melhor porção.

            Da Pátria o grito...

Avante, honrados patrícios,
não há momento a perder,
se já tendes muito feito,
idem mais resta a fazer.

            Da Pátria o grito...

Uma prudente regência,
um monarca brasileiro
nos prometiam, venturosos,
o porvir mais lisonjeiro.

            Da Pátria o grito...

E vós, donzelas brasileiras,
chegando de mães ao Estado
dai ao Brasil tão bons filhos
como vossas mães têm dado.

            Da Pátria o grito...

Novas gerações sustentem
do povo a soberania,
seja isso a divisa delas,
como foi de abril um dia.

            Da Pátria o grito,
            eis se desata,
            desde o Amazonas
            até o Prata.


(*) Consta ser a letra de um primeiro Hino da Independência do Brasil, com música de Francisco Manoel da Silva, em homenagem a Dom Pedro I.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Histórias de Évora e as formas dos prazeres do tempo (*)

Dra. Liege Cavalcante, vice-prefeita de Campo Maior, Dr. Raimundo Lima, autor de A Menina do Bico de Ouro, Elmar Carvalho, autor de Histórias de Évora, e Daniele, representante do SENAC
Domingos José de Carvalho, Dílson Lages Monteiro, Lara Larissa e João Alves Filho, presidente da ACALE
Dílson Lages Monteiro


Histórias de Évora e as formas dos prazeres do tempo (*)

Dílson Lages Monteiro

O que esperamos de uma obra literária? Há leitores de todos os tipos, e leituras que se prestam a muitos fins; mas quem parte para os oceanos da literatura não consegue precisar aonde as palavras conduzirão. A identificação com o tema, o maior ou o menor grau de abstração simbólica do texto, a linearidade ou alinearidade dos núcleos narrativos, os efeitos de sentido do vocabulário e da imprevisibilidade do intertextos, as vozes que se enunciam – e, claro, as experiências do próprio comandante da embarcação – conduzem a caminhos que nem sempre se consegue controlar, principalmente quando a carga associativa de percepções e representações mentais possibilitadas pelo texto é multiforme, e se insere como elemento intrínseco à própria escritura.

O que encontra ou reencontra, pois, o leitor em Histórias de Évora?

Para situar o leitor, reproduzem-se aqui duas breves passagens:

“Afagou-lhe os cabelos e as têmporas. Em seguida, seus dedos percorreram-lhe as sinuosas e bem delineadas sobrancelhas. Seguiram o contorno da boca. Pousou o côncavo das mãos sobre as maçãs do rosto em inefável massagem. Após fixá-la em profundidade, olhos nos olhos, como se quisesse lhe devassar os mais recônditos pensamentos, colheu-lhe os lábios entreabertos, ansiosos” (p.59).

“Muito vivo ainda sinto o cheiro da cera de carnaúba, amontoada num grande depósito da Casa Machado e outros armazéns. Havia as pardas, escuras, de menor valor comercial, e a cera flor, mais clara, amarelada, de bem mais alta cotação. Recordo o cheiro acre das amêndoas de babaçu e tucum, que eram revendidas para Fortaleza, Recife e outros centros exportadores” (p.75).

A adolescência viva e revivida, sobretudo. As pequenas cidades piauienses que foram expressão do extrativismo nas décadas de 1970 e 1980, personificadas em sua decadência econômica. São essas as motivações para que o juiz e integrante da Academia Piauiense de Letras, José Elmar de Melo Carvalho, o poeta de Rosa dos Ventos Gerais, no auge de sua maturidade literária, descortine as veredas da prosa romanesca, em narrativa que, fixando-se como documento vivencial de um tempo que sucumbiu, leve os leitores para além do retrato social de costumes e valores de um tempo, à curiosidade saltitante que os sentidos da imaginação instauram.

Duas palavras em síntese definiriam o projeto literário de Elmar Carvalho, em Histórias de Évora: documento e imaginação. Caberia a esta, porém, pincelar, por meio do gosto pelos detalhes, em ações reiteradas insistentemente, por meio de episódios pitorescos, dramáticos ou cômicos que, desse modo, reproduziriam subjetivamente o próprio êxtase do prazer, o tema central do romance, a aprendizagem do amor, o que com maior grau de exatidão definiria seu estilo do ponto de vista temático-discursivo.

