domingo, 15 de outubro de 2017

Histórias de Évora. Os novos voos do Poeta

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Histórias de Évora. Os novos voos do Poeta

Hércules Amorim *

Em novo rol de escritos, como sempre escancarados à crítica e imaginação de quem os lê, o escritor e poeta piauiense Elmar Carvalho nos leva agora a uma viagem de retorno a nossos primórdios, colocando em capítulos a forma, tonalidade e expressividade já demonstradas em outras obras de sua verve.

Trata-se de Histórias de Évora, a cidade imaginária onde personagens vivem intensamente os períodos mais belos e conflitantes -  ora felizes, ora tristes e mesmo hilários - das suas formações comportamentais e, principalmente, humanas. São histórias e estórias da pré até perto da pós-adolescência de jovens que não se contiveram em apenas ver a vida passar, mas colocaram nela molho apimentado, fatos e acontecimentos que, vivenciados, nos trarão à boca o licor da saudade.

Não dá para dispensar observação singular ao estilo. Constatar que Elmar alguma vez passou pelos bancos da escola Parnasiana, embora, modestamente, não se aprofunde ou guie-se pela construção fidelíssima de textos buscados e rebuscados. Por isso, a fazer aquilo que se torna pura expressão do antagonismo latente entre dois movimentos literários de peso: cai não só na linguagem bem apurada dos plenos sentidos, mas também no Romantismo, aliás bem apropriado à época em se desenrolam as histórias de sua fictícia – e tão concreta – Évora.

Elmar, à certa altura, nos deixa confusos sobre o personagem que ele próprio encarna. Mas no conjunto, fica evidente o que mais o retrata, especialmente para os que trafegam no seu cotidiano literário e no seu cotidiano de cidadão simples, mas, não raro, meticuloso. Os textos, com esmeradas narrações, deixam patente o simbolismo e sonoridade das palavras, como se cada uma represente uma imagem, uma foto. Não poderia ser diferente. Se em alguns parágrafos o leitor estranhar um possível exagero da forma, para melhor deduzir o conteúdo leia ou releia José de Alencar e veja se seria possível descrever a silhueta da Virgem dos Lábios de Mel sob a luz da lua cheia com apenas dois ou três adjetivos, e sem nenhum superlativo.

Os escritos, vezes eruditos, em Histórias de Évora, são colocados com o objetivismo ou a subjetividade necessários à narração dos eventos picantes, trágicos ou tragicômicos que vivenciaram seus protagonistas. São eles quase sempre sedimentados numa paixão efêmera ou naquele amor que de tão significativo tornou-se quase eterno, para eles e para nós, leitores. Podem se materializar à vontade no Marcos Mendes Azevedo, no Mário Cunha, no Fabrício e amigos, cada qual com sua personalidade e seu modo de se comportar nas histórias da cidade que, em determinado ponto, percebe-se, se compõe numa ampla faixa de terra sertaneja.

Como em toda obra de estrutura segmentada, alguns capítulos ou narrativas levam à preferência.  Como leitor, indico singular atenção ao “Dono do Céu” - com sua pernóstica lourinha, filha, pra variar, de um abastado comerciante -; o “Lendário Zé Lolô” - em sua indescritível feiura –; a “Balzaquiana”, de farta e bela memória –; e o impagável último “ Voo do Pardal”, se é que houve algum anterior.  Se houve ou não, fica para outra história, possivelmente em outra encarnação. Certo é que espocou manchete em “A Batalha”, periódico eborense, a despeito de que ainda hoje não se tenha notícia sobre a real situação e o quê de fato está por trás do mistério envolvendo o genial Eugênio, audaz criador de engenhocas que lhe carimbaram o apelido de “professor Pardal”, mais tarde somente Pardal.

Ademais, bebam, degustem e curtam o que de melhor nos revolve aos tempos da meninice e juventude por vezes sofridas, mas sadias, cheias de traquinagens, descobertas, namoros, flertes fortuitos, alegrias, saudades e gradual apuração da sexualidade. Tudo isso nos contando como eram diferentes os interesses dos jovens de há mais de três décadas, em particular a paixão pela leitura e o bom uso da palavra.

Que todos os leitores se instalem na sua própria Évora. E que Elmar Carvalho prossiga em suas viagens, sempre nos trazendo boas novidades.


* Hércules Amorim é jornalista  

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O SUICÍDIO DO ENTALHADOR DE PORTAS DE IGREJA

Fonte: Google

O SUICÍDIO DO ENTALHADOR DE PORTAS DE IGREJA

Chico Acoram Araújo *

                No decorrer de 2012 tive a grata satisfação de colecionar encartes do “Jornal O Dia” com o título TERESINA 160 ANOS, organizado pelo ilustre professor, historiador e cronista Fonseca Neto. Esses encartes, que acompanhavam as edições do citado jornal das quartas-feiras e domingos, enfocavam histórias sobre a nossa querida cidade de Teresina desde que foi fundada por Conselheiro Saraiva, tendo como pano de fundo, notícias do Brasil e do mundo a partir do ano de 1850 até a primeira década do ano de 2000.
                Li, de forma efusiva, todas as histórias da capital do Piauí contadas nesse precioso livro composto de encartes do Jornal, que até então as conhecia superficialmente, ou desconhecia totalmente. Mas, dentre essas importantes histórias, uma me chamou mais atenção: aquela do encarte de folhas 99 e 100, com o título “Sebastião: paixão e morte na Benedita Matriz”. Segundo o organizador dos encartes, Sebastião Mendes foi o escultor de cinco das sete portas da igreja de São Benedito, obras essas tombadas pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Fonseca salienta ainda que ele foi um artista talentoso, um homem cheio de fé, e marcado por uma tragédia.
                  Na Chapada do Corisco, na margem direita do rio Parnaíba, despontava uma auspiciosa urbe; a nova capital da Província do Piauí, fundada pelo jovem presidente José Antônio Saraiva no ano de 1852. O contorno urbano da cidade começava a emoldurar-se sob a batuta do mestre de obras João Isidoro da Silva França, o grande arquiteto da construção da cidade de Teresina. A igreja do Amparo foi a primeira edificação da cidade, cuja capela-mor foi inaugurada em 25 de dezembro de 1852, portanto o marco zero de Teresina. Daí em diante outras importantes obras públicas foram erigidas. A igreja das Dores foi o segundo templo construído em Teresina, em 1865. Muitas ruas foram surgindo: Rua do Barrocão (hoje, José dos Santos e Silva), Rua da Chapada (Tiradentes), Estrada Nova (Rua Rui Barbosa), Rua Glória (Lizandro Nogueira), Praça da Constituição (Praça Deodoro ou da Bandeira) e muitos outros logradouros.
                Em 1874 chega a Teresina frei Serafim de Catania, padre franciscano de origem italiana com formação em arquitetura. Sob sua orientação, e pelo trabalho da comunidade de escravos e das famílias humildes, bem como das contribuições dos ricos da cidade e proprietários de terras, inicia-se, em 1874, a construção do terceiro templo católico de Teresina, a majestosa igreja de São Benedito. Escolheram para a sua localização, o alto da Jurubeba, ao lado de um cemitério onde se enterravam pobres, escravos e mendigos; os ricos, por sua vez, eram sepultados no cemitério São José, na zona norte da cidade. A construção da igreja transcorreu de forma complicada em decorrência da grande epidemia de varíola ocorrida em 1875, e também em razão da grande seca de 1877 a 1879. A conclusão do templo somente veio acontecer 12 anos depois, em 03 de julho de 1886.
                É dentro desse cenário de Teresina dos anos oitocentistas, e inspirado nas informações do emérito professor Fonseca Neto e da mestranda Katiuscy da Rocha Lopes (item 2.3.2 da Dissertação apresentada ao curso de Mestrado Profissional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que resolvi recordar um pouco a história de Sebastião Mendes de Sousa, o genial escultor piauiense que entalhou as famosas portas da igreja de São Benedito. Cabe salientar que, conforme esclarece o precitado professor, a história sobre Sebastião Mendes nunca foi escrita, sendo conhecida em Teresina através de várias gerações, ou seja “passando de bocas a ouvidos e destes a outras bocas”.  No entanto, enfatiza ele, existem na literatura piauiense breves citações de cronistas da época dando notícias sobre esse importante escultor. Por exemplo, Celso Filho diz que é um engano atribuir os trabalhos das portas da igreja de São Benedito ao famoso mestre Aleijadinho, e que a obra foi verdadeiramente realizada por Sebastião Mendes. Esse cronista diz ainda que Sebastião morou, entre 1875 a 1878, no quarto dos caixeiros da Casa Comercial do Barão de Urussuí (Coronel João da Cruz Santos), onde deu aulas de logaritmos, aritmética e progressões a Higino Cunha, que consignou o fato em suas Memórias. Outro cronista da época que cita o anônimo artista é o memorialista Elias Martins. Em sua monografia “Frei Serafim de Catania”, Elias declara que Sebastião Mendes fora um “artista célebre”, “nascido em terras do Piauí”, e que morreu “desastradamente ainda no florescer da idade”. De outra parte, Katiuscy Lopes em sua dissertação transcreve a Resolução 630, publicada em 18 de agosto de 1868, assinada pelo Vice-Presidente da província do Piauí, José Manuel de Freitas, autorizando despender anualmente, durante quatro anos, a quantia de um conto de réis com a subvenção prestada a Sebastião Mendes de Sousa e Philomeno Jullef Portela Richards, para cursarem os estudos de belas artes, em qualquer Província do Império. Essa Resolução estabelece ainda que o pensionista Philomeno Jullef se aplicaria ao ramo da pintura, e o pensionista Sebastião Mendes ao de escultura.
                Mas, antes disso, nos idos anos de 1860, o pequeno Sebastião já andava perambulando pelas ruas da nova capital da Província do Piauí vendendo peças artesanais que ele mesmo produzia. Revelou-se genial na arte esculpir figuras, imagens e gravuras em madeira, buriti e outros materiais. Os habitantes da cidade ficavam maravilhados com a genialidade do garoto que tinha apenas dez anos de idade. Fonseca registra que Sebastião era um santeiro por excelência. “Entalhava um rosto qualquer numa velocidade e com tanta graça que a todos causava grande admiração”, diz o eminente historiador.
                Por sua vez, Katiuscy Lopes cita que Sebastião Mendes teve, com o apoio de amigos do seu tio, a oportunidade de mostrar ao presidente da província do Piauí, as peças que tinha produzido. Informação aditada pelo ilustre professor Fonseca Neto ao relembrar que, ainda no gabinete do palácio, deram ao escultor um pedaço de madeira para que ele esculpisse o rosto do presidente, o qual ficou muito admirado quando viu sua efígie naquele pedaço madeira. Esse fato ensejou, tempos depois, que o jovem artista recebesse da província do Piauí uma bolsa anual por quatro anos para estudar na Academia Imperial de Belas Artes, no Estado do Rio de Janeiro, conforme afirma Katiuscy.
                De volta Teresina, o presidente da província encomenda ao recém-formado na Escola de Belas Artes do Rio Janeiro para cinzelar as sete portas da igreja São Benedito que estava em fase final de conclusão da obra. É provável que autoridade tenha convidado Sebastião Mendes para realizar o nobre trabalho para compensar a subvenção que tinha recebido do governo, e, obviamente, pelo fato de ser ele um excelente escultor. Sebastião aceita o desafio, e começa a esculpir as portas, ali mesmo na igreja, com todo esmero e primor artístico da época.
                Fonseca Neto relata, por fim, que Sebastião Mendes não chegou a concluir o conjunto das sete portas encomendadas por conta de um relacionamento amoroso frustrado que o levou a tirar a própria vida, no ano de 1886. E por conta do infausto acontecimento, apenas cinco portas foram talhadas, e mostram os traços artísticos do brilhante escultor, com detalhes almofadados e motivos de folhas e flores. As outras duas portas restantes foram feitas por outro entalhador de nome não conhecido, que imitou os traços das outras portas esculpidas por Sebastião Mendes.
                Sobre o suicídio, o professor nos relata que Sebastião, rapaz negro e de origem humilde, se apaixonara por uma bela jovem pertencente a uma aristocrática família de Teresina. Às escondidas, os dois enamoram-se. Não por muito tempo. O namoro chegou ao conhecimento dos pais da moça, que, ao tomar conhecimento da relação, tomaram a decisão de encaminhar a filha para o distante sul do país. O pobre rapaz, quando soube da partida da sua amada, acometeu-se de uma imensa desilusão e sofrimento, fato que o levou a cometer suicídio.
                Como foi dito anteriormente, da história desse grande escultor piauiense, muito pouco se sabe, pois jamais foi escrita. O pouco que se conhece a respeito desse notável artista decorre de informações passadas e difundidas por anônimos ao longo de várias décadas. As razões para tanto se deve, segundo Fonseca Neto, ao fato de ser ele negro, pobre, e por ter ceifado a própria vida. Portanto, foi escolhido para ser esquecido. A biografia desse ilustre piauiense precisa ser resgatada, enfatiza o nobre historiador.
              

