terça-feira, 19 de setembro de 2017

FRAGMENTOS DO BRASIL ATUAL


FRAGMENTOS DO BRASIL ATUAL

 Cunha  e Silva Filho
   
         O país vive  o inferno de Dante (1265-1321). Pode-se olhar para os quatro cantos   dessa terra e dificilmente se poderia declarar que ali reina a paz. Quase tudo é escuridão.  Surge uma paisagem lúgubre lembrando contos terríveis  de Edgar Allan  Poe ( 1809-1849) e de outroa autores do gênero e de tempos diferentes: caldeirões  em ebulição, espetos,  caveiras,  fantasmas,  vampiros,   zumbis, vodus,  névoas, sombras andantes, ossadas,  tumbas, carruagens em disparada  sem cocheiros. Epitáfios,  nos quais  reconhecemos  figuras  tenebrosas  que, no futuro,  viverão   em eterno   sofrimento. Gritos estridentes, capas escuras,  gravatas,   carros de luxo, homens com armas,  aviões federais, prisões provisórias, flashes, notícias escabrosas  na televisão,  trocas de informações e de  insultos nas redes  socais, sobretudo  Facebook, perdas de antigos, amigos por  mera ideologia   oposta a uma outra, prisões preventivas,  prisões mesmo.
       Homens de preto vigiando as noites infindas, ao lado ou atrás de homens querendo esconder os rostos  de vergonha provocadas por inúmeras malversações. Lulismo, dilmismo,  temerismo, o diabo solto da devassidão  da politicalha. O Inferno dantesco ressurreto. Mistura de verdade,  mentira e pós-verdade, contrainformações,  recurso  judiciais.  Réus, réus  réus! A política Brasiliae  em  adiantado estado de putrefação. O Planalto fede. O Legislativo   fede.  Congresso,   idem. Até o  Judiciário  é salpicado  de  suspeitas.  O pais – imenso  lençol  esfarrapado de crimes  financeiros e assemelhados.  
      De todos os lados se  ouvem  gemidos. Num canto aqui e ali, caixas  entupidas  de dinheiro. São milhões  surrupiados  do povo  analfabeto e pobre. Cisões entre pobre e miseráveis. A classe mérdea - este termo não é meu -, é do contista João Antônio (1937-1996), também cindida, meio a meio,  half and half. A classe média alta, continua  pensando nos velhos e novos  tempos, mas  o dólar ainda é forte e exuberante  no Leblon, na Barra,  em New York, em Paris,  em Londres, mesmo  em Brasília, a land dos  homens honestos, probos, plantados, desde os antepassados numa linha cronológica e hereditária manchada de  rapinagem e sem-vergonhice no país tão bem  cantado pelo endiabrado Boca do Inferno.  
      Roubo, Roubo, Roubo, teu limite é a impunidade. Prisão domiciliar, tornozeleira  eletrônica, ah, ah, ah!  Me engana que eu gosto. Que diabo foi  a Lei  inventar  essas formas  de fingir que alguém está preso, quando está  mesmo  é em sua casa. Comendo do bem e do melhor?  Um estado da Federação é  assaltado por um governador  crápula. Povo  engabelado pela insânia  e cupidez  do vil metal: o deus de barro  que povoa a imaginação do capitalismo mundial,  comunismo, socialismo  globalizado cheirando a Wall Street e às Stock  Exchanges dos wheel dealers de todos os tempos, dos  Shylocks  sedentos do sangue, ou melhor,  dos cifrões bilionários   ganhos facilmente mediante falcatruas  mancomunadas entre ladrões capitalistas e  políticos  delinquentes.  
      Procuro, como um Diógenes (412 a. C.- 323 a. C.),  naquela  escuridão, algum Al Capone da sempiterna atualidade  dos bruzundanguenses, cujo ápice mais  acentuado prevaricaçõoes decorreu  nos anos de 2005   a 2018. No passado, na Colônia, no Vice-Reinado, nos dois Impérios,  na República Velha,  na Nova República e  na Novíssima República já existiam muitos  males  político-financeiros, porém não tão  poderosos como  um tsunami de malversações, desídias,  peculatos,  perfídias e  deslavado cinismo. O ladrão chora  e nega que o é, mesmo diante de evidências flagrantes,  investigadas e comprovadas. Chorar é preciso diante de um  quarto  cheio de milhões   em poder de um  conhecido ex-ministro  fortemente ligado a um partido  muito conhecido pelos seus  malfeitos, inclusive com um vice-presidente  que virou  presidente  da República. No entanto, sempre que  tento  acender a lanterna,  esta se apaga, porque naquele Hades só há lugar para  a escuridão e o sofrimento  universal-brasílico.
       Não há remissão para essa gente que habita  esse reino  eterno da escuridão. Quem ali  permanece, consciente  do que  fez contra  o povo cordial, o povo  ordeiro (ah, como eles apostam  nesse povo ordeiro!),  ficará para sempre presa ao mal que  tanto  praticaram   para a desgraça  de um Brasil varonil. Ali não há diálogo, muito menos  dialética. Não existe  ali diálogo porque essa gente perdeu a capacidade de se expressar na sua própria língua.  Não falam  em linguagem,  em vernáculo, falam em pecúnia, e quanta pecúnia direcionada para tantos às expensas do dinheiro  público!
       Sob a égide de uma suposta democracia,  o país  se habituou às arbitrariedades  de reformas  aprovadas  por político  que não mais têm   o respeito do eleitorado, et pour cause,  não têm mais representatividade   quanto às promessas  descumpridas em eleições ganhas  por força  do poder econômico, cujo defeito  maior foi se transmudar  em  mercadores de propinas entre corruptos e corruptores ou vice-versa,  pois não vejo qual diferença  de maior ou menor grau   de ética e de honradez  entre  um e outro.  São dois lados  em perfeita sintonia e  sentido de reciprocidade.
      A má governança  discricionária temeriana  chega a um  ponto em que o ministro da fazenda congela  os salários dos funcionários federais  por dois anos e, em contrapartida, por ação  pusilânime  e malvada,   permite  que a maior parte dos   produtos da alimentação aos planos de saúde,  aumente  os seus preços, gerando alto custo de vida dosgêneros de maior necessidades: alimentos, remédios,  e outros  produtos.