A isso se acrescentaria o viés memorialístico que salta aos olhos, a tal ponto que acertadamente escreveu em prefácio o crítico literário Cunha e Silva Filho. Resumindo Histórias de Évora, afirmou tratar-se de seu “reencontro proustiano pela memória voluntária com seus correspondentes lugares nos quais fez o seu aprendizado sexual – e por que não? – amoroso, espaço irremovível das suas mil lembranças de situações vividas, sonhadas, de fatos pitorescos, decepcionantes, constrangedores, humorísticos, melodramáticos e tragicômicos” (P.19).

Cabe, assim, lembrar o que disse Donaldo Schiler sobre o trabalho imaginativo dos romancistas:

“Primeiro há fragmentos, lembranças, experiências, textos. Quando estes se organizam, desencadeia-se o trabalho da imaginação, e desponta o autor como fundador do universo imaginário. Não favoreceríamos a compreensão do romance, se equiparássemos o imaginário a um supermercado de pensamentos, frases buriladas, paixões. A imaginação ordena as partes num todo móvel, aberto, repleto de indeterminações: o imaginário.” (p.73)

É essa dimensão perceptual e cognitiva, alicerçada na liberdade, que as associações mentais constroem. Por isso,  apresentam-se expressivas as palavras de Schiller ao esclarecer:

 “Todos os sistemas de palavras e símbolos constroem o universo imaginário. Fora do imaginário fica o real, ao qual não temos acesso direto. O imaginário nos permite que dele nos apropriemos e com ele convivamos. A diferença do imaginário artístico reside na liberdade resoluta, visto que não está sujeito ao rigor da verificabilidade”. (p.73)

Em Histórias de Évora, a imaginação é ditada pela enunciação do universo do desejo masculino em criar a ambiência para que a libido seja tematizada. Seguindo esse raciocínio, são abundantes as alusões a coxas, a seios, a lábios em cenas de aberto erotismo, quando não a narração do ato sexual em si em sentenças de léxico despojado. Também frequentes as referências ao funcionamento dos cabarés e aos costumes que lhe eram comuns.

Do ponto de vista formal, Histórias de Évora é um texto comportado. O próprio autor faz questão de enfatizar: “Deixo logo bem claro que não desejei fazer obra de vanguarda. Quis apenas contar umas histórias, pois sempre entendi que um romance ou conto deve narrar algo. Contudo, não quis apenas ser um simplório contador de histórias ou “causos”. De fato, embora não se predisponha a romper com a tradição literária, não lhe faltou inventividade, considerando-se a estratégia empregada para um maior ou menor distanciamento do objeto discursivo.

Assim é que Marcos Azevedo, o protagonista, estudante secundarista, amante dos livros e da arte, que ao longo do livro se transforma em um septuagenário, declaradamente um “alter ego” do autor, propõe-se a narrar suas descobertas amorosas e a ação do tempo sobre hábitos e espaços, a partir de duas instâncias enunciativas, com foco narrativo em primeira e terceira pessoa. Demarcam-se, pelo rompimento com a linearidade do ponto de vista, não apenas duas idades cronológicas, mas também um distanciamento em relação aos acontecimentos que os tornam presentes, cristalizados pela marca da lembrança.

Para enfatizar que o tempo emergente na literatura é um tempo social, um sentido coletivo, Luis Alberto Brandão e Silvana Pessoa, em clássico estudo sobre o sujeito, o tempo e o espaço ficcionais lembram que se costuma pensar no tempo em duas perspectivas. “Uma perspectiva objetiva que associa, ao tempo, aspectos cosmológicos, físicos (o tempo como parâmetro dos movimentos descritos pelos astros celestes ou como medida do envelhecimento dos seres). E uma outra perspectiva que sugere que há, sempre, uma percepção, uma consciência do tempo – perspectiva que torna possível se falar de tempo psicológico, subjetivo, ou de tempo imaginário”(p.52). Estariam as duas perspectivas inter-relacionadas, porque são modelos de percepções, exteriores a elas, criando, dessa maneira, a referência e a interpretação.