*Chico Acoram é contador, funcionário público federal e cronista.           

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

De José de Freitas ao Arco-Íris



De José de Freitas ao Arco-Íris

Elmar Carvalho

Atendendo convite do amigo Raimundo Lima, escritor e juiz aposentado, fui, em companhia de Fátima e minha irmã Maria José, visitar o seu sítio, localizado a 20 quilômetros da cidade de José de Freitas. Procurei sair cedo, para ter tempo de dar uma volta em seus diferentes logradouros, praças e ruas, a fim de recordar os tempos ditosos em que nela morei, quando tinha 14 anos de idade, e tudo me sorria, e a esperança habitava meu jovem peito. Como no dizer do poeta, as graças me iam à frente espalhando rosas e a estrada era verdejante e florida.

Primeiro revi o morro, no centro da cidade, que na época não tinha nome. Era simplesmente o morro, em cujo cimo se erguia um pequeno Cristo Redentor, de acolhedores braços abertos. Muitos anos depois, passaram a chama-lo de “do Fidié”, herói português; eu prefiro chamá-lo de Morro do Livramento, em homenagem ao antigo nome da cidade e às nossas lutas libertárias.

Não era poluído, como hoje, por várias antenas de telecomunicações. Eu o escalava por quase todos os lados, em companhia do Carlos, do Itamar e outros colegas de traquinagens. Quase nunca usávamos a escadaria. Quando precisei usá-la, aos 50 anos, o fiz de forma açodada, estugando os passos; mas logo senti o impacto da idade, e tive de me conter, para recuperar o fôlego. Era o prelúdio da velhice que já me acenava.

A santa – Nossa Senhora do Carmo, que eu pensava ser a do Livramento, padroeira da pequena e aprazível urbe – em seu imaculado manto branco nos acolhia. Ficávamos a seus pés, a conversar, enquanto olhávamos a paisagem ao longe e o movimento da cidade, então ainda pequena, pacata, mimosa e bucólica. Consternado, observei que a bela escultura apresentava uma crosta escura, não sei se apenas sujeira, ou se moradas de insetos, como cupins ou marimbondos, de fogo ou não. Urge que o poder público municipal ou a paróquia faça alguma coisa, para que esse belo patrimônio artístico não se arruíne de forma definitiva e irreparável. Ainda mais que é uma obra do grande escultor Murilo Couto.

Indo em direção à casa em que morei, perto da de dona Irá, mãe do Carlos, do Chico, do Nando e do Nonato, passei pelo teatro, que foi restaurado. Não sei a frequência com que é utilizado em apresentações artísticas e teatrais. Mas em 1970 ali cantaram Valdick Soriano e o piracuruquense Roberto Müller. Na frente havia o clube social e dançante, que já não existe.

Perto, mais precisamente na frente do cemitério velho, dito dos ricos, havia um campo de futebol, que ajudei a fazer, com o apoio do padre Deusdete Craveiro de Melo e o auxílio de garotos, meus colegas e vizinhos. Invadido pelas casas, não mais existe. Existe ainda a igreja de São Francisco, então inativa, e hoje restaurada e em pleno funcionamento. Foi construída por Cândida Cunha, uma das habitantes do pequenino campo santo, consoante li, menino, em sua lápide.

Para minha consternação, a casa em que morei, abandonada pelos proprietários, talvez em face de interminável inventário, já começa a se transformar em escombro. Perto dela ficava outro campinho de futebol, onde joguei diariamente, na posição de goleiro, que era favorecida pela areia fofa que então existia. Ali, garoto franzino, eu me esticava em ornamentais “voadas”, a imitar o Félix Miéli Venerando, o Beroso e o Coló. Era cercado por grandes e frondosas fruteiras. Também não mais existe, tomado que foi por residências e cercados. A casa e oficina de Zezé Barros, o melhor marceneiro de José de Freitas, lhe ficava defronte. Era ele um dos peladeiros, conquanto fosse bem mais velho que nós outros, moleques dos arredores.  

Resolvi dar uma olhada no cemitério e no estádio, que tantas vezes vi em minha infância. São contíguos. Para minha profunda tristeza e decepção, a praça esportiva, que pensei ter passado por melhoramentos, está em situação deplorável, com o muro bastante deteriorado. O cemitério, ao menos no momento em que o contornei, tinha o aspecto de que fora esquecido pelo próprio esquecimento, como nos versos de Jorge de Lima. Abandonado talvez mesmo pela morte, a quem deve servir.

Retornando ao centro da cidade, vi o prédio onde outrora funcionou a famosa Casa Almendra, fundada pelo patriarca José de (Almendra) Freitas. Tinha várias filiais, e era uma das maiores firmas do Piauí em seu ramo de atividade. Algumas vezes vi o senhor Ferdinand Freitas em seu interior, em seus afazeres. Nessa época, idos de 1970, ela só possuía uma sucursal, em Teresina, se não incorro em equívoco. Para aumentar a minha nostalgia o Bar Glória, orgulho dos freitenses, esvaiu-se no tempo, e já não ostenta a sua glória passada, o moderno balcão frigorífico e seus saborosos picolés.

Emocionado com tantas lembranças, me pareceu enxergar o vulto do padre Deusdete, vestido em sua batina, entre as naves da velha matriz. E como arremate dessas lembranças contemplei o Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, onde fiz o segundo ano ginasial na época em que o Brasil ganhou o tricampeonato mundial de futebol.

Recordei meus colegas e mestres. Nomeio alguns de meus velhos professores: Pe. Deusdete, Sebastião (colega de meu pai nos Correios), José Acélio Correia (gerente do BEP) e a professora Durvalina Pereira dos Santos, que apesar de promotora de Justiça e de lecionar matemática, que sempre foi um bicho papão, jamais intimidava ou amedrontava seus alunos, como era um vezo dos professores de matemática da época.

Entre os alunos (e contando, confesso, com a ajuda do amigo Francisco Costa, radialista e fiscal da SEFAZ, de elefantina memória) cito: Zé Bacharel (da família Chaves, vereador em várias legislaturas), Farias, Edmilson e Carlos Leite, João Rocha, Paulo Paiva e José Nascimento (Zé Rosinha), recentemente falecido, que veio a se formar em medicina. Sem dúvida, cada um seguiu o caminho que lhe coube percorrer, embora eu os tenha perdido de vista nas muitas esquinas e desvãos da vida e do tempo.