   Isso é uma ignomínia contra o bolso  já  vazio dos   funcionalismo. No entanto,  como somos um povo  cordial,  bonzinho,  ordeiro,   individualista e salve-se quem  puder,  ninguém  grita,  ninguém clama e nem   os sindicatos   fazem nada por ninguém, mas apenas arrecadam a nossa contribuição para, no caso dos planos de saúde,  em assembleias conchavadas, terminarem  por aceitar  o que a ANS  determina juntamente com  as empresas dos planos de saúde. E, assim,  ficamos  sempre  sujeitos ao domínio dos  conchavos entre o público e o privado sob a chancela  meio constrangida  e malandra  dos sindicatos. Ah, como somos ordeiros para regalo  da política  brasileira!⁢    

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A morte do preso do cambo d' água



A morte do preso do cambo d' água

Chico Acoram Araújo*

O jornal “O Dia” denuncia o estado de abandono em que se encontram os detentos da Penitenciária de Teresina. Sobre a fome porque passam os presos, fala-se que o “Estado está ensaiando, embora sem consciência formada [aplicar] a pena de Talião”. (10 de fevereiro de 1957).

                 A antiga penitenciária de Teresina, demolida em 1978, ficava situada em um quarteirão fronteiro ao Estádio Lindolfo Monteiro, onde hoje é o Ginásio Verdão. Em uma tarde calorenta de verão, um preso carregando um cambo de duas latas vazias de querosene sobre os ombros descia a Rua Jônatas Batista, em direção ao rio Parnaíba, acompanhado por um policial armado com um Fuzil Mauser fabricado no começo do século vinte. O soldado, vestido com sua surrada farda cáqui, um pouco atrás, caminhava com passos lentos e cadenciados, mas mantinha olhar vigilante. Abastecer o presídio com as águas do Velho Monge era a missão cotidiana dos presos. Nesse mister, outras duplas se sucediam, diariamente, até o sol se por. O nome do preso não consta de minha memória. Só sei que não era o temido pistoleiro Joaquim Leandro Marciel, conhecido no mundo do crime, nas décadas de 50 e 60, como Catanã, morador da Penitenciária Campo de Marte há muito tempo por conta de vários assassinatos que cometera no Piauí. Ele era natural da Paraíba, da região de Cajazeiras. Feroz e temido, aterrorizou, além do Piauí, os Estados da Paraíba e Ceará. Catanã tornou-se famoso pelas suas façanhas de exímio matador. “Já estou com raiva”, dizia quando era contratado para matar alguém. Este não carregava água do rio Parnaíba; tinha certas regalias, protegido que era pelos poderosos. Na época, falava-se que, nos finais de semana, o famoso pistoleiro saía da cadeia, na calada da noite, para fazer uns “servicinhos extras” até mesmo fora do Estado do Piauí. Será que isso é lenda?
Esse fatídico itinerário diário dessa estranha dupla consistia no seguinte:  saiam da prisão pública (construída em 1866, depois denominada de Penitenciária Campo Marte), dobravam à esquerda, entrando na Rua Jônatas Batista, passavam pela antiga Santa Casa de Misericórdia (primeiro hospital de Teresina, edificado em 1860; hoje funciona uma entidade voltada para assistência aos surdos e mudos). Em seguida, descendo a mesma rua, passavam em frente ao Grupo Escolar João Costa (atualmente funciona uma escola estadual de teatro, música e dança) e pelo Asilo de Alienados, fundado em 1907 (hoje funciona a Escola Benjamin Batista), ambos localizados ao lado Norte do Estádio Lindolfo Monteiro; depois, ultrapassavam o desativado Posto Fiscal, situado no final da Rua Jônatas Batista, até chegar ao rio Parnaíba, sob a ponte metálica “João Luís Ferreira” (a primeira ponte construída sobre o Rio Parnaíba, no estado do Piauí, inaugurada em 2 de dezembro de 1939), onde as latas eram abastecidas com o precioso líquido.
Na época, as famílias que moravam fora do limite urbano de Teresina, e que não possuíam poços d’água em suas moradias, costumavam se abastecerem com água do velho monge, transportada em ancoretas no lombo de animais, ou em cambo d’água nos ombros dos moleques, ou em vasilhas postas sobre rodilhas de tecido acomodadas nas cabeças das mulheres. Cenário comum de Teresina do século XX.
Naqueles tempos, era comum observar prisioneiros da velha cadeia carregando água que coletavam do rio Grande dos Tapuias, nas proximidades da ponte metálica, pois a penitenciária não possuía água encanada.
Mas, a Capital do Piauí, no seu perímetro central, já possuía sistema de abastecimento d’água, iluminação pública, coletivos, bondes motorizados e outras modernidades vistos em outras cidades do Sul do Brasil e também da Europa. A cidade estava em franco desenvolvimento. A população chegava em torno de 100 mil habitantes. Imigrantes vinham de todos os lugares, principalmente dos vizinhos Estados do Maranhão e Ceará, e do interior Piauí.
Certo dia do início dos anos 60, ouvi, da minha sala de aula do então Grupo Escolar João Costa, o som de um tiro seco e forte no cruzamento da Rua Rui Barbosa com a Jônatas Batista. O prisioneiro escalado para pegar água no rio Parnaíba empreendeu fuga e tentou embarcar em um ônibus que passava, no momento, em direção à Timon, do outro lado do rio. O soldado, atento, não vacilou e desferiu um tiro certeiro que acertou a nuca do pobre homem, abatendo-o incontinente. O sangue escorreu pela calçada do centro social, a antiga Santa Casa de Misericórdia.
                No livro “Teresina 160 Anos do Jornal “O Dia”, 2. Ed., pág. 33 e 34 (org. por Antônio Fonseca Santos Neto) observa que a Santa Casa de Misericórdia foi  o primeiro hospital da nova Capital do Piauí, e que representa uma das tentativas de criar em Teresina um sistema de saúde pública. Essa instituição foi concebida com a intenção de ajudar aos pobres e indigentes de Teresina que precisavam de cuidados médicos e laboratoriais. Os ricos de Teresina não eram internados nesse hospital, mas atendidos em suas próprias residências por médicos particulares. A Santa Casa de Misericórdia, e outros estabelecimentos do tipo, tais como o Cemitérios São José, o Asilo dos Alienados, a Cadeia Pública, foram todos construídos fora do limite da zona urbana da cidade.
                Hoje quando passo nesse local, recordo-me do corpo ensanguentado do infeliz preso estendido no chão. E por algum tempo após a morte do detento, uma caridosa senhora que morava nas imediações acendia, ao anoitecer, uma vela no peitoril de uma das janelas daquele vetusto prédio. Triste memória; tinha eu, apenas 10 ou 11 anos de idade.
              