Cria Elmar Carvalho a dimensão de um tempo imaginário, assinalado pela imprecisão (não seria inexata a linguagem do corpo?) de uma forma particular de entretenimento, ao se remeter à idade cronológica do personagem-protagonista Marcos e às ações que se relacionam de modo individual à cada fase das vivências desse  personagem. Cria um movimento que traduz as transformações do corpo físico e da geografia social e humana. Nessa tarefa, cada capítulo funciona como uma digressão a aspectos particulares da memória, que, não obstante pareçam desconectados em algumas passagens, vão gradativamente estabelecendo o vínculo causal, responsável não somente pela unidade temático-discursiva, mas também, e sobretudo, pela dimensão estética do texto. Ela é alcançada pelas descrições, em detalhes, de aspectos culturais sobre um “modos vivendi” específico como elemento de sociabilidade, o mundo dos antigos cabarés. Para atingi-lo, emprega a repetição intensa de episódios relacionados à descoberta do sexo, realçando-lhe os significados.

Nesse processo, o narrador leva o leitor, independente do foco que escolhe para contar, a questionar o que é o belo, a sentir as pulsações da adolescência sobre o corpo, a vasculhar a ousadia e os temores da frequência às casas de sexo, a conhecer e relembrar os rituais de comportamento que antecediam ao ato sexual, a mergulhar nas curiosidades, satisfações e decepções despertadas pelo amor. Conduz, ainda, o que é enfatizado pela voz que conta como fundamental para a narrativa, ao universo de Évora, uma fusão de Parnaíba e Campo Maior, conforme diz o autor, em nota de advertência.

Aqui está retratado o perímetro central de ambas as urbes, em sua atmosfera de encanto arquitetônico:

“Na Rua Grande, (...) havia os sobrados mais antigos e os luxuosos chalés e palacetes de seu apogeu comercial, da época áurea do extrativismo, da industrialização do pó da carnaúba, da maniçoba, do jaborandi, da oiticica, do algodão e do óleo de babaçu” (P.75)

“Velhas casas solarengas, vetustos sobrados, antigos casarões em estilo colonial (...) a 150 metros da matriz (...) a Zona Planetária” (p.76)

E assim se constroem as Histórias de Évora. Histórias de prazer, ruínas e sonhos, que a marca indelével do tempo e da oralidade vai tratando de passar adiante, pelo ouvido das portas e janelas e de textos que procuram traduzir a alma e a essência do que permanece para sempre. A alma e a essência de uma gente. Ouçamos o que portas, janelas e desejos têm a dizer...

(*) Palestra pronunciada pelo professor, escritor e poeta Dílson Lages Monteiro, membro da Academia Piauiense de Letras, no auditório do SENAC, em Campo Maior, no dia 07/07/2017, por ocasião do lançamento de Histórias de Évora, em cuja solenidade também foi lançada a obra A Menina do Bico de Ouro, da autoria de Raimundo Lima.   

segunda-feira, 10 de julho de 2017

DEPOIMENTO SOBRE GERVÁSIO PIRES DE CASTRO NETO

Alcenor visto por Gervásio
Gervásio em autorretrato, retratando o poeta Elmar Carvalho