Feita esta última e sacra estação em busca do tempo perdido nos esconderijos de um passado de mais de quatro décadas, fui à procura do pote de ouro no Arco-Íris, sítio dos amigos Raimundo Lima e Benedita, juízes aposentados.

Quando Raimundo adquiriu essa fazenda, pediu algumas sugestões para lhe mudar a designação. Por ser poeta e admirador de Manuel Bandeira, sugeri-lhe “Pasárgada”, título de um belo poema do velho bardo e nome da velha cidade persa de Ciro, e “Vale do Marataoã”, por ficar à margem esquerda do histórico rio, outrora integrante do topônimo da ancestral cidade de Barras.

Ao chegar, foi que fiquei sabendo: ia ser comemorado o aniversário do bravo Raimundo. Não irei revelar de quantos anos. Foi uma linda festa, sem som volumoso e estridente, e sem cachaçada. Os irmãos, primos, sobrinhos, tios, genros e noras se estimavam, mas não houve necessidade de selfie. À sombra do alpendre e de um pé de mama-cachorro, personagem do livro infanto-juvenil do dono da casa, mantive uma agradável palestra com este, com o irmão Josué Bonfim e José Pedro Araújo.

Antes do almoço o Lívio Bonfim, casado com Lara Larissa, romancista e cronista, filha dos donos da casa, proferiu uma bela oração de agradecimento a Deus, por todas as dádivas recebidas, inclusive o alimento, que, por sinal, foi um manjar digno de deuses da gastronomia. E que me fez pecar, tal a gula de que fui justamente acometido.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Mestre-de-Campo Bernardo de Carvalho e Aguiar


Mestre-de-Campo Bernardo de Carvalho e Aguiar

Reginaldo Miranda

Foi um dos mais destemidos e importantes militares do meio-norte brasileiro durante o primeiro quartel do século XVIII. Nascido em 1666, provavelmente em 20 de agosto, dia consagrado a São Bernardo, no calendário cristão. Embora exista uma informação em contrário, foi no concelho de Vila Pouca de Aguiar, também terra de seu genitor Antônio Silvestre de Aguiar, que viu a luz do sol pela primeira vez. A mãe, velha mãe de têmpera portuguesa, cujo nome ainda não localizamos, era da tradicional família Carvalho, do contíguo concelho de Ribeira de Pena, razão pela qual aparece em um documento como natural desse concelho.

Foi na povoação natal que viveu os felizes e despreocupados anos da infância, alternando os estudos que lhe eram oferecidos com as brincadeiras típicas de criança do seu tempo.

No entanto, em 1685, aos dezenove anos de idade, embarcou em um navio para o porto da Bahia e dali passou ao sertão de Rodelas*, onde iniciou-se no criatório bovino e, mais tarde, alistou-se na carreira militar. Em depoimento prestado na cidade de Olinda, em 12 de julho de 1701, como testemunha de Manoel Álvares de Souza para instrução processual em habilitação do Santo Ofício, ele foi qualificado como coronel, cristão velho, casado, natural da Ribeira de Pena**, e de presente morador no rio de São Francisco da freguesia de N. Sra. da Conceição do Rodelas desde dezesseis anos a esta parte, de idade que disse ser de 35 anos, pouco mais ou menos, e que vivia de suas fazendas.

Nesse lustro inicial constitui família, convolando núpcias com Mariana da Silva, de cujo consórcio tem ao menos três filhos: Miguel de Carvalho e Aguiar, Bernardo Carvalho de Almeida e Antônia de Aguiar, em benefício de quem pede tença, mais tarde casando com o sargento-mor Manuel Xavier.

No entanto, é a partir de 1690, aos 24 anos de idade, que se delineia claramente sua carreira militar, quando em princípio do verão está exercitando o posto de capitão de infantaria da ordenança comandada pelo capitão-mor do Piauí José Garcia Paz, em luta contra a nação Paracati, também chamada Pracati, Precati ou Percati, que na defesa de suas tabas, entre os sertões de Parnaguá e o do Médio São Francisco, levantara-se em guerra contra o invasor lusitano. Nessa campanha portou-se com bravura fazendo-se notar pelo ardor e denodo com que se lançara no campo de batalha por mais de seis meses consecutivos, matando e aprisionando quase todos os indígenas. Numa ocasião pendenciou por mais de quatro horas, com grande ânimo e valor, diria mais tarde o comandante da tropa, fazendo o mesmo em muitos outros assaltos e rebates que houve ao longo da campanha. Também, passou a governar no arraial que fundara, os prisioneiros com zelo e prudência, apesar de sofrer uma emboscada pelos mesmos que quase tira-lhe a vida no ardor da juventude (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v; AHU. ACL. CU 009. Cx. 12. D. 1199).

Em maio de 1692, combatendo os Crateús rebelados no nordeste do Piauí, fez à sua custa uma entrada com soldados pedestres e gente montada a cavalo, pelo então chamado Sertão das Cajazeiras, oportunidade em que descobriu umas terras novas nos riachos Cabeça do Tapuio, Sambito e Poti, em que situou fazenda pondo gados seus e levantando casas fortes e guarnições para a defesa, com muito dispêndio da sua fazenda, diria ele mais tarde. Essa fazenda, em que morou por três anos, situando-a com grande labor, foi a Cabeça do Tapuio, que deu origem à atual cidade de São Miguel do Tapuio (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v).

Em 1695, fazendo nova entrada descobriu outras terras novas no lugar chamado os Alongazes,  junto à Serra do Goapava, hoje Ibiapaba, para isso organizando tropa com muitos soldados mantidos à sua custa. E as povoou com gado e negros escravos de sua propriedade, dando-lhes todo o sustento, armas e munições para habitação, com seu exemplo também estimulando outros denodados conquistadores que em pouco tempo situaram mais de quarenta fazendas nessas novas terras recém descobertas, disto resultando utilidade para a Bahia e Pernambuco pela abundância de gados, e à Fazenda Real pelos dízimos recebidos. No entanto, embora aí situando fazenda no referido ano de 1695, somente vinte e três anos depois, em 1718, é que lhe foi concedida a sesmaria, com três léguas de comprido e uma de largura, localizada no Sertão dos Alongazes, em um riacho cujas vertentes desaguavam no rio Jenipapo, cujo sítio o situou sob a invocação de Santo Antônio, onde construiu casa, currais, fábricas de criados e estabeleceu escravos, gados, cavalos e o mais necessário. Essa fazenda Santo Antônio, antiga Bitorocara, é a origem da cidade de Campo Maior. Portanto, remonta há mais de 322 anos a tradição do padroeiro Santo Antônio nas cabeceiras do Longá (PT/TT/RGM/C/0008. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, fl. 509v).

Em retribuição aos eloquentes feitos praticados na guerra contra os Paracatis, que travara sob o comando do coronel José Garcia Paz, em 1696 foi pelo governador de Pernambuco nomeado capitão-mor da infantaria da ordenança do distrito da Cachoeira até a povoação do Rodelas, cuja patente foi confirmada por El Rei em 15 de outubro de 1700 (PT/TT/RGM/B/0014/7301. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. Pedro II, liv. 14, f.122v).

Com a calma que seguia a bacia parnaibana, em 1697, no posto de capitão-mor vai ele acompanhar e dar segurança à comitiva de seus primos e conterrâneos, os padres Miguel, Tomé e Inocêncio de Carvalho, que vinham instalar novas freguesias nos sertões do Piauí e do rio São Francisco. No entanto, enquanto os religiosos faziam as tratativas de instalação da nova freguesia da Mocha, parece que ele ausentou-se ligeiramente para tratar de assuntos urgentes, porque não está entre aqueles que firmaram a ata de instalação. Em seguida, com alguns de seus soldados acompanha a comitiva dos religiosos até a Barra do Rio Grande do Sul, em Pernambuco, hoje Bahia. Dali, tornou com o padre Inocêncio de Carvalho, acompanhado de soldados com armas e munições, para protegê-lo na desobriga que fizera pelos confins do Rio São Francisco, Rio Grande, Rio Preto e Lagoa de Parnaguá.

No ano de 1698, exercitando o posto de capitão-mor do distrito da Cachoeira e povoação dos Rodelas, com autorização do Administrador das Minas de Salitre, Pedro Barbosa Leal, partiu com o Ajudante e Mestre delas em diligências e pesquisas por diversas serras no sertão do Buíque, em busca de novas jazidas, em cuja missão passou cerca de um mês, sempre no propósito de bem servir ao Estado e aumentar os rendimentos da Real Fazenda. Foi, assim, um grande servidor da pátria.

No ano de 1701, Bernardo de Carvalho caminha em diligência mais de 280 léguas, com quatro homens brancos e dois escravos, para levar em segurança um comboio de seis criminosos que haviam sido presos pelo capitão-mor do Rio Grande, Manoel Álvares de Sousa, desde aquele distrito à cadeia do Recife. Foi nessa oportunidade que prestou o referido depoimento em Olinda, em 12 de julho daquele ano, como testemunha do capitão-mor Manoel Álvares de Souza, residente em Parnaguá, em processo de habilitação para familiar do Santo Ofício. Disse que correspondia-se com ele a sete anos, certamente sobre assuntos militares.

Em 1707, estando nas Minas foi eleito para juiz de uma vila que desejavam erigir os moradores do Coité, sem autorização de el rei ou do governador. Então, além de rejeitar o cargo conseguiu apaziguar os moradores rebelados.