(*) Chico Acoram, formado em contabilidade, é funcionário público federal e cronista

domingo, 17 de setembro de 2017

PARNÁRIAS - poemas sobre Parnaíba


Seleta Piauiense - Félix Pacheco

Fonte: Google

Símbolo d’arte

Félix Pacheco (1879 – 1935)

Se o meu verso não fora o agonizar de um lírio,
E o suave funeral de um crisântemo roxo,
Diluindo-se, murchando, à vaga luz de um círio,
Entre o planger de um sino e o gargalhar de um mocho;

Se, essas flores do mal, em pleno desabrocho,
Eu não sentira em mim, num êxtase e em delírio,
Meu orgulho de rei julgara vesgo e frouxo,
Pois a glória de um sol não vale esse martírio.

Se, na terra que piso, algum prêmio ambiciono,
É o deserto, a cabala, o claustro, a esfinge, o outono,
O calmo encanto da noite e a augusta paz da morte...

E o meu símbolo d'arte, o ideal que me fascina,
É a tristeza a florir a graça feminina,
Como um farol pressago a iluminar o norte!   

sábado, 16 de setembro de 2017

Itamar Costa homenageia o juiz Noleto


Fui à solenidade de posse do juiz e poeta Antônio de Jesus Noleto na Academia de Letras da Magistratura Piauiense – ALMAPI, da qual faço parte. Foi uma bela festa literária, cuja reportagem do site da AMAPI reproduzimos na postagem anterior. Tive a oportunidade de reencontrar bons colegas e amigos, com os quais entabulei rápida conversação. Sentei-me entre o cardiologista Itamar Abreu Costa e o juiz federal Derivaldo Figueiredo Bezerra Filho, ambos meus amigos há muitos anos. Desejando autografar um exemplar de meu romance Histórias de Évora para o magistrado Geraldo Magela Meneses, de que seria portador o Dr. Derivaldo, pedi emprestada uma caneta ao culto defensor público Roberto Freitas Filho, que não aceitou devolução; por esse motivo, retribuindo a dádiva, o fulminei, a queima roupa, sem direito a defesa, com um autógrafo em outro volume. Na manhã de hoje, recebi um emocionado e –mail da lavra do amigo Itamar, que segue abaixo transcrito, como homenagem ao bravo Dr. Noleto.

Elmar Carvalho

Fundada há 15 anos a ALMAPI, presidida pelo Acadêmico Luiz Gonzaga Brandão de Carvalho, realizou ontem (15 de setembro de 2017), sessão solene para dar posse ao Juiz Antônio Reis de Jesus Noleto, na cadeira 6 que tem como Patrono o Desembargador Berilo Motta e teve como primeiro ocupante o Desembargador Paulo de Tarso Mello e Freitas.

O discurso de saudação ao novel acadêmico foi proferido pelo Desembargador Oton Mario Lustosa, que citou o Dr. Noleto como um dos nossos grandes poetas (sonetista de Escol).

Dr. Noleto, que nasceu em Alto Longá, filho do casal Socorro e Almir Noleto, neto de Cora e Pompílio, ao iniciar a sua fala, não se esqueceu do seu torrão natal. Lembrou dos amigos de infância, tendo lembrado do Itamar, Carlito, Harold, Valdir Brito, lembrou do futebol no campo da baixa das carnaúbas e principalmente as Guabirabas e os banhos no Olho D’água do Frei Pedro e Rio Gameleira.

Fez citação carinhosa aos seus familiares e aos colegas da magistratura presentes. Ao referir-se ao Desembargador Paulo, o fez com emoção e saudade do velho mestre tanto na Contabilidade, uma vez que Noleto foi aluno do Colégio Demóstenes Avelino, colégio fundado pelo Professor Felismino, quanto na Faculdade de Direito onde Paulo Freitas Também era professor. Lembrou que ao receber a carteira de Juiz das mãos do dr. Paulo, recebeu do experiente magistrado bons e úteis conselhos.

Foi uma bonita festa!

Parabéns à Academia pelo ingresso do Dr. Noleto, parabéns à Allche (Academia longaense de Letras, Cultura, História e Ecologia), entidade à qual é Sócio Correspondente e a Academia de Poesia do Piaui. Sodalício à qual pertence o acadêmico recém-empossado.

Teresina, 16 de setembro de 2017

José Itamar Abreu Costa
Presidente da Allche

Juiz Antonio Noleto é empossado na Academia de Letras da Magistratura Piauiense

Dr. Noleto e sua esposa Maria Helena
Juiz Antonio Noleto é empossado na Academia de Letras da Magistratura Piauiense

Foi empossado na cadeira N° 6 da Academia de Letras da Magistratura Piauiense (Almapi) o juiz Antonio Reis de Jesus Noleto, em solenidade realizada nesta sexta-feira (15), no pleno do Tribunal de Justiça do Piauí (TJ-PI). A solenidade foi dirigida pelo desembargador e presidente da Academia, Luiz Gonzaga Brandão de Carvalho.

Também compuseram a mesa de honra, o desembargador e acadêmico Edvaldo Moura, o médico José Itamar Abreu Costa da Academia de Letras do Vale do Longá (Aval) e o imortal e desembargador Oton Lustosa.

Noleto recebeu o diploma da esposa Maria Helena de Jesus Noleto. O desembargador Oton Lustosa foi o responsável pela mensagem de boas-vindas ao novo imortal e falou sobre a trajetória do cidadão e magistrado.

Em seu discurso, o juiz Antonio Noleto agradeceu a honraria enaltecendo a biografia do seu antecessor. Disse que chega à Academia como um ouvinte e admirador dos grandes valores da Almapi e fez uma homenagem à esposa Maria Helena de Jesus Noleto “que é farol e fonte de inspiração há 47 anos”.

A cadeira Nº 6 pertenceu ao desembargador e acadêmico Paulo de Tarso Mello e Freitas, falecido em janeiro deste ano, e tem como patrono o desembargador Berilo Pereira da Mota.

O presidente da Associação da Magistrados Piauienses (Amapi), Thiago Brandão, que esteve presente na solenidade, falou do sentimento dos magistrados sobre a posse de mais um imortal.

“A magistratura piauiense está muito orgulhosa de ter o nosso colega Antonio Noleto como membro da Academia. Ele tem todos os predicados e características para bem representar a magistratura nessa augusta academia que promove conhecimento, reconhece e prestigia os escritores magistrados”, ressalta Thiago Brandão.

Também estiveram presentes na solenidade familiares, magistrados, desembargadores, integrantes da Academia e convidados.