DEPOIMENTO SOBRE GERVÁSIO PIRES DE CASTRO NETO

Alcenor Candeira Filho

     Natural de Parnaíba-PI (1950),  Gervásio Pires de Castro Neto  foi morar a  partir de 1965 no Rio de Janeiro, onde vive até hoje.
     Foi na “Cidade Maravilhosa”, onde estudei de 1966 a 1971, que me tornei seu amigo. Lá alguns parnaibanos costumavam encontrar-se em fins de semana para “beberipapos”. Nesse tempo Gervásio chegou a escrever alguns poemas, mas logo descobriu que a sua verdadeira vocação artística era para o desenho, revelando-se grande caricaturista.
     Acredito que se Gervásio Neto houvesse ao longo da vida tentado conciliar a profissão de bancário com uma atividade artística mais constante, divulgando trabalhos através de jornais, revistas, internet e exposições, - teria hoje um número bem maior de admiradores. Mas ele sempre foi avesso a holofotes. Só desenha quando quer, nunca por obrigação ou dever.
     Já retratou com mágicos traços humorísticos  vários parnaibanos, como o ex-prefeito José Hamilton Furtado Castelo Branco, o músico Weber Mualem de Moraes, o desenhista Fernando Antônio Melo de Castro, o escritor Carlos Henriques de Araújo, o desenhista  Francisco de Assis Lemos, conhecido como Guerreiro, e muitos outros.
     À sua arte devo as capas de dois livros de minha autoria: TEORIA DO TEXTO E OUTROS POEMAS e SELETA EM VERSO E PROSA.
     Quem vê o artista vestido sempre de calça e camisa pretas, com o inseparável boné também preto, poderá imaginar que ele vive de luto, ensimesmado,  macambúzio, sorumbático. Mas isso não passa de aparência. Quem conhece bem o Gervásio Neto sabe que ele adora conversar, especialmente em rodadas de cerveja em bares e botecos modestos. Discorre com  desenvoltura  sobre assuntos gerais, opinando, argumentando, concordando, discordando. Enfim, um cidadão bem in/formado, que não abre mão das próprias convicções.
     Na juventude, em períodos de férias escolares, eu e ele participamos em Parnaíba de um bloco carnavalesco denominado “Negro Gato”. A turma só entrava nos clubes (AABB e Igara) ao som da música  “O Negro Gato”, de Roberto Carlos, executada em ritmo de carnaval. Não lembro se à época, fins dos anos 60, Gervásio Neto já se trajava todo de preto, como não sei se a mania pela indumentária  da cor da noite de lua e de estrelas ocultas no blecaute de nuvens espessas nasceu a partir do “Negro Gato”.
     Gervásio Neto re/criou  na sua especialidade de desenhista as vinte e cinco personagens poeticamente retratadas por Elmar Carvalho no livro POEMITOS DA PARNAÍBA.
     O caricaturista não conheceu pessoalmente várias dessas personagens, mas as caracterizou fidedigna e artisticamente através de traços e cores a partir dos perfis poéticos criados por Elmar Carvalho. O trabalho do artista plástico revelou-se tão valioso quanto o do artista da palavra, na medida em que, fiel ao exemplo deste, expressa aspectos físicos e morais das personagens que desfilam no livro.
     Um dos fatos mais marcantes de meus tempos de Rio de Janeiro ocorreu no dia em que eu, Gervásio e outros parnaibanos fomos presos no sombrio ano de 1970, episódio que me levou a escrever um texto – “Prisão de Parnaibanos no Rio de Janeiro - , publicado  em blogues/portais piauienses e inserido no livro de minha autoria POLÍTICA E OUTROS TEMAS PARNAIBANOS.
     Em final de tarde de um sábado, os parnaibanos fomos levados em três viaturas policiais (fuscas) com sirenes ligadas e barulhentas à delegacia da rua Bambina, em Botafogo.
     Após enfadonhos depoimentos, todos fomos liberados sem necessidade de habeas corpus, com direito a imediata comemoração em bar  próximo da delegacia.
     Nunca nos envergonhamos nem nos vangloriamos da ocorrência: afinal de contas não éramos heróis e fomos detidos por pouco tempo - no máximo sete horas - , não pela prática de ato delituoso mas pelo simples fato de havermos “entrado de gaiatos no navio” ou de estarmos “no lugar certo em  hora errada”.
     O lugar era “certo” porque se tratava do apartamento do 11º andar em que moravam os parnaibanos Weber Mualem de Moraes, Antônio Dutra (Cambel) e os irmãos Benedito, Paulo e João Paulino Soares. O minúsculo  apartamento  era um dos lugares de reunião de nossa turma nos finais de semana e por isso eu, Gervásio Pires de Castro Neto, Raimundo Furtado de Mendonça Neto (Raimundinho Arraia) e Arnaldo Prado lá nos encontrávamos como visitantes.
     Nessas visitas costumávamos tomar os primeiros copos  de cerveja para, em seguida, com a chegada da noite, vagar de bar em bar até o amanhecer, porque gostávamos de ver o sol nascer no vazio da cidade maravilhosa.
     Se o lugar era “certo”, o momento foi “errado”, porque ninguém esperava a chegada repentina de Antônio Dutra, o Cambel, inteiramente fora de si, furioso, desafiador, provocador, insultando o tempo todo os irmãos Soares. Lembro-me de uma panela com ovos no fogão e de Cambel ameaçando jogar nos desafetos a água que nela fervia. Ele bradava: “Aqui só respeito o Noba, porque joguei botão na casa dele várias vezes e sempre perdia”. Nunca se soube se Cambel estava drogado. Mas sem dúvida estava transtornado. Chegou a agredir fisicamente os irmãos Soares, que reagiram moderadamente, na medida suficiente para dominar ou domar o agressor. Em verdade, todos tínhamos as mesmas parnaibanas raízes e éramos amigos.
     Mas Cambel estava possesso. Mesmo depois da surra que  levou, começou a jogar da janela do apartamento garrafas vazias de cerveja no pátio do edifício. Os vizinhos ligaram, e logo viaturas da polícia estacionaram em frente do prédio. Os policiais entraram no pequeno apartamento com armas na mão e gritando: “Todos com as mãos na parede”. E visitantes, moradores e apartamento foram minuciosamente revistados. Nenhuma droga foi encontrada. Em seguida, todos fomos algemados: eu junto com Gervásio, Raimundinho com Arnaldo, Benedito com Paulo, enquanto Cambel e João Paulino foram algemados sozinhos.
     Na delegacia da rua Bambina, prestamos depoimentos até de madrugada. Do momento de meu depoimento lembro a indumentária quase carnavalesca do delegado: camisa manga comprida amarela/corrupião, gravata verde/pavão  e calça preta/urubu. Não fitei os sapatos nem meias, mas os cabelos compridos  com rabo de cavalo jamais me sairão das retinas.
     Ao saber que eu fazia o quarto ano de direito, disse: - Você está começando muito bem a vida de advogado. Cuidado. Pare com essa cachaça e vá estudar.
     Em seguida, o delegado passou a inquirir Gervásio Neto.
     Naquele fim de semana Gervásio se despedia dos amigos. Iria na semana seguinte para Curitibanos para assumir emprego no Banco do Brasil. Naquele momento, portanto, ele não trabalhava nem estudava. E o delegado:
     - O que você faz na vida?
     - Já compro feito.
     - E seu dinheiro cai do céu?
     Tudo esclarecido, Gervásio foi liberado, o que aconteceria com os demais.
     Funcionário aposentado do Banco do Brasil S.A., Gervásio Neto é filho de Francisco José Pires de Castro e Maria Antônia Melo de Castro. Casado com Ana Maria com quem tem duas filhas: Vanda e Natacha.                                                                                                   