Esse trabalho de segurança do sertão o fez por diversas vezes, a exemplo de 1710, quando o então coronel Bernardo de Carvalho foi encarregado pelo Ouvidor-geral do Maranhão, Euzébio Capelly, que passara em diligência ao Piauí, de fazer várias prisões de delinquentes, tarefa que executou com risco da própria vida, surpreendendo os delinquentes à noite, por serem suspeitos de fuga. Nesse mesmo ano, sob ordens do mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior, executou uma determinação do governador e capitão-general para fazer o descimento dos índios Caratiús, também chamados Crateús, de suas antigas aldeias para o arraial de N. Sra. da Conceição, onde morava aquela autoridade e seriam entregues ao capelão Frei Manoel de Jesus Maria, religioso de N. Sra. das Mercês, se o seu capelão não quisesse vir, por ser mais conveniente ao real serviço. Executou essa tarefa com grande zelo, juntando os índios na aldeia principal e em outras partes em que estavam espalhados num raio de setenta léguas, pelas cabeceiras do Poti, conduzindo-os e os sustentando, à sua custa, até o dito arraial em número de 145, que foi o dos indígenas descidos (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v).

Nesse mesmo ano de 1710, recebeu a visita do Pe. Tomé de Carvalho e Silva, com ele se comprometendo a construir igreja e ajudá-lo a fundar a nova matriz de Santo Antônio, a segunda a ser criada no Piauí. Sobre o fato, assim anotou o referido vigário:

“Indo a esta parte, convoquei os principais moradores e, tomando-lhes os seus votos na parte em que havia de erigir a nova Capela, que por invocação tem o nome do glorioso Santo Antônio, lhe não achei possibilidades para fazerem, dando-me várias desculpas pelos poucos escravos que tinham, e estando ocupados em fazendas que tinham os donos na Bahia e que as não podiam desamparar. Nestes termos me vali do Coronel Bernardo de Carvalho que, com pronta vontade buscou um carpina a quem pagou, e foi pessoalmente com seus escravos ajuntar as madeiras e os mais materiais, trabalhando o dito com grande zelo. E, com efeito, fez a Capela à sua custa, tanto de escravos como gados, farinhas e dinheiro. E o acho com ânimo de gastar nela cabedal. Outrossim se me ofereceu com o gado que necessitasse para a nova ereção desta matriz de Nossa Senhora da Vitória, e me prometeu 200$000 (duzentos mil reis) para a Custódia, para a dita matriz, e que se custasse mais o daria” ( Pe. Tomé de Carvalho, Doc. de 20/4/711. In: MELO, Pe. Cláudio. Bernardo de Carvalho).

Por outro lado, o serviço do coronel Bernardo de Carvalho e Aguiar vai se fazer essencial com o Levante Geral dos Índios que teve início em 12 de julho de 1712, também conhecido como Revolta de Mandu Ladino, levando terror e aflição ao colonizador lusitano. Nesse dia, foi assassinado no referido arraial da Conceição, pelos indígenas levantados, o mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior e mais parte da infantaria que estava em sua companhia, continuando o levante, praticando estragos em toda a parte, de forma a colocar a capitania em total ruína. Então, de imediato, a população temerosa da própria vida, em eleição realizada na casa do capitão-maior Dâmaso Pinheiro, elege Bernardo de Carvalho, por cabo-maior da tropa de guerra e o governador Christóvão da Costa Freire o nomeia para o posto de mestre-de-campo da conquista em 30 de dezembro de 1712, para fazer a guerra e livrar a população da opressão que padecia (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v).

De imediato, o novo mestre-de-campo juntou para esse efeito toda a gente que lhe foi possível e com ela perseguiu o dito gentio, matando uns e aprisionando outros no primeiro recontro que com eles teve, sendo que algumas malocas conseguiram fugir para a serra do Anacé, perdendo, porém, a bagagem, mais de duzentas cabeças de gado e alguns cavalos que foram tomados pela tropa militar e devolvidos aos donos em cujas fazendas os indígenas haviam furtado. Logo mais, teve notícia de que os indígenas revoltados tinham sitiado a vila da Parnaíba, precariamente defendida pelo capitão-mor João Gomes do Rego Barra. Então, reorganizou a tropa e marchou com toda a pressa em auxílio daquele militar, para socorrer a nascente vila, seguindo pela ribeira do Piracuruca, em cuja foz assentou presídio deixando-o fortificado de soldados e todo o mais necessário. Continuando a sua diligência, levantou o cerco indígena à referida vila, depois de ligeiro combate a uma maloca, onde matou e aprisionou a todos, sem deixar escapar ninguém. Na perseguição que fez aos demais, os obrigou a bater em retirada até alcançarem uma ilha aonde não podiam ser acometidos. E diante dessa dificuldade lhes mandou um intérprete para os poder reduzir à paz, o que, de fato, conseguiu, aceitando aqueles a presença de um religioso em sua aldeia para os doutrinar. Declarou ter investido nesta campanha mais de três meses, sustentando a todos com mantimentos, munições e maior parte das armas à sua custa (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v; AHU. ACL. CU 009. Cx 012. D. 1199).

Nesse mesmo tempo, por ordem do governador do Maranhão prendeu o capitão-mor Pedro da Cunha Souto Maior, por se entender ser cúmplice no levantamento do dito gentio e morte de seu irmão, o mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior, levando-o preso ao Maranhão, com gente armada à sua custa. E por ordem do Provedor da Real Fazenda, fez execução nos bens do falecido mestre-de-campo, pondo-os em boa arrecadação para pagamento de considerável dívida que aquele ficara devendo à Real Fazenda (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v).

No ano de 1713, recebe em sesmaria no lugar Campo Largo, por ele desbravado, uma porção de terra com três léguas de comprido e uma de largura, que lhes foi concedida pelo governador Christóvão da Costa Freire. Porém, sofre descaminho o pleito de confirmação no reino, o que só foi resolvido em 4 de junho de 1739, depois de seu óbito, em favor do filho Miguel de Carvalho e Aguiar, seu sucessor na posse e que renovou o pleito(AHU. ACL. CU 013. Cx. 24. Doc. 2289).

No ano de 1714, marchou por muitas serras e matos em busca do índio rebelado, pelejando com ele, matando a maior parte e aprisionando cinquenta e três. Nessa campanha andou todo o referido ano suportando grandes trabalhos e incômodos, animando toda a gente da sua tropa nas ocasiões de maior aflição, mostrando nelas o seu grande valor e zelo, cabendo de quintos à Real Fazenda 780$000, que renderam as presas desta guerra cuja quantia remeteu ao Maranhão. Depois de finda esta diligência, mandou o maior troço da tropa em seguimento dos outros tapuias, ficando ele com o resto da gente no arraial. Então, adoecendo retirou-se às suas fazendas para se refazer, tempo em que com mais força e prevenção dirigiu a guerra obedecendo em tudo às ordens do governador. Nesse tempo, tomando conhecimento de que chegara ao Piauí, o português Antônio Borges Marim, coronel das vilas de Santo Amaro e Itabaiana, por carta de 13 de junho pediu que o acompanhasse nessa guerra e no aldeamento dos Jaicós. Então, reunindo trezentos homens de suas fazendas, Borges Marim seguiu ao arraial de Bernardo de Carvalho, onde uniu a estes mais 120 homens armados, que tinham por cabo o tenente-coronel Manoel Gonçalves Pimentel, moradores no distrito do Ceará, distante do dito arraial cem léguas. E, de fato, subindo Parnaíba acima deu combate a muitos indígenas revoltados e confederados, de cujo resultado fez pazes com os Jaicós, aldeando-os no vale do rio Itaim, em terras dele conquistador, Antônio Borges Marim (AHU. ACL. CU 009. Cx. 12. D. 1199).

Em 1715, o mestre-de-campo Bernardo de Carvalho foi chamado pelo governador do Maranhão, para que, ambos, unidos à gente de uma e outra parte fizessem guerra ao gentio que infestava os rios Itapecuru e Mearim, que já haviam entrado pelo Piauí, matando aos moradores e destruindo-lhes casas e fazendas. Então, reuniu e municiou o maior número possível de gente armada que pôde fazer e marchou contra os mesmos, dando-lhes combate e matando a quase todos, tanto que somente da nação Crateús, escaparam 3 ou 4 velhos, sendo aprisionado todo o seu mulherio. E nas duas outras nações Carius e Anacés, seus aliados, fez grande mortandade até os obrigar a pôr em retirada, deixando em sossego os moradores que haviam escapado da invasão, fazendo esta guerra à sua custa sem despesa alguma da Real Fazenda. Ao contrário, obteve esta com os quintos das presas que ocupavam a Serra Grande, a quantia de 5880$000, que levou ele pessoalmente ao Maranhão e se carregaram em conta no Almoxarifado.

Em 1716, o gentio bravo roubou os comboios que iam do Piauí para o Maranhão, que importavam mais de 50$000, sendo a maior parte pertencente à Real Fazenda, inclusive ousadamente investiu contra a casa forte do Iguará. Então, por ordem do governador do Maranhão, onde se achava a fazer cruenta guerra ao dito gentio, marchou com a soldadesca que pôde juntar contra a populosa nação Aranhi, pelejando com ela até a destruir completamente, sem escapar mais que um índio que fugiu depois de atingido com dois tiros, ficando todos os mais mortos, trazendo cativos apenas cinquenta e dois infelizes, que entregou ao dito governador. Então, este os repartiu pagando o quinto à Real Fazenda, havendo-se Bernardo de Carvalho em tudo o que foi encarregado com muita satisfação, préstimo, despesa de sua fazenda e grande zelo do Real serviço, conforme a confiança que sempre fizeram de sua pessoa.