O novo imortal

O imortal Antonio Noleto está há 31 anos atuando como juiz de Direito, dos quais 15 como juiz da 1ª Vara do Tribunal do Júri, em Teresina. A sua primeira profissão foi de Contador, antes de seguir na carreira jurídica até chegar na magistratura em 1987, passando por várias comarcas no interior. Em 2016, ele lançou o livro “Por que cantam as cigarras”, apresentando um olhar sensível sobre o sofrimento, a dor, a angústia, o amor e o desamor.  

Fonte: site da AMAPI 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

PONTE ESTAIADA E MESTRE ISIDORO FRANÇA

Fonte: Google
PONTE ESTAIADA E MESTRE ISIDORO FRANÇA

Elmar Carvalho

Voltei há pouco de minha caminhada na avenida Raul Lopes, que durante estas minhas férias venho fazendo quase diariamente. Escolhi o seu calçadão para esse saudável exercício porque é um local adequado, possui uma bem conservada floresta à margem do rio Poti, tão degradado, com as suas águas poluídas e estagnadas, exceto na época chuvosa; porque vejo outras pessoas a caminhar, e isso me estimula a persistir nesse esforço em prol da saúde. Fora das férias, caminho apenas às sextas-feiras e aos sábados, e excepcionalmente aos domingos.

Às vezes, acompanho (ou sou acompanhado por) algum amigo e me entretenho em agradável conversação, ou sigo sozinho, e me deleito a ver as árvores frondosas, os pequenos arbustos, e as diferenças entre as variadas folhagens, sem descurar da beleza das flores, que ornam a margem do calçadão. Isso faz com que me sinta bem e prossiga com mais vigor na caminhada. Hoje, durante algum tempo, caminhei ao lado do Dr. João Borges Caminha, advogado aposentado do Banco do Brasil, que foi meu professor de Direito Agrário na velha Salamanca da UFPI. Após a sua aposentadoria, tanto na universidade como no banco, o mestre começou a escrever sobre a História do Piauí, tendo lançado recentemente um livro sobre a História de Ipiranga, sua terra natal. Temos entabulado várias conversas sobre assuntos diversos, mas com mais frequência sobre a História de nosso estado.

Nessas marchas, acompanhei a construção da ponte estaiada João Isidoro [da Silva] França, mais conhecida como ponte do sesquicentenário. Sem dúvida será muito útil e bela, e vai desafogar o tráfego das pontes da Frei Serafim e da Petrônio Portella. É uma obra monumental, no sentido de grandiosidade e de beleza, com os cabos de sustentação a ornamentá-la, como raios ou um grande leque, quase a lembrar uma desfraldada cauda de pavão.  As  obras continuam firmes, com a construção das “alças” e da avenida de acesso à ponte.

Quando, recentemente, Alberto Silva morreu, demagogos e oportunistas defenderam que essa obra passasse a ter o nome do ex-governador, que já foi prodigalizado com grandes e várias homenagens. Ressalvo, obviamente, aqueles que agiram de boa fé, seja por ignorância ou por paixão política. Provavelmente, desconheciam a importância histórica de João Isidoro França, que foi fundamental para Saraiva, no início da construção de Teresina, pois esse mestre de obras era uma espécie de arquiteto e engenheiro sem universidade, diligente em sua labuta, e sempre a cobrar de Saraiva, através de cartas, as providências necessárias para que as obras seguissem seu curso normal.


Devia ter interesse cultural, porquanto em sua casa, na praça da Constituição, hoje Marechal Deodoro, fazia representar peças teatrais, o que era de admirar, considerando-se a Teresina da época. Entre as suas principais obras, destaca-se a igreja do Amparo, que ainda hoje alveja suntuosamente. Dela foi vigário, por muitos anos, o grande historiador monsenhor Chaves, que escreveu obras seminais e clássicas sobre a história do Piauí, inclusive especificamente sobre Teresina. O prefeito Sílvio Mendes, de forma firme, com a autoridade moral de quem possui a razão, defendeu a permanência do nome de João Isidoro França, e o manteve, com muita justiça, aliás.  

2 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

UMA PÁGINA AUTOBIOGRÁFICA DO Pe. JÚLIO ALBINO FERREIRA

Fonte: Google

UMA PÁGINA AUTOBIOGRÁFICA DO Pe. JÚLIO ALBINO FERREIRA

Cunha e Silva Filho

       Conforme havia prometido ao leitor, vou-lhe apresentar um  pequeno texto   autobiográfico do Pe. Júlio Albino Ferreira. Digo autobiográfico  porque foi  o próprio  autor que, em nota de pé de página do anteriormente  referido livro An English method [1], nos informa sobre a autoria do texto. Segue a minha tradução da narrativa do padre português sob o título “Crossing the Channel”
                             