domingo, 9 de julho de 2017

Lançamento de livros em Campo Maior

Dra. Liege Cavalcante, vice-prefeita de Campo Maior, Dr. Raimundo Lima, Elmar Carvalho e Daniele, representante do SENAC

Sobre o lançamento de Histórias de Évora e A Menina do Bico de Ouro em Campo Maior, vejam os links abaixo:

https://luselenedecampomaior.blogspot.com.br/2017/07/lancamento-de-livros-em-campo-maior-por.html

http://www.campomaioremfoco.com.br/noticia/5233/LITERATURA:-Romance-com-a-historia-de-Campo-Maior-na-decada-de-1970

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Lançamento de Histórias de Évora e A Menina do Bico de Ouro em Campo Maior


O SENAC/Campo Maior convida para o lançamento dos livros Histórias de Évora (romance) e A Menina do Bico de Ouro (infanto-juvenil), respectivamente da autoria de Elmar Carvalho e Raimundo Lima, conforme convite acima.

O primeiro será apresentado pelo professor, poeta e romancista Dílson Lages Monteiro e o segundo, pela romancista e cronista Lara Larissa. O Dr. Domingos José de Carvalho discorrerá sobre a Campo Maior dos anos 1970/1980 vista em Histórias de Évora.

O convite é extensivo a todos os interessados em literatura.

A Évora do romance é uma cidade fictícia, porém inspirada na Campo Maior e Parnaíba dos anos 1970/1980.  

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Comentário sobre Histórias de Évora


Caro irmão amigo Elmar.