Em face desses sucessos, foi agraciado com o Hábito de Cristo, com 120$000 de tença por ano. E para completar os 600$000 que lhes foi deferido, mandou-se-lhe passar padrão de 480$000 pela repartição do reino, em nome de sua filha Antônia de Aguiar.

Em 29 de novembro de 1718, foi confirmado no posto de mestre-de-campo da conquista das capitanias do Maranhão e Piauí, em que já estava anteriormente provido pelo governador daquele Estado, com o mesmo soldo que se deu ao mestre de campo dos paulistas, Manoel Álvares de Moraes Navarro (AHU. ACL. Maranhão. Cx. 12. Doc. 1204).

Nesse ano, elaborou plano de reestruturação da capitania, então criada, cujo território estava bastante devastado por mais de cinco anos de levante geral do tapuia rebelado contra a opressão do colonizador. Em decorrência, muitos fazendeiros abandonaram suas propriedades, mais de cem léguas de terras, com enormes prejuízos para si e para a Real Fazenda, alguns tendo sido assassinados, suas casas e plantações destruídas diante da ira do indígena rebelado. Foi assassinado o padre Amaro Barbosa, depois de morto foi retirado o seu coração, quebrando-se também as pernas e rostos das imagens sagradas de sua capela, fato que escandalizou a todos.

O plano de defesa e restruturação da capitania do Piauí submetido ao rei D. João V, consistia em recompor o exército que houvera de moradores, de quatrocentos índios para cima, fora os brancos, tirando-se estes das aldeias de Camarão, até o Ceará em que haviam muitos, e do Rio de São Francisco, escolhendo-se das ditas aldeias, os que fizessem menos falta nelas; que se anexasse a aldeia de Ibiapaba à jurisdição da Capitania do Piauí; e que para ajudar na dita expedição fosse da Capitania de São Luís do Maranhão, alguma gente paga, já experimentada nesta guerra, e que em seu lugar fosse ele levantar quarenta até cinquenta soldados da gente desocupada e vadia para irem guarnecer a dita Capitania de São Luís e recomporem as companhias dos soldados; e lhes fossem atendendo-se às suas razões, por ser esta a única guerra que havia no Estado do Brasil, ocasionando tantas ruínas nas três capitanias do Maranhão, Piauí e Ceará; e com as muitas mortes que nelas tem executado, fazendo-se preciso que nelas se pusesse todo o cuidado, porque havendo o menor descuido nesta matéria se põem em risco as ditas capitanias, havendo já ocupado no Piauí, uma grande parte do País tão pingue e extinguindo mais de cem fazendas, dissera ele ao rei.

Então, por deliberação do Conselho Ultramarino de 3 e 10 do mês de outubro de 1718, foi aprovada a dita proposta a fim de diminuírem as perdas que se tem sentido, e se evitarem as que presentemente muito se podem recear e para que se estabeleçam as ditas capitanias com maiores utilidades para os vassalos delas, e se aumentar a Real Fazenda, domando-se os ditos índios, tendo o rei D. João V baixado provisão em 20 de outubro do mesmo mês e ano, ordenando ao governador de Pernambuco, que pela parte que lhe toca, assista ao dito mestre-de-campo com os socorros mencionados na sua proposta dando-lhe os índios que nela insinua das aldeias que refere, para que desta maneira se engrosse o nosso poder para termos o encontro e pelejarmos com os índios nossos contrários; para esse efeito, mandou também que se desanexasse da Capitania do Ceará a aldeia da Serra da Ibiapaba, passando à jurisdição do Piauí, e que o dito mestre-de-campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, possa nela levantar quarenta até cinquenta soldados da gente mais desocupada e vadia que há nela, e desta vão servir em a Capitania de São Luís do Maranhão, mandando-lhe dela o governador e capitão-general do Maranhão, Bernardo Pereira de Berredo, o mesmo número de soldados já experimentados para com os sessenta que estão destinados para esta guerra completasse o número de cem; nesta consideração recomendando ao governador que assim o executeis pela parte que lhes toca, assistindo ao dito mestre-de-campo com os socorros que pede negócio tão importante e de tantas consequências, advertindo-o a executar esta disposição inviolavelmente porque do contrário receberia ele governador um grande desprazer; e para que a todo o tempo constasse o que neste provimento mandou observar, o obrigou a registrar as ordens nos livros da secretaria do governo e mandar certidão de como assim obrardes (AHU. ACL. CU 013. Cx. 24. Doc. 2289).

Embora exercesse de fato o posto de mestre-de-campo da conquista desde a morte de seu antecessor, Antônio da Cunha Souto Maior, em 1712, por nomeação do governador do Maranhão, somente em setembro de 1720, assentou ele praça do dito cargo em atenção à referida confirmação de Sua Majestade em 1718. Embora essa confirmação tenha se dado um pouco antes, devido ao levante geral dos índios, somente nesta data pôde ele ir a São Luiz para a formalidade legal de posse e para acertar com o então governador e capitão-general do Estado, Bernardo Pereira de Berredo(1718 – 1722) sobre a continuidade da guerra contra o gentio de corso e a paragem mais conveniente para assentar o arraial efetivo em que devia estacionar as tropas militares, a fim de combater com prontidão e celeridade os insultos e hostilidades do dito gentio. Porém, em sua audiência com o governador este alegou a ausência das demais pessoas experientes que foram convocadas para a decisão, tendo em vista a vizinhança do inverno. Em suma, adiou as ações do mestre-de-campo para o início do verão subsequente, o que o desagradou. De toda forma, ao retornar à sua fazenda nas cabeceiras do Longá, recebeu Bernardo de Carvalho da Provedoria da Real Fazenda, modesta quantidade de munições de pólvora, bala, armas e mantimentos, além de trinta soldados pagos e um cabo daquela guarnição, para a prevenção de qualquer encontro, que acontecesse com o dito gentio ou para rechaçar alguma invasão que sucedesse fazer-lhe os indígenas.

No entanto, insatisfeito com essa inércia do governo maranhense busca ele ajuda junto ao governador de Pernambuco, pedindo mais munições e aprestos de guerra. Sabedor desse fato, o referido governador do Maranhão e o Provedor da Real Fazenda, Jacinto de Morais Rego, escrevem ao Conselho Ultramarino e ao governador de Pernambuco tentando sabotar as diligências do militar piauiense, a fim de não parecerem culpados. Nesse contexto também se queixam de que Bernardo de Carvalho estava abrigando em sua residência e fazenda, o bacharel João Mendes de Aragão, que fora ouvidor-geral do Pará. Este era franco adversário daquelas autoridades e fora antes abusivamente preso e colocado sob ferros pelo governador Berredo. Então, o rei censurou o governador e deu salvo conduto para que o ouvidor fosse para Pernambuco, onde tinha domicílio e família, ou se quisesse que fosse para o reino. Naquela altura estava o mesmo sob a proteção do mestre de campo, que o abrigara em sua fazenda. A verdade é que Bernardo de Carvalho e o governador Berredo nunca se entenderam bem, existindo mesmo grande animosidade entre ambos (AHU_ACL_CU 013, Cx. 7, D.591; Cx. 13, D. 1301).

Em 1722, Bernardo de Carvalho parte para o sertão de Parnaguá, a cento e cinquenta léguas de São Luiz, em guerra contra o índio de corso Paracati, então designado Percati, dando-lhe um primeiro combate em que não surtiu efeito algum por se espantar o gentio e fugir. No entanto, em outras duas refregas foi o mesmo silvícola destruído e morto, de maneira que não restaram mais que sete, que foram aprisionados. Nesse mesmo ano gastou todo o mês de novembro em guerra contra os gentios de corso Guegué e Acoroá, a pedido dos moradores de Parnaguá. Então, por conta de inimizade, aproveitando-se da ausência do mestre-de-campo, o governador Berredo lança bando convocando as tropas para uma mostra geral de pagamento em 27 de fevereiro de 1722. Ao fim dessa, embora com o parecer contrário do vedor geral, Dr. Francisco Machado, mandou dar baixa nos soldos do militar com infundados pretextos de que o mesmo não estava em serviço militar, e sim situando fazendas e despachando boiadas para as Minas. Posteriormente, atendendo a recurso de Bernardo de Carvalho, foi esse ato reformado, depois de seis anos de justificativas, oportunidade em que o sucessor de Berredo disse que tudo era fruto do ódio e inimizade que o antecessor nutria contra Carvalho, o que se comprovava pelos anteriores capítulos de culpa que se lhe dirigira (AHU_ACL_CU 016, Cx. 1, D.41).

Em princípio do ano de 1724, o mestre-de-campo Bernardo de Carvalho e Aguiar parte em diligência para o Maranhão, a chamado do governador e capitão-general João da Maya da Gama(1722 – 1728), para dar combate ao gentio bárbaro.  E no comando de cem soldados da infantaria paga da guarnição de São Luiz, que lhes foram entregues fez diligências e assentou arraial no sertão longínquo. Em seguida, por ordem da mesma autoridade partiu em outra importante diligência de que retornou no início do inverno, quando aquela autoridade se encontrava no Pará. Então, quando organizava a pequena tropa que o acompanharia em seu retorno ao Piauí, enfrentou conflito de jurisdição com o capitão-mor D. Francisco Ximenes de Aragão (AHU_ACL_CU 009, Cx. 13, D. 1391).