                          Atravessando o  Canal
     
      Era uma e meia do dia 24 de março de 1916 quando parti de Folkstone para Dieppe a bordo do “Sussex.”O mar   mostrava-se mais calmo do que nunca.
   A bordo havia cerca de trezentas almas de diferentes países, América,  Itália, Espanha, França, Brasil e Portugal. A uma distância de aproximadamente duas milhas de Folkstone, avistamos o que restou de um  navio flutuando na água. Um marujo, ao ser indagado sobre o acidente,  informou que um submarino alemão havia sido levado a pique dois navios naquela mesma manha, mas tranquilizou  os viajantes afirmando  que não havia perigo algum, porquanto o submarino tinha prosseguido em direção ao Ocidente.
       Todos a bordo  acreditaram  no marujo. Penso que,  dez minutos depois, haviam   esquecido o perigo de serem naufragados. O “Sussex” continuou firme no seu curso em direção ao Leste e ninguém avistava nem barcos nem navios subindo ou descendo.
     Às duas e meia desci para almoçar. Na sala de refeitório todos falavam  de negócios ou de coisas insignificantes. Contudo, ninguém  dizia mais nada   sobre os naufrágios daquela manhã.
    Assim que concluí  minha  refeição, subi  ao convés. Deixei  o refeitório às três horas e,  atravessando o setor de bagagens, passei pelo corredor que dá para as escadas. Em seguida, pude ver que a bordo havia escritores,  artistas,  sacerdotes, pastores, irmãs de caridade, capitalistas, comerciantes,  trabalhadores e crianças.
   Quando subia para o convés, ouvi um barulho  assustador, algo parecido com  o ribombar de um trovão, e o navio sacudiu com tal violência que julguei tivesse batido contra uma rocha ou havia sido  arremessado contra um banco de areia.
   Ouviu-se este grito horrível saído da boca  de duzentos  corações: - Naufrágio! Naufrágio!Todos  estamos perdidos!  Deus,  tende misericórdia de nós! O “Sussex” fora atingido por um torpedo!
   Em segundos,  alcancei o convés. Procurei  por uma bote salva-vidas, porém somente  três haviam sido baixados. Só sobrara um e, ainda assim,  já estava tão lotado de gente que não me atrevi a  entrar  nele.
     Mas... onde estava o resgate que não vinha? Decidi pular para dentro daquele bote. Enquanto me segurava à amurada, alguém, subindo nos meus ombros, saltou  primeiro.
    Entretanto,  seja porque  as cordas estavam inadequadas, seja porque a carga era muito pesada,  uma das cordas rompeu-se e todos caíram no mar.
     Vi uma mãe agarrada ao filhinho, um senhor abraçado à sua esposa, duas  moças segurando-se a uma tábua... e, olhando para  longe, vi cerca de quarenta almas lutando, lutando, agonizadas.
     Cinco minutos depois,  havia apenas quatro homens flutuando.Eles se agarraram à verga do mastro grande da proa, a qual agora nos amparava.
     Era a primeira vez na minha vida  que senti, diante de mim, a presença da morte. Não havia mais esperança e me preparei para  morrer. Ergui a Deus meus pensamentos e comecei a rezar. Todos ao meu redor me acompanharam  nas orações.
    Ignorava se aquela gente  acreditava ou não em Deus. Contudo,   o que podia constatar  foi que naquele momento a bordo havia  livres pesadores. Todos rezavam! Mais ou menos às 5 horas, vimos à distância um navio a vela singrando em nossa direção. E de todos os corações a bordo irrompeu este clamor: “Esperança! Esperança!  Deus, tende  piedade de nós!”
     Durante 20 minutos  fixamos os olhos naquele inesperado  mas bem-vindo navio. No entanto... o navio mudou o curso e desapareceu! Novamente se dissiparam as esperanças!
    A noite desceu sobre nós com sua  escuridão  entristecedora e, para aumentar a  nossa agonia,  o mar começava a agitar-se. Nenhum sinal luminoso vinha da praia... Tampouco algum sinal de outro navio! Novamente, me preparei para a morte.
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   O relógio dava sete... oito ... nove horas. Nenhum sinal de luz se vislumbrava à distância. Quando já eram dez horas, vimos, muito longe,  um navio. Era o “Marie-Thérèse”  vindo nos salvar.


[1] ALBINO FERREIRA, Pe. Júlio. An English  method.  14th edition. Oporto: Portugal,  1939, p. 370-373).

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Capitão-mor João Gomes do Rego Barra


Capitão-mor João Gomes do Rego Barra

Reginaldo Miranda (*)

Um dos principais personagens nos primórdios da fundação da Parnaíba, foi o português João Gomes do Rego Barra, ou Rego Barros, conforme também se verifica. Na verdade, adotou esse último apelido por modismo, talvez por fixar morada na barra do Parnaíba.

No entanto, dois equívocos se vêm repetindo com relação a esse pioneiro, o primeiro tantas vezes repetido, é de que ele foi enviado para o lugar por ordem do governador de Pernambuco, para guarnecer o litoral de ataques inimigos. Porém, esse fato não é verdadeiro porque desde março de 1700, que o Piauí havia sido anexado ao governo do Maranhão, fugindo assim à alçada pernambucana.

Na verdade, João Gomes do Rego Barra se radicou no litoral piauiense defendendo interesses privados, como procurador do abastado fazendeiro e coronel, Pedro Barbosa Leal, morador na cidade da Bahia e sócio da Casa da Torre em alguns empreendimentos. Ali chegando em 1711, sob ordens daquele, funda fazendas, pequena vila sob o nome de Nossa Senhora de Monserrate, depois também conhecida por Vila da Parnaíba ou Vila Velha do João Gomes, onde instala as primeiras oficinas de couro e charque, assim como explora o ramo de salinas.

Em 1711, o abastado fazendeiro Pedro Barbosa Leal, solicita à Cúria de São Luís do Maranhão, licença para construir uma capela sob a invocação de Nossa Senhora de Monserrate, padroeira do lugar e santa de sua devoção, obtendo resposta em 11 de julho do mesmo ano.

Esse foi de fato um ano importante para a fundação do lugar, porque em 16 de dezembro (1711), João Gomes do Rego Barros vai ser nomeado para exercer por três anos a patente de capitão-mor da assim chamada vila de Nossa Senhora de Monserrate, na foz do Parnaíba. Essa nomeação foi de suma importância para a conservação das fazendas e consolidação da nascente povoação, porque estava tendo início o levante geral dos indígenas que sacudiria os sertões do Piauí e Maranhão.

Outro equívoco que se vem repetindo com relação a esse colonizador lusitano, é de que ele fosse natural de Pernambuco e pertencente à ilustrada família Rego Barros. Não é verdade. João Gomes do Rego Barra nasceu em 1676, na freguesia de São Lourenço de Sande, termo de Guimarães, arcebispado de Braga, no norte de Portugal, em cuja igreja matriz fora batizado em 12 de abril daquele ano, pelo vigário Antônio Pereira (o documento consta à fl 23, do respectivo livro de batizados relativo àquele ano). Foram seus pais Francisco Dias de Carvalho (adotou esse apelido por ser do lugar do Carvalho) e sua mulher Maria Francisca do Rego (a exemplo do esposo, adotou esse apelido por ser do lugar do Rego), esta filha do clérigo Jerônimo Rodrigues, abade de Mezarefes; e padrinhos Antônio Rodrigues de Carvalho, da freguesia de Mezarefes e Páscoa Francisca (sua tia materna), mulher de outro João Gomes, daquela mesma freguesia (PT-TT-TSO-CG-A-008-001-3396)

Ainda menino deixou São Lourenço de Sande e foi morar em Mezarefes, na companhia do avô materno, abade Jerônimo Rodrigues, onde viveu a vida escolar. Dali rumou para Lisboa e, em seguida, para a cidade da Bahia, onde chegou por volta de 1696, aos vinte anos de idade, para viver em companhia de dois clérigos: o irmão Francisco Gomes, que ministrava aulas de Gramática e o primo Domingos Gomes, ambos jesuítas, este último foi administrador das fazendas da Companhia de Jesus, no Piauí, deixando importante relatório denominado Notícias do Piauhy, que copiei, interpretei e publiquei em forma de livro, juntamente com outros escritos, em 2011.