Com alegria e prazer recebi o livro HISTÓRIAS DE ÉVORA. Li vários de seus capítulos no seu Blog e, creia, muitas vezes me vi inserido no contexto de algumas passagens, relembrando a minha adolescência em Teresina. Em outras passagens parecia estar vendo paisagens de sua querida Campo Maior, algumas da Parnaíba e, além mais, Piracuruca que visitei algumas vezes nas férias escolares quando meu saudoso pai, Hermes Dias Pinheiro, era Chefe do Posto Fiscal da Secretaria de Estado da Fazenda, no povoado Alto Alegre, Naquela época, dizia-se que a finalidade da fiscalização era para inibir o contrabando de cera de carnaúba para o vizinho estado do Ceará, de cujo porto marítimo era exportado para a Europa e Estados Unidos como produto da terra alencarina. Bons tempos, belos dias banhando nas águas dos rios Parnaíba, Piracuruca e Jenipapo, aprendendo a nadar precocemente. Aprendi, também, a dançar, diga-se de passagem, não muito bem, como soe acontecer até hoje, apesar das boas mestras que tive, incluindo as primeiras namoradas.

Tenho certeza que, agora, irei devorar o seu livro comprazer e nostalgia da aurora da minha vida que os anos não trazem mais, com a permissa vênia do grande vate do romantismo brasileiro Casimiro de Abreu.

Os afazeres da inatividade levam a culpa do atraso da minha manifestação.
Com o abraço do seu leitor e admirador.

Orlando Martins Pinheiro

Teresina, 04.07.2017.