No primeiro trimestre de 1725, ao passo em que pleiteia o pagamento de soldos atrasados busca também o aumento dos mesmos, visto ter sido nomeado em 1718, com o soldo que lograva o Mestre-de-Campo dos paulistas no Assu, Manoel Alves de Moraes Navarro, que era de 23$200rs (vinte e três mil e duzentos reis) por mês, o mesmo que naquele tempo também percebiam os mestres de campo da praça da Bahia. E porque esses últimos conseguiram um aumento remuneratório, também pleiteou a eles igualar-se, justificando que “com maior razão por estar continuamente lidando em uma guerra viva contra o gentio de corso comprando cavalos por exorbitantes preços para as conduções de sua comitiva, empregando os seus próprios escravos nos choques e ocasiões militares, sustentando-os e vestindo-os à sua custa, e a muitos soldados pobres, pois entrando pela campanha não tem mais abrigo e amparo que o do suplicante em que faz a mais considerável despesa, que não experimentam os referidos mestres de campo” da Bahia. Nesse tempo, seu filho Miguel de Carvalho e Aguiar, natural do rio de São Francisco, capitão da conquista que iniciara a carreira militar ao lado do pai em 1715, solicita confirmação no dito posto para o qual havia sido nomeado no ano anterior. Em 4 de junho de 1739, esse mesmo filho vai adquirir carta de sesmaria no Arraial Velho, margem do rio Parnaíba, alegando que o seu falecido pai já a tinha adquirido em 1713, sendo o documento desencaminhado (AHU_ACL_CU_009, Cx. 14, D. 1445 e 1453. Cx. 26, D. 2718).

Paralelamente a essa ação militar, Bernardo de Carvalho foi um grande empreendedor, situando diversas fazendas em Pernambuco, Piauí e Maranhão. Também, benemérito da Igreja, tendo ajudado a construir e manter diversos templos religiosos.

Infelizmente, em novembro de 1729 Bernardo de Carvalho e Aguiar está sendo vítima de ação executiva em que perde duas fazendas de gado e suas fábricas, para ressarcir a Real Fazenda em cinco contos, trezentos e nove mil, quarenta e dois reis, como fiador de João de Sousa da Silva, Tesoureiro da Alfândega da Bahia(AHU_ACL_CU_016, Cx. 01, D. 53).

Desgostoso por tanta ingratidão e alquebrado pelas inúmeras campanhas militares, se retira então para a fazenda São Bernardo, de sua propriedade, no outro lado do rio Parnaíba, hoje cidade de São Bernardo, no Maranhão, onde falece em março de 1730, aos 64 anos de idade, deixando larga folha de serviços prestados ao Estado. É considerado o fundador das cidades de Campo Maior e São Miguel do Tapuio, no Piauí, São Bernardo, no Maranhão e o idealizador de Caxias, também no Maranhão, além de elemento importante na pacificação e assentamento da base colonial portuguesa na bacia parnaibana. Foi um homem do seu tempo, nem santo e nem demônio, eu diria um competente militar que bem serviu à sua pátria dentro dos moldes que lhes foram traçados. Merece figurar na galeria dos grandes construtores de nossa nacionalidade.  
  
NOTAS:

* Bernardo de Carvalho e Aguiar, fixou sua residência inicialmente no Rio São Francisco(Sertão de Rodelas), e não na cidade da Bahia, como dissera o Pe. Cláudio Melo.

**Embora tenha sido qualificado nesse documento como natural de Ribeira de Pena, terra de sua genitora, também aparece em diversos outros como natural de Vila Pouca de Aguiar, terra de seu genitor, ambas contíguas e situadas no arcebispado de Braga, norte de Portugal.
  

REGINALDO MIRANDA é advogado e escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e disciplina da OAB-PI.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Vamos dialogar com a nova geração?


Vamos dialogar com a nova geração?

Pádua Marques *

Faz um bom tempo que venho falando nisso. E olhe que muito e muito antes de concorrer, ser eleito e tomar posse na Academia Parnaibana de Letras: a necessidade imperiosa de nossa geração, a geração de escritores com mais de sessenta anos, cabelos brancos e cobertos pelo azinhavre da fama antiga, descerem do altar ou da prateleira pra conversar com esta meninada que anda escrevendo e renovando a nossa literatura, os novos cronistas, poetas, atores, artistas plásticos, contistas e romancistas.

Se lembro bem um dos primeiros garotos que vi se interessando por literatura logo que cheguei em Parnaíba foi o André da Silva Soares, entregador do jornal Diário do Povo e O Dia ali na Almirante Gervásio Sampaio quando eu estava colaborando com uma coluna de economia e negócios no jornal Correio do Povo, do Zé Luiz de Carvalho e do F. Carvalho. O André chegou a escrever um livro de poesias, O Colibri.

Menino muito pobre vindo lá dos lados do Igaraçu era quase arrimo de família.  Depois de muita persistência e sacrifício fez curso de letras na UESPI e hoje é professor da rede municipal. A partir dele lá pelos idos de 1996, salvo engano, já pude observar que alguma coisa estava mudando.  Depois, eu sempre envolvido com essa coisa de cultura e que não dá dinheiro fui observando e acompanhando outros e mais outros. Até que lá pelo ano de 2007 conheci dois rapazes, primos, Cláucio e Daniel Ciarlini.

Estavam eles vindo de uma experiência de fazer literatura no sentido exato da palavra, como se conhece, essa coisa de escrever livro e tudo mais. Mas estavam agora criando um jornalzinho do tamanho de uma folha de papel ofício e com um nome pra lá de esquisito, Opiagüi.

Confesso que naquela noite de 2007 na biblioteca estadual da avenida São Sebastião eu achei que aqueles garotos seriam mais uns garotos rebeldes brincando com o fogo de fazer literatura numa terra onde ninguém ao que sabemos gosta de ler.

Eles foram audaciosos a ponto de entregar logo, assim na lata, um exemplar ao governador Wellington Dias que na ocasião estava fazendo uma visita, inauguração, sei lá o quê. Estavam juntos do Arlindo Leão. E até tiraram foto e tudo o mais.

Agora passados dez anos e mostrarem neste tempo todo que não estavam pra brincadeira o Opiagüi Culturalista tem uma legião de colaboradores. Tem revelado outros tantos e até eu andei fazendo passagem em suas páginas com minhas crônicas. Eu poderia ficar aqui falando o tempo todo sobre este trabalho desses dois garotos e as amizades e conquistas que tiveram. Mas vou voltar e insistir nessa possibilidade de nós escritores sessentões puxarmos a cadeira e sentar pra uma conversa com essa juventude.

Eu imagino que a uma altura dessas propor que nós da Academia Parnaibana de Letras convidemos jovens escritores pra uma roda de conversa será visto como ousadia demais ou sinal de que estamos procurando nos aproveitar do momento deles. Os jovens escritores da Parnaíba estão muito mais engajados, unidos e melhor informados do que nós. E sabem utilizar toda essa enciclopédia da modernidade para desenvolverem seus trabalhos, coisa difícil imaginar em nós quando tínhamos a idade deles.

Estou pensando, agora que chegamos à diretoria da APAL, o presidente José Luiz de Carvalho promova talvez ainda neste ano ou no seguinte uma grande mobilização e que nesta mobilização esteja a de nos aproximar dessa gente nova que está fazendo literatura. Aquela coisa de cada lado mostrar o que fez, o que está fazendo e o que pode ser feito. Pra gente acabar de vez com essa acomodação que faz um mal danado pras juntas.


* Pádua Marques, cadeira 24 da APAL

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

DEPOIMENTO SOBRE ASSIS BRASIL

Fonte: Google

DEPOIMENTO SOBRE ASSIS BRASIL

Alcenor Candeira Filho

     Francisco de Assis Almeida Brasil, um dos expoentes da literatura brasileira,  nasceu em Parnaíba-PI em 1932. Morou durante a maior parte da vida no Rio de Janeiro, onde escreveu em  grandes órgãos da imprensa do país. Reside atualmente em Teresina-PI, ocupando uma das cadeiras da Academia Piauiense de Letras.
     Exemplo de polígrafo, sua obra compreende diversos gêneros: romance, novela, conto, infanto-juvenil, ensaio, crítica literária e paradidático, num total de mais de 150 livros.
     Destaca-se na sua produção literária as obras que compõem as seguintes categorias: Tetralogia Piauiense, Ciclo do Terror e Romances Históricos.
     BEIRA RIO BEIRA VIDA, A FILHA DO MEIO QUILO, O SALTO DO CAVALO COBRIDOR e PACAMÃO são os romances que compõem a TETRALOGIA PIAUIENSE, que de certa forma representa um retorno do escritor à terra de nascimento, da qual se afastou na adolescência. A Parnaíba do segundo quartel do século XX serve de pano de fundo para o desenvolvimento do enredo de cada romance, todos interessados na denúncia social. BEIRA RIO BEIRA VIDA é o mais importante romance da Tetralogia,  vencedor do Prêmio Nacional Walmap (1965). As personagens centrais dessa obra-prima do moderno romance brasileiro são pessoas sofridas, miseráveis (prostitutas, marinheiros, canoeiros, vareiros), habitantes do velho bairro Tucuns – atualmente São José -, localizado às margens do rio Parnaíba. A FILHA DO MEIO-QUILO e PACAMÃO constituem uma crítica à classe média parnaibana, revelando as fraquezas da pequena burguesia. Por fim, O SALTO DO CAVALO COBRIDOR, obra menos expressiva da Tetralogia, é um romance regionalista, cujo protagonista se chama Inação, empregado do dr. Gervásio, protótipo do burguês rural.
     Como alguns membros  da burguesia de Parnaíba se identificaram com as personagens da Tetralogia, criou-se na cidade um certo preconceito,  felizmente já superado, contra os romances de Assis Brasil, a ponto de impedirem que os mesmos circulassem em suas casas. O sociólogo e historiador parnaibano Manoel Domingos Neto no artigo “A Primeira Vez que Li Assis Brasil”, publicado na 61ª edição do ALMANAQUE DA PARNAÍBA, se declara uma dessas vítimas da mentalidade tacanha reinante na província, declarando que hoje compreende a razão pela qual seu avô censurava BEIRA RIO BEIRA VIDA:

“Talvez agora eu tenha melhores condições para
compreender meu avô quando proibiu-me de ler Assis
Brasil.  Além da solidariedade aos amigos que sentiram-se
desonrados, além da lembrança dolorosa da perda do
filho, havia, sim, outro motivo para a censura a esse
escritor excepcional. Assis Brasil operou em rota de colisão
com os comerciantes ricos de Parnaíba, mostrou o  lado
feio e fedorento da cidade orgulhosa. O lado que os
abastados, por instinto, precisam esconder”.