Foi na cidade da Bahia que conheceu Pedro Barbosa Leal, com ele firmando contrato para vir fundar feitorias e administrar seus bens no delta parnaibano, onde chegou no ano de 1711.

Durante a levante geral dos índios (1712 – 1717), lutou ao lado do mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior, combatendo os indígenas no norte do Estado. Diz ele em petição, que juntamente com aquele, assassinado pelos indígenas em 1713, resistiu em três combates seguidos, os índios também com armas de fogo e ele tendo perdido nessa guerra mais de cinco mil cruzados. Nessas lutas meteu ele de paz o aranhis, desinfestando assim grande área do delta.

Em face dessa conquista em 14 de julho de 1725, recebeu do governador do Maranhão sesmaria na área que conquistou ao tapuia levantado, com duas léguas de comprido e duas de largo, em uma ilha que está entre o rio Igarassu e a barra chamada vulgarmente da Parnaíba, onde criava mais de trezentos animais, cuja área foi confirmada por el rei; pediu também sesmaria no Riacho Pirangi, que nasce na Serra da Ibiapaba e entra no Parnaíba, que lhe fora dada verbalmente por Pedro Barbosa Leal, onde ele suplicante criava duas mil cabeças de gado vacum há quatorze anos, o que reporta ao ano de 1711, não obtendo a devida confirmação. No requerimento disse ele que tinha cinco filhas solteiras e apenas um filho varão, encontrando-se sem um palmo de terras com título seguro (AHU. ACL. Maranhão. Cx. 15. Doc. 1499).

O capitão-mor João Gomes do Rego Barra, convolou núpcias em 1711 ou 1712, em São Luís do Maranhão, com Ana Castelo Branco de Mesquita, natural de Lisboa, prematuramente falecida, filha de Dom Francisco de Castelo Branco, militar português, irmão do Conde de Pombeiro, e de sua primeira esposa Maria Eugênia de Mesquita, falecida em naufrágio nas costas do Maranhão no ano de 1700. Filhos: Maria Eugênia de Mesquita Castelo Branco e João do Rego Castelo Branco.  Convolou segundas núpcias com a cunhada Maria do Monserrate Castelo Branco, irmã por inteiro da primeira e inditosa consorte. Filhas: Francisca do Monserrate Castelo Branco, Ana do Monserrate Castelo Branco, Florência do Monserrate Castelo Branco e uma quinta filha cujo nome não sabemos informar.

Com essas informações por ele declaradas em petição requerendo sesmarias, de que tinha apenas um filho varão, fica evidente que Lourenço dos Passos e Rosendo Lopes Castelo Branco não são seus filhos, e sim netos, provavelmente filhos de sua filha Florência do Monserrate Castelo Branco, que foi casada com José Lopes da Cruz, que situou-se na barra do rio Pirangi, por ele pedido em sesmaria, onde floresceu a fazenda, hoje cidade de Buriti dos Lopes.

Faleceu depois de 1725, deixando uma família extensa, ilustrada, rico cabedal e larga folha de serviços prestados ao Estado.
   

(*) REGINALDO MIRANDA, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Câmara Municipal homenageia Norte do Piauí na Semana da Imprensa.



Câmara Municipal homenageia Norte do Piauí na Semana da Imprensa.

A Câmara Municipal de Parnaíba homenageou na noite desse sábado dia 09 com a Medalha do Mérito Legislativo o jornal Norte do Piauí, que este ano completa cinquenta anos de circulação, de propriedade do jornalista Mário Meireles em cerimônia presidida pelo vereador José Geraldo Alencar Filho, com a presença de profissionais da imprensa, convidados e familiares do homenageado e o chefe de gabinete da Prefeitura de Parnaíba, Israel Correia.

O jornalista Mário Meireles foi representado na ocasião pelo seu genro, o advogado e professor Francisco Rodrigues, que no seu discurso de agradecimento lembrou fatos marcantes da vida profissional familiar do homenageado e enalteceu suas qualidades como a filantropia e humildade. Falaram ainda o diretor da Associação dos Comunicadores Sociais de Parnaíba, Renato Bacellar e o presidente da Câmara, vereador Geraldinho e o jornalista Bernardo Silva.


A ASCOMPAR foi homenageada logo em seguida com um coquetel oferecido na Federação das Indústrias do Estado do Piauí, FIEPI. Presentes ao evento, a Rainha da Imprensa de 2017, Vanessa Bandeira, profissionais e suas famílias. Dentro da programação da Semana da Imprensa está marcada para a próxima quinta-feira no SESC Caixeiral, às 18h a exibição do filme O Destino sem Deus, O Cordão, do diretor parnaibano Francisco Thieres, com entrada franca. 

Fonte: ASCOMPAR. Fotos: ASCOMPAR. Edição: APM Notícias.   

Palestra de lançamento do livro “Matriz de São Bernardo: de capela a santuário”

Historiador Nonato Vaz, Elmar Carvalho, Diácono Felipe e Monsenhor Maurício

Francisco Ribeiro, Natim Freitas, Elmar e Fátima no adro da Matriz de S. Bernardo

Palestra de lançamento do livro “Matriz de São Bernardo: de capela a santuário”

Proferida pelo Diácono Felipe Costa Silva

No dia 9 tive a grata satisfação de me deslocar, com amigos e familiares, de Parnaíba a São Bernardo (MA), onde participei de bela festa literária, em que foi lançado o livro “Matriz de São Bernardo: de capela a santuário”, do diácono Felipe Costa Silva, que tive a honra de prefaciar, graças à generosidade de seu autor. A obra conta a história da Paróquia e da cidade, a exemplo de Campo Maior, minha terra natal, fundada por Bernardo de Carvalho e Aguiar. Compareceu expressivo e seleto público. Usaram da palavra o monsenhor Maurício Laurent, o historiador Nonato Vaz e Elmar Carvalho. Entreguei ao diácono Felipe exemplares das obras Parnárias – poemas sobre Parnaíba, Histórias de Évora (romance) e Confissões de um juiz, para a sua biblioteca pessoal e para a Biblioteca Pública de São Bernardo. O autor que, apesar de jovem, é detentor de invejável erudição e de notável capacidade redacional, fez o belo pronunciamento que transcrevo abaixo.

Elmar Carvalho

Senhoras e senhores, boa noite!