AOS QUE SE DESILUDIRAM COM A LITERATURA E A VIDA LITERÁRIA


AOS QUE SE DESILUDIRAM COM A LITERATURA E A VIDA LITERÁRIA

Cunha e Silva Filho

          É com  tristeza que, de quando em quando,  vejo   um amigo  me dizer que um colega deixou  a literatura de lado; foi  cuidar de outras coisas, de jardins,  de rosa e da vida, que é breve e, como a maré,  não espera por ninguém segundo  um adágio inglês. Um vez,  li, numa história sintética da literatura norte-americana,  que uma grande poeta de lá, ao final da vida,  lamentou-se mais ou menos nestes termos: “ Oh, como  perdi tanto  de minha vida  pessoal  por causa  da literatura! Por que não dei  mais valor à vida, à minha vida, que é muito mais  importante do que a literatura?”
       Quando um  escritor,  amante dos livros e da escrita, desiste pela afastamento,  em vida, da literatura,  o faz pelo suicídio, conforme ocorreu com Ernest  Hemingway( 1898-1961) e com outros autores do mundo  inteiro. É muito  lamentável que  possa acontecer isso, mas, ao mesmo tempo,  quem somos nós para   penetrarmos  nos  recônditos da alma do artista, a fim de reprovarmos o que faça com o que mais  - assim  o pensamos -   lhe deu  prazer  na vida? Adiante  vou  tentar  levantar algumas hipóteses.
       Uma delas seria  a constatação de que o autor   nada tinha mais a  escrever, ou que     o fazia porque  achava que teria dito  por escrito tudo  aquilo  que queria. Para outro  autor,  seria  por falta  de   força de   criatividade, ou seja,  porque o poço secou. Se tentasse mais,  qualquer  livro seria repetitivo  ou  teria  uma qualidade inferior  a obras anteriores.
      Cada escritor tem sua história de desistência e uma delas seria  a confirmação de que o sucesso nunca chegaria à sua porta. Por que insistir naquilo que  não lhe daria satisfação  e sentido de realização plena? Perderia, assim, a crença  na sua individualidade  artística,  i.e.,   deixaria de representar   qualquer uma  daquelas cinco  soluções para o conceito  de literatura formulado  por Raúl Castagnino, na obra Qué es literatura? : sinfronismo,  ludismo,  evasão, compromisso e  ânsia de imortalidade.
     É óbvio que ninguém escreve para o vazio,  quer dizer, para não ser lido nem apreciado. Quem escreve  precisa de feedback, de quem lhe dê atenção,  de quem o leia, e o que se nota, hoje mais do que no passado,  é a ausência  de leitores, eles mesmos   com dificuldades  de dar prioridade  a esse ou àquele autor. Quem chegar à ideia de  números de leitores de Machado de Assis, que se dê por satisfeito... Mas que seja  reconhecida  a certeza de que  nenhum  leitor é obrigado a ler  esse ou aquele autor, dentre  de um oceano de   opções, não só  no seu  próprio  país, como  em escala  global. Seja entendido que o que aqui  estou  meramente  especulando   é um terreno  movediço e cheio de susceptibilidades.
     Centremo-nos,  porém, nos dois aspectos  assinalados no título deste artigo. A desilusão do autor, por múltiplas  razões, é uma questão  abissal,  que fere  todo o mecanismo   psicossomático  do autor e, se ele não estiver  armado   de grande força  de  resistência,  sucumbirá   diante da  avassaladora  engrenagem  seja das mídias,  seja  do mundo editorial,  seja  do contexto  intelectual  de cada  país, desilusão com as editoras, todas  quase preocupadas com  os lucros   e fortemente   protegidas   contra  a perda de receitas. Poder-se-ia  perguntar: isso  já havia no passado, diria melhor,  nos anos  vinte,  trinta, quarenta, cinquenta, sessenta do século  passado? Seguramente  que sim.
    Grandes escritores  brasileiros  tiveram que custear  sua  obra de estreia. Manuel Bandeira (1886-1968) foi um deles e assim  por diante. E hoje, a situação se tornou   ainda mais espinhosa e  não mudou  muito.
    Vários escritores jovens ou menos jovens  estão  publicando  livros   por conta  própria, já que, se dependerem  de editoras, das chamadas  grandes editoras,  dos  melhores selos nacionais,  do elitismo  editorial brasileiro,   jamais terão seus livros  lançados. Primeiro,  porque têm que  passar  pelo crivo de  seus conselhos editorais, exigentes  para alguns   autores e flexíveis para outros que façam    sintonia com a sua linha ideológica  e editorial, segundo   porque, posto  ser compreensível,  não desejarão bancar livros que não lhes interessem nem um pouco. Dessa forma,  a despeito  dessas grandes editoras,  os autores  teimam e terminam  bancando com sacrifícios  seus  próprios  livros que, se caírem  no gosto  dos leitores,  poderão  ser  vendidos ou serem encalhados.
   Assim aconteceu comigo e com outros  autores. Por outro lado,  ainda estão vigentes    outras formas de  publicações: as custeadas  por  convênios entre entidades  privadas e públicas,   que nada  custarão aos bolsos  dos autores. Se, contudo,  as obras, agora as estrangeiras,  fazem sucesso lá fora,  aqui são logo  agasalhadas,   traduzidas  e vendidas, mormente se forem  best-sellers, obras de autoajuda e assemelhadas. Tudo isso vai  pesando na consciência  dos autores que se sentem  inferiorizados,  mal prestigiadas até chegar ao ponto de exaustão,  que leva ao desestímulo  e à consequente  desistência  da atividade de escritor.
     Nada há certo  quanto ao destino dos autores  e livros. A história do livro  só atesta algo  insólito: livros antigos, de repente,   são redescobertos  pelos  editores  de hoje e são publicados. A fama que deveriam ter  desfrutado  no tempo de seu  lançamento  só o futuro  caberá  resgatar. Outros  permanecerão  no limbo assim  como a memória  da glória efêmera que já tiveram. A sorte de um livro  é, pois, imprevisível. Só o tempo dirá de autores e obras. No presente, tudo são incertezas,   incompreensões,   injustiças  e silêncios.