     Após ganhar em 1965 o prêmio Nacional Walmap com BEIRA
RIO BEIRA VIDA, - Assis Brasil voltou a conquistar esse prêmio em 1975 com OS QUE BEBEM COMO OS CÃES, obra que faz parte do CICLO DO TERROR, juntamente com O APRENDIZADO DA MORTE, OS CROCODILOS e DEUS, O SOL, SHAKESPEARE, e que se desenvolve em um presídio, tendo como  principal personagem o professor de literatura Jeremias.
     OS QUE BEBEM COMO OS CÃES é um romance que se distancia da estrutura tradicional da ficção brasileira. Uma das novidades dessa  obra é a repetição de títulos dos capítulos e de cenas (a cela, o pátio, o grito) em torno do preso político Jeremias, no período da ditadura militar no país, culminando com o seu suicídio.
     Passo agora a falar dos romances históricos de Assis Brasil.
     É modesto no país o acervo de obras de ficção nessa categoria.
     Iniciado na vigência do romantismo, com O GUARANI (1857), de José de Alencar, seguido de IRACEMA, AS MINAS DE PRATA, A GUERRA DOS MASCATES e UBIRAJARA, todos do mesmo autor, - nosso romance  histórico é marcado na origem não pela
exatidão histórica, mas pela visão fantasiosa, muitas vezes lendárias, do ambiente e do nativo.
     Depois de Alencar, poucos ficcionistas  brasileiros têm produzido no gênero.
     Diante dessa lamentável realidade cultural, torna-se digno de registro o fato de que dois intelectuais piauienses, Renato Castelo Branco e Assis Brasil, ambos nascidos em Parnaíba, publicaram a partir dos anos 80 importantes romances históricos, exatamente dez, cinco de cada autor. De Renato Castelo Branco: RIO DA LIBERDADE (A GUERRA DE FIDIÉ);  SENHORES E ESCRAVOS (A BALAIADA); A CONQUISTA DOS SERTÕES DE DENTRO; O PLANALTO e DOMINGOS JORGE VELHO E A PRESENÇA PAULISTA NO NORDESTE. De Assis Brasil: NASSAU, SANGUE E AMOR NOS TRÓPICOS; VILLEGAGNON, PAIXÃO E GUERRA NA GUANABARA; PARAGUAÇU E CARAMURU: PAIXÃO E MORTE DA NAÇÃO
TUPINAMBÁ; TIRADENTES, PODER OCULTO O LIVROU DA FORCA
e JOVITA, MISSÃO TRÁGICA NO PARAGUAI, destacando-se os dois últimos como os mais importantes.
     Os romances históricos de Assis Brasil resultam de ambicioso projeto literário voltado para a reconstituição de quatrocentos anos de nossa história: século XVI: Villegagnon e Paraguassu; século XVII: NASSAU; século XVIII: Tiradentes; século XIX: Jovita.
     TIRADENTES, considerado pelo próprio autor como o seu melhor livro, a sua obra-prima, é um romance gigantesco (462 páginas) em que é posto em questão o  que a maioria dos historiadores tem evitado abordar: Tiradentes  não teria sido enforcado, uma vez que fora substituído na forca por um sacristão da Sé (Isidro Gouveia), ou por um ator ítalo-brasileiro (Renso Orsine), contratado na Europa para “o simulacro da forca”.
     Em JOVITA, MISSÃO TRÁGICA NO PARAGUAI, Assis Brasil nos apresenta uma mulher extraordinária, Jovita Alves Feitosa, nascida no Ceará e queimada no holocausto de Acosta Ñu, por determinação do Conde d’Eu.
     Devem ser lembradas ainda na copiosa obra de Assis Brasil as antologias poéticas estaduais da Coleção Poetas Brasileiros  (POESIA PIAUIENSE NO SÉCULO  XX, A POESIA CEARENSE NO SÉCULO XX e mais outras nove) por ele organizadas e anotadas, editadas nos anos 90 pela Imago Editora Ltda. em parceria com órgãos oficiais dos respectivos Estados, com o propósito de mostrar que o Brasil não é apenas a rua do Ouvidor”, como já lembrava Sílvio Romero no século XIX.
     No campo da crítica e do ensaio, Assis Brasil publicou mais de vinte livros, com destaque para  A VIDA PRÉ-HUMANA DE JESUS, recebido  com muitos louvores por intelectuais brasileiros.
     São notáveis também  os ensaios sobre Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Joyce, Faulkner, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, bem como os livros que tratam da nova literatura brasileira (O romance, A poesia, O
conto, A crítica, O modernismo, A técnica da ficção moderna, Como entender a estética moderna).
     No 4º Salão do Livro do Piauí – Ano Assis Brasil – realizado em Teresina em 2006, diante de um auditório lotado com mais de mil pessoas, o maior número de ouvintes presenciais que já experimentei na vida, ocupei a tribuna do Centro de Convenções de Teresina para proferir a conferência intitulada “Panorâmica da Obra de Assis Brasil”. A experiência foi para mim inesquecível e imensa a responsabilidade, principalmente pela presença do homenageado, aplaudido de pé ao adentrar no auditório.               

domingo, 8 de outubro de 2017

Cidade Grande


CIDADE GRANDE

Elmar Carvalho

Dando (m)urros
no vazio
por causa da dor
                   da doidice
da vida
da vivida mediocridade
entre as ruas
                nuas sujas tristes
as ladras
     ladram como cães
e os cães
gemem como homens.
Na (c)idade
do lobo
o lobo-homem
é o lobisomem
      do homem.
Tudo é
ferro feio (en)ferrujado
ferindo feridas
já abertas.
Na cidade
na cilada
das suas ruas
surgem (g)ritos
lavados em sangue
lavrados a ferro e fogo.
Soltam berros
soltam (b)urros
prendem os b’rros
que incomodam.
Na cidade grande
onde não existe
pôr-de-sol
o homem gira e pira
       sem (gira)sol
       sem (guarda)sol.    

sábado, 7 de outubro de 2017

De Celorico de Basto ao sertão de Parnaguá: a trajetória da família Carvalho da Cunha nos séculos XVII e XVIII


De Celorico de Basto ao sertão de Parnaguá: a trajetória da família Carvalho da Cunha nos séculos XVII e XVIII

Reginaldo Miranda *

No norte de Portugal, distrito de Braga, província do Minho, fica o concelho de Celorico de Basto, fundado em 29 de março de 1520, por Foral de D. Manuel I, atualmente com área de 181,07 km² e população de 20.098 habitantes. Está subdividido em 15 (quinze) freguesias, a saber: Agilde, Arnoia, Basto (S. Clemente), Borba da Montanha, Britelo-Gémos - Ourilhe, Caçarilhe-Infesta, Canedo de Basto-Corgo, Carvalho-Basto Santa Tecla, Codeçoso, Fervença, Moreira do Castelo, Rego, Ribas, Vale de Bouro e Veade-Gagos-Molares.

Uma das famílias mais antigas e numerosas desse concelho, habitando sobretudo as freguesias de Veade, Gagos, Molares e Caçarilhe, é a Carvalho da Cunha. No período estudado, ela encontrava-se tão disseminada por essas pequenas freguesias que era ali difícil encontrar-se alguém que não fosse a ela aparentada.

Em julho de 1729, quando o padre Jerônimo Guedes de Miranda, comissário do Santo Ofício em Portugal, apurava a pureza de sangue de Paulo Carvalho da Cunha naquelas contíguas freguesias de sua origem, declarou aos seus superiores que “estava tão espalhada esta família por todas aquelas freguesias, que poucas testemunhas se achariam que não fossem parentes, ou parentes dos parentes, o que comprova com todas as  abaixo numeradas”, a saber: testemunhas de Santo André de Molares: Gaspar da Cunha, Torcato da Motta, Manoel da Cunha, Pe. Luís Cardoso Ozório, Pe. Fr. André do Rego, Gaspar Carvalho, Gaspar Teixeira do Combro e Damião Carvalho; testemunhas da freguesia de Santiago de Gagos: Ignácio Machado de Andrade, Antônia da Cunha (viúva de Lucas Teixeira), Manoel Coelho, Antônio da Costa, Lourenço Carvalho, Senhorinha da Silva, Pe. Luís Vieira de Andrade, vigário de Gagos e natural da mesma freguesia; testemunhas da freguesia de São Miguel de Caçarilhe: Domingos Gonçalves, Francisco Gonçalves, Antônio da Silva.