         Agradeço a presença de todos. De maneira especial às autoridades religiosas e civis que, estando aqui, muito me honram. Obrigado!
         Com muita satisfação, neste momento inicio a apresentação oficial do meu primeiro livro “Matriz de São Bernardo: de capela a santuário”. Como preâmbulo das considerações que pretendo fazer nesta noite memorável, trago à lembrança o soneto “Minha terra”, do saudoso conterrâneo e ilustre poeta, Bernardo Coelho de Almeida:

“Se estou longe de ti, pesa-me o fardo
Imenso da saudade sobre mim:
(No mapa nem puseram São Bernardo....
E eu mais te quero, obscuramente assim!)

Vejo-te sob um céu de luz galhardo,
O verde vale, o solo carmesim,
A rua - paralela ao rio pardo -
Onde o sol nasce em baixo e morre ao fim...

O mundo que me fez abandonar-te,
Me faz te procurar por toda parte,
Nos sonhos, um a um, que ele desfaz!

E agora é tarde para revivê-los,
No pranto de mamãe, nos seus cabelos,
Na mesa onde nem todos sentam mais!”

         É muito significativo que nesta noite estejamos reunidos aqui, nesta praça, neste lugar. Talvez, não se tenha plena consciência, mas ao nos reunirmos aqui, nos reunimos não somente com o presente, mas também com o passado, que reclama o direito de se fazer presente conosco porque vive em cada um de nós, filhos deste chão abençoado pelo monge de Clairvaux!
         Bernardo Almeida, em seu soneto, expressa o genuíno espírito de um bernardense, que mesmo longe sabe guardar no coração a grata lembrança de sua terra, desejando-a só pra si, como em um conto de fadas.
Nos encontros e desencontros da vida, é aqui, neste chão, que nós bernardenses, verdadeiramente nos encontramos, ou pelo menos, é aqui que encontramos a bússola que orienta nosso caminho, a bússola do começo e recomeço.
         E para não nos perdermos ao longo da jornada da existência, é preciso que nos apropriemos das nossas raízes. Não pode se apropriar do mundo quem ainda não se apropriou de suas raízes, de seu chão, de sua história, da memória de sua gente. Esta é uma serena convicção que trago no mais íntimo de mim.

         Nesta palestra de lançamento, darei enfoque em três pontos que julgo pertinentes:
1-     O nascimento da ideia do livro
2-     A redação e o projeto da trilogia
3-     O conteúdo

 1 - O nascimento da ideia do livro

         Escrever o livro “Matriz de São Bernardo: de capela a santuário”, o primeiro do ousado projeto de uma trilogia, é uma forma de colaborar com a preservação da memória da nossa cidade, nossa paróquia, além de recordar os elementos basilares que sustentam nossa cultura, nossa fé cristã, nossos costumes e festas.
         Toda pesquisa nasce de uma sadia curiosidade. O que seria da humanidade se não existissem os espíritos curiosos. A curiosidade sadia é capaz de produzir o extraordinário, ficam como exemplo as grandes descobertas da ciência e da tecnologia, e os constantes progressos da pesquisa histórica.
         Pela curiosidade de entender as razões pelas quais o Cônego Nestor foi assassinado em agosto de 1970, iniciei um longo caminho de leitura, coleta de dados, partilha de experiências e vivências, que culmina, agora, com o lançamento desse livro.
         Tudo começou em janeiro de 2011, no escritório de Monsenhor Maurício Laurent, quando ele pôs em minhas mãos a volumosa obra “História Eclesiástica do Maranhão”, de Dom Filipe Condurú Pacheco, onde encontrei a trilha por onde eu deveria dar os primeiros passos para depois devassar, por conta própria, um novo caminho.
         À medida que ia lendo Condurú Pacheco fui sendo possuído por um enorme desejo de imitá-lo, escrevendo também eu uma suposta “história eclesiástica bernardense”. Essa foi, aliás, minha ideia original, imatura por sinal, que posteriormente foi purificada e redirecionada.
         Apropriei-me de outras fontes muito importantes (César Marques, Cláudio Melo, Mário Meireles, Aderson Lago etc.) e gradativamente fui cotejando inúmeras informações sobre a paróquia de São Bernardo, e inclusive sobre a própria origem da cidade.
Desse cotejamento, fui construindo um vasto leque de dados históricos, que me permitiu ampliar o horizonte da pesquisa para além da figura do Cônego Nestor, que era o objeto inicial das investigações.
Quando me dei conta, eu já estava em alto mar, cônscio, porém, que um pouco desprotegido, por não ter, com propriedade, domínio do método da pesquisa histórica, o que faz com que eu me entenda um amador, ou como disse um colega padre e historiador, um ensaísta. Mas um ensaísta comprometido com a verdade e que preza muito pela honestidade intelectual.

2 - A redação e o projeto da trilogia

         De posse de inúmeras fontes, comecei, em 2012, a esboçar o esqueleto daquilo que seria um livro. Além de definir o que deveria escrever, redigi o núcleo central de alguns capítulos. Ali ficou claro, dada a vastidão da pesquisa, que eu deveria dividir a publicação em pelo menos três. Foi assim que surgiu a ideia da trilogia, nada, porém estava muito claro.
Foram seis anos de pesquisa temperados com as obrigações próprias de um seminarista, seja no âmbito acadêmico seja no pastoral. Em alguns momentos tive que deixar este trabalho em segundo plano, sem nunca perder, no entanto, o elã da pesquisa.
Uma das primeiras contribuições dessa pesquisa consistiu na recordação e divulgação da data do bicentenário da Matriz, cujas celebrações oficias ocorreram no ano passado, no contexto do Ano Jubilar da Misericórdia.
Na ocasião, escrevi um pequeno artigo explicando o contexto histórico dos 200 anos da Matriz, apesar da Paróquia São Bernardo possuir, historicamente, 276 anos de existência institucional. Esse dado está seguramente fundamentado no livro.
Considerando o fato de eu estar impossibilitado de fazer a publicação do livro no ano passado, em razão da minha transferência para o Ceará, criei o blog Freguesia de São Bernardo do Parnaíba, ou simplesmente Freguesia SB, a fim de homenagear a Matriz Bicentenária de São Bernardo, e ao mesmo tempo chamar atenção para a necessidade de mais pesquisas e produção sobre a história de São Bernardo.
Paralelo ao trabalho do blog, retomei a redação do livro, levando a cabo a conclusão dos capítulos e definindo com clareza o conteúdo dos três volumes:
O 1º, que ora apresento, possibilita uma visão histórica geral sobre a origem de São Bernardo e da Paróquia São Bernardo, anteriormente chamada Freguesia de São Bernardo do Parnaíba.
O 2º, cuja redação já está em andamento, e está previsto para ser publicado em agosto do ano vindouro, será sobre o Cônego Nestor, com especial ênfase sobre o contexto obscuro de seu assassinato, dúvida de raiz que motivou todas as minhas pesquisas.
O 3º, cuja previsão de lançamento é para agosto de 2019, abordará a devoção a São Bernardo de Claraval e seus desdobramentos na construção do tecido social bernardense, considerando, sobretudo o festejo e as manifestações populares de piedade e devoção.
A redação deste primeiro volume eu a concluí em fevereiro deste ano, tendo encaminhado o escrito, posteriormente, para a apreciação de alguns amigos.
Fiz convite especial ao ilustre Elmar Carvalho para que ele fizesse o prefácio. Muito cordialmente, aceitou tal empresa, e o fez com esmero e objetividade.
Minha relação com Elmar começou via internet, quando lhe solicitei uma cópia da obra “Bernardo de Carvalho”, do grande historiador Pe. Cláudio Melo. Hoje, nos encontramos pela primeira vez, na ocasião desse lançamento, razão pela qual me sinto mui honrado.
Também devo recordar gratamente, meu amigo historiador, Pe. Edilberto Cavalcante, doutor e professor de história na UECE, e membro do clero de Quixadá, pelas preciosas dicas para a redação final do texto.
Devo recordar ainda, Pe. João Rezende, do clero da Arquidiocese de São Luís, que me iluminou na escolha do título do vertente livro.
Depois de seguidos todos os tramites de publicação, junto à Editora Imprece de Fortaleza, tenho a grata satisfação de colocar em vossas mãos o primeiro fruto de uma ousada semeadura. “Matriz de São Bernardo: de capela a santuário”, é o meu presente, ainda que tardio, à Paróquia Santuário São Bernardo pelos seus 200 anos de Matriz.

3 - O conteúdo

      Durante a redação dos sete capítulos desse primeiro volume, resolvi iniciar resgatando a narrativa legendária sobre a origem de São Bernardo, nas suas mais diversas variantes. De fato, apesar de ter um caráter legendário, essas narrativas portam consigo algo de verdadeiro e expressam momentos fundamentais da história da Matriz.
      Na antiguidade clássica, quando os gregos resolveram romper com a explicação mítica do mundo, deram origem à Filosofia. No entanto, sabe-se que o mito é portador de uma verdade. Não se trata de uma mentira, mas de uma forma de explicar e dizer a multifacetada realidade da existência.
     De igual maneira, ao iniciar a obra pelas narrativas legendárias, quis valorizá-las e mostrar que a partir delas podemos trilhar o caminho da história, dos fatos e acontecimentos. Quis trazer em cena muitos personagens que estão nas origens da nossa cidade: os padres jesuítas, os índios Anapurús, Bernardo de Carvalho Aguiar, Dom Manuel da Cruz e Padre Antônio Vidal de Almeida, o primeiro vigário encomendado de São Bernardo.
         A história de São Bernardo foi construída ao redor da Matriz, da necessidade de sua construção. De fato, nosso chão, nos séculos XVIII e XIX, é profundamente marcado pela necessidade da construção e/ou manutenção de uma matriz. Os nomes que se sobressaem nesse período são os do padre João Francisco Martins e do coronel Antônio Pires Ferreira, generoso benfeitor da Matriz de São Bernardo.
Mas, é somente a partir do século XX, com a ousadia do Cônego Nestor em construir uma nova Matriz, um santuário, é que o eixo se desloca da igreja de pedra para a igreja viva, que sãos os fieis batizados, os paroquianos, ou numa linguagem colonial, os fregueses.
      O século XX é o século de ouro da Matriz. Período em que aconteceu uma verdadeira renovação pastoral a partir de alguns movimentos leigos, tais como o Apostolado da Oração e a Pia União das Filhas de Maria.
         Por uma questão de justiça, é preciso que se diga que essa renovação não é mérito unicamente do Cônego Nestor. Na verdade, ao chegar aqui ele encontrou um terreno já trabalhado pelo ilustre Monsenhor Gentil de Moura Viana, que tanto bem fez a esta paróquia nos poucos anos em que dela esteve à frente.
         Não há dúvida de que o período do pastoreio do Cônego Nestor se configura como o esplendor da Matriz. No entanto, isso não se deve somente a ele. É preciso que olhemos para outros personagens que foram também muito importantes, sobretudo mulheres, tais como, Otamires Pereira, Elizia Guimarães, Rosa Leal, Semírames Coelho Lima, Nilza Coelho Lima, Débora Correia Lima, Antonieta Andrade, Elisabete Almeida, e o senhor Edmundo Dantés, irmão do Padre Alexandre Pereira, filho de São Bernardo, que foi o vigário antecessor do Cônego Nestor.
       Após o fim trágico e lamentável do então cônego, a Matriz de São Bernardo foi confiada aos cuidados do Padre Maurício, que com muita maestria soube encaminhar a paróquia na linha de renovação proposta pelo Concílio Vaticano II, a partir de uma visão eclesial que considera a CEB’s como um caminho de verdadeira renovação pastoral e espiritual, culminando na ereção canônica do nosso templo como Santuário Diocesano.
     Nesse itinerário de três séculos, resumidamente ilustrados, ensejei destacar os elementos históricos que fomentam o ethos bernardense, isto é, nosso jeito de ser, nossa expressão sociocultural.
         Espero que este livro ajude a fomentar no coração de cada um de nós o terno amor pela nossa Matriz, nossa terrinha, a fim de que nunca seja silenciada a voz da alma que canta sem cessar, nos recônditos de nosso ser: “Glória a ti terra querida, cantamos com emoção, juramos por toda a vida, trazer-te no coração”.

Obrigado!

São Bernardo, 09 de setembro de 2017
Praça Vale de Luz

domingo, 10 de setembro de 2017

GALO MAGRO


GALO MAGRO

Elmar Carvalho

Galo Magro
         não tinha
         penas multicores
         não tinha canto
         nem encanto
         não tinha crista
                  nem cristais de prata.
Sim, senhores, porque Galo Magro
        era apenas o apelido
        de um menino pobre,
        de um menino feio,
        de um menino com fome,
        de um menino sem nome,
como milhares de
outros meninos do Brasil.
        Galo Magro
        jogava bola
mas um dia
para driblar a fome
encravada no seu bucho
ainda menino foi ser
motorista de táxi.
        Um dia,
        um dia como
        outro qualquer,
        um dia simples
sem exuberância de sol
e sem adorno de nuvens
um homem mandou
que o Galo Magro
fizesse uma corrida
        à passagem do
        “Vai-não-Volta”.
        E o Galo