    Conscientes de todos essas injunções em torno da literatura, alguns autores de hoje tendem a pensar  em desistir no meio do caminho onde haverá sempre uma pedra como no famoso poema  de Drummond. Não critico  autores e  estudiosos que  se afastam  de seu ofício nem tampouco penso que  sejam  covardes  ao desistirem de seus propósitos e  de seus projetos diante de uma realidade   que lhes é cada  vez mais  ingrata, traiçoeira  e  competitiva.
   De outra parte,  falando da vida literária,  outros tantos  óbices  enfrentarão os autores  menos visíveis, sobretudo aqueles que não formam igrejinhas,  nichos  e grupelhos de   que a vida literária, mais no passado que no presente, se nutriu mais para o lado  do compadrio do que para uma saudável convívio  na comunidade  literária. Ora, quem  estiver  fora  desses  grupos fadados está a ser  deles alijados, seja por entidades culturais, sejam  pelo  mercado  editorial que, além disso,  faz a mediação  entre  autores  por  sua  orientação  ideológica, tanto quanto  se vê também  nas diversas  mídias, não só  nas metrópoles  mais importantes  do  país como também  nas capitais  com  vestígios  ainda  fortes de provincianismos. Sorte têm alguns happy few escritores nacionais  que  ganharam notoriedade  pela alta qualidade de suas obra  e conseguiram  se manter isolados e  avessos  a badalações  criadas  pelo   marketing  de livros  e pelas luzes da ribalta dos novos.
   Ao discutir  a questão  da vida literária,  nos vêm  logo à baila  os vícios  reprováveis  do cabotinismo,  da capadocismo e das traições  literárias, ainda tão comuns entre intelectuais,  principalmente nas capitais menores, como, de resto, foi no passado. Basta ver o que, sobre esse tema, com coragem   e ácida crítica  discorre o historiador  e crítico literário  Afrânio Coutinho num  ensaio  pouco conhecido das gerações de hoje, No hospital das letras.(Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1963,188 p.). Sempre que um país  ainda está preso  a esses  bairrismo,  a essas parti-pris, a essa negação do  real  papel   do intelectual  na vida literária nacional ou  dos Estados, quem perde é a literatura  e a cultura brasileira. 
    Onde existem  estrelismos,  favoritismos,   grupos fechados e elitistas, quer de  academias literárias, quer de academias   de universidades,  sempre  sofrerão os que  estão de fora,  na condição de meros pacientes do aplauso  dos mandarins  da literatura. E a questão da vida literária  não  termina aí, porque,  mesmo  dentro do grupinhos,   das instituições   culturais,  haverá   os  costumeiros   estrelismos  e favoritos, os que se julgam  donos da verdade   no campo cultural  e,  o caso,  no  terreno  da literatura – espaço  onde  grassam a inveja, o despeito,  as picuinhas,  as fofocas,  as  rasteiras, as atitudes  subalternas  de oportunistas,  os falsos,   a competição desleal,  os arrivistas, os que   representam os papéis dos personagens  do conto de Machado de Assis (1839-1908), “Um apólogo,” que compõe os contos da obra Várias histórias, um diálogo cheio de ironias e presunções, entre a agulha e  um novelo de linha,  narrativa ainda tão atual na sua prospecção da natureza da alma humana quando levada à esfera literária, os que se consideram “poderosos” nas decisões de quem  entra ou de quem não entra  nas instituições  que antes  deveriam  servir   tão-só à inteligência,  à produção  e à divulgação democrática do saber, da experiência e do conhecimento.
       Para alguns  autores,  a combinação desses dois aspectos   aqui ventilados é o principal   fator  determinante de    decisões  de alguns intelectuais pela  desistência  de um projeto   de vida ou de sadia convivência na comunidade  intelectual.
     Entretanto,  seria algo utópico  que  nossa vida literária, no âmbito nacional, fosse uma mar de rosas. Os autores se multiplicaram  em proporções gigantescas. A população de leitores também  cresceu ainda que, no caso brasileiro,  sejam ainda baixos os índices de leitores comparados com países adiantados. Por outro lado,  contraditoriamente,   fecharam-se  nos últimos anos várias grandes livraras e os sebos foram liquidados  pela sebo virtual, como serve de exemplo a Estante Virtual.
     Da mesma forma,  cresceu visivelmente o mercado de livros didáticos,  sobretudo  de livros  estrangeiros. E ainda para manter  a contradição, várias pequenas editoras  surgiram  no país. Dessa maneira,  aponta-se um outro   elemento  na questão entre  autores  e vida literária: esta sofreu  o impacto fortíssimo  do espaço virtual,  dos sites, dos blogs,  dos e-books, dos meios  virtuais com  informações  que podem  armazenar   quantidades  enormes  de obras  da grande literatura  universal que caíram  no domínio público.
     Todo esse novo e trepidante  instrumento virtual ao nosso alcance desencadeou  novas formas de vida literária vindo a misturar  o mundo real e o virtual. Só que, desta vez,  como ilhas  independentes, dispersas,   impessoais,   modificando profundamente os velhos hábitos de antiga vida literária,  sobretudo daqueles  encontros tão comuns    de escritores, alguns vindos de outras partes do país,   na Livraria São José, anos  1940, 1950, para citar um só  exemplo, num  Rio de Janeiro mais calmo e menos volátil.