A título exemplificativo, indicamos os nomes e dados de mais alguns membros dessa distinta família que permaneceram radicados em Portugal:

Pe. Francisco de Carvalho da Cunha, vigário na freguesia de São Martinho do Vale de Bouro, concelho de Celorico de Basto, filho de Amador Gonçalves Garcia, natural do lugar do Souto, freguesia de São Martinho de Godois e sua mulher Maria Carvalho da Cunha, ela natural e ambos moradores no lugar de Requeixo, da mesma freguesia; neto paterno de Domingos Gonçalves e de sua mulher Maria Gonçalves, moradores que foram no lugar do Souto, freguesia de São Martinho de Godois, do dito concelho; neto materno de Paulo Carvalho da Cunha, natural do lugar de Fermil, da freguesia de Anto André de Molares e de sua mulher Helena Teixeira, moradores do referido lugar de Requeixo, da freguesia de São Martinho do Vale de Bouro, de onde ela era natural, todos de limpo sangue, cristãos velhos e ocupantes do cargos nobres do lugar. Familiar do Santo Ofício(1686).

Manoel Carvalho da Cunha, mercador na Rua do Souto, cidade de Braga, natural e batizado na freguesia de Vila Nune com o nome de Gervásio, depois no crisma mudado para Manoel, filho de Jorge Gonçalves e de sua mulher Maria Carvalho, do lugar de São Mamede, freguesia de Santa Maria de Canhedo, concelho de Cerolico de Basto; neto paterno de Pedro Gonçalves e de sua mulher Senhorinha Francisca, do lugar da Roçada, freguesia de Santo André e Vila Nunes, concelho de Cerolico de Basto; neto materno de Paulo Carvalho e sua mulher Maria Gonçalves, do lugar de São Mamede, freguesia de Canhedo; casado com Luiza de Araújo, filha de Domingos Antunes e de sua mulher Antônia Francisca, moradores de São Miguel do anjo da cidade de Braga; Familiar do Santo Ofício (1692)

Tão antiga e numerosa, era natural que muitos de seus membros passassem ao Brasil. Foi pioneiro nessa migração o negociante e capitão-mor Baltasar Carvalho da Cunha, que fixou residência em Salvador, onde ocupou o cargo de Tesoureiro do Estado do Brasil, no governo de Matias da Cunha, talvez seu parente. Foi esse rico negociante português, talvez também aliado da Casa da Torre, quem financiou e trouxe muitos parentes para colonizarem o termo de Parnaguá, onde situaram muitas fazendas, inclusive para ele investidor.

Fazendo uma ligeira análise da documentação disponível, encontramos o nome das seguintes pessoas dessa família, naturais de Celorico de Basto, habitando e/ou proprietárias no sertão de Parnaguá, entre o último decênio do século XVII e primeira metade do século seguinte, tudo antes da instalação da capitania do Piauí(1759):

1.Capitão Baltazar Carvalho da Cunha, Tesoureiro do Estado do Brasil, conforme dissemos residia em Salvador, onde era abastado negociante, mas foi quem liderou a colonização do vale do rio Paraim, sertões de Parnaguá e parte do Gurgueia, mandando buscar e financiando a vinda de muitos parentes, sobretudo sobrinhos, que instalaram diversas fazendas em Parnaguá.

2. Manuel Álvares de Sousa, capitão-mor de São Francisco do Rio Grande, familiar do Santo Ofício, residente em Parnaguá, que então pertencia àquela freguesia, foi quem conquistou, desbravou e colonizou o vale do rio Paraim, a partir de 1688; embora o nome não diga, era sobrinho do capitão Baltasar Carvalho da Cunha, natural de Celorico de Basto, como todos os seus demais parentes, e foi por ele trazido para o Brasil.

3.Em 17 de junho de 1727, Duarte Carvalho da Cunha recebe em sesmaria o sítio Riacho, na povoação de Parnaguá.

4.Em 24 de maio de 1729, na referida povoação, Antônio Carvalho da Cunha recebe o sítio Iberaba.

5.Francisco Carvalho da Cunha recebe o sítio Santo Antônio

6.José Carvalho o sítio Cacimbas.

7.Matias da Cunha o sítio Reviradouro.

8.Martinho Carvalho da Cunha o sítio Itaboca.

9.Paulo Carvalho da Cunha, também foi capitão-mor de Parnaguá e familiar do Santo Ofício, recebe em sesmaria o lugar Riacho Frio. Era sobrinho do capitão Baltasar Caravalho da Cunha, que o trouxe de Celorico de Basto e o financiou e seu estabelecimento em Parnaguá.

10.José da Cunha recebe em sesmaria o sítio Cacual.

11.Baltazar Carvalho da Cunha(2º do nome) recebe o sítio Serra.

12.Em 18 de junho de 1742, são concedidas a Luísa da Cunha Carvalho a fazenda Micho.

13.Em 22 do mesmo mês e ano, foi concedida a Maria da Cunha Carvalho, a fazenda Jacaré.

14.Maria da Cunha Ferreira, a fazenda Campos de Baixo.

15.Teresa da Cunha Carvalho, a Fazenda de Cima.

16.Em 25, a fazenda dos Matos, a Serafina da Cunha Carvalho.

17.Em 26, o sítio São Francisco da Corrente, a José Carvalho da Cunha (anteriormente, encontramos terras concedidas a José carvalho e a José da Cunha, todas em Parnaguá, não sabendo informar se se trata da mesma pessoa, razão pela qual anotamos das três formas encontradas).

8.Em 29 do mês o mês e ano, foi concedido o sítio Nazaré, na mesma ribeira, a Marcos Fernandes da Cunha.

19.Em 1746, Manuel da Cunha de Carvalho vai ser agraciado com sesmarias (teve ele um homônimo que foi familiar do Santo Ofício, em Portugal).

20.Em 1746, Joaquim Carvalho da Cunha também vai ser agraciado com sesmarias.

21.Gaspar Carvalho da Cunha, sesmaria no distrito de Parnaguá(1747).

22.Pe. João Ribeiro de Carvalho, vigário de Parnaguá, era parente dos principais moradores do lugar, segundo um documento da época que referia-se a uma rixa que tinha ele com o então capitão-mor de Antônio Gomes Leite(1745).

Além desses, eram muito ligados a essa família mais dois pioneiros de Parnaguá, cujos nomes declinamos como linha de pesquisa:

23.Pe. Valentim Tavares de Lira, presbítero do Hábito de São Pedro, vigário de Parnaguá por provisão de 1745; foi ele quem casou, em 1754, D. Maria Eugênia de Mesquita Castelo Branco com o ouvidor José Marques da Fonseca, fato que gerou grande polêmica em ace do impedimento do ouvidor, que não podia casar-se sem licença real; era irmão de Sebastião Tavares de Lira, outro pioneiro que desempenhou importante papel na conquista daquela região.

24.Em 28, o sítio Paraim foi concedido a Antônio Luís dos Reis, que, parece vai casar-se na referida família Carvalho da Cunha.

Depois de levantar todos esses nomes em fonte primária, localizei na obra do padre Cláudio Melo, mais as seguintes pessoas dessa família naturais ou residindo nos sertões de Parnaguá, durante o período colonial:

25. O padre Cláudio Melo, em seu livro Fé e Civilização, se refere a D. Maria da Cunha, casada com José Francisco de Figueiredo, sendo pais do padre Francisco Xavier de Figueiredo, ordenado em São Luís; ao Pe. José da Cunha d’Eça, português radicado em Parnaguá, ordenado em São Luís(c. 1724); aos padres Luís Francisco de Figueiredo e José Francisco de Figueiredo, todos ordenados em São Luís.

26. Pe. Duarte da Cunha Ferreira, assistente em Parnaguá, solicita uma sesmaria no Mucambo da Itaboca, onde estava instalado com gados e escravos(1741).

27. Pe. Manuel José da Cunha, parente das principais pessoas de Parnaguá(1742). Em 1743 recebeu Provisão de Capelão da Capela de N. Sra. da Conceição do Corrente.

28.Caetano Carvalho da Cunha, pode ter sido o idealizador daquele monumento religioso que sacralizou a obra daqueles pioneiros(Pe. Cláudio Melo).

29. Manuel Ribeiro da Cunha(1760).

30. Não menos antiga que a Capela do Corrente é a Capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso no Curimatá. As primeiras notícias sobre o Getí remontam a 1717, quando Damásio de Carvalho Mourão aparece como seu primeiro proprietário. Crê-se que a Capela é obra do capitão-mor Manuel Marques Padilha do Amaral e, conforme Pereira da Costa, foi construída em 1741. Apenas sei que em 1745 o Pe. Duarte da Cunha Freire foi nomeado Capelão de lá. Parece que esta Capela ficou depois sem Capelão, pois não mais encontrei qualquer provisão para lá, afirma o historiador e padre Cláudio Melo.

Mais tarde, chegaria àquela região o também português(de Lustosa) José da Cunha Lustosa, que deixou ilustrada descendência, inclusive o marquês de Paranaguá e os barões de Paraim e de Santa Filomena. É tido por parente desses pioneiros, o que ainda necessita de comprovação.

Com essas notas divulgamos importantes revelações sobre a família Carvalho da Cunha, natural do concelho de Celorico de Basto, que foi pioneira na conquista e colonização do termo de Parnaguá, inclusive na fundação da vila de mesmo nome, hoje uma importante comuna do extremo-sul piauiense. Faz parte de um esforço para escrever uma ampla genealogia piauiense, que contemple o maior número de famílias que povoaram e construíram a nossa identidade. Também, com a intenção de servir de suporte para outros historiadores e genealogistas interessados, fazerem a recomposição da história dessa notável família de conquistadores que prestou relevantes serviços a Portugal, ao Brasil e, sobretudo, ao Piauí. 


* REGINALDO MIRANDA, advogado, escritor, é membro da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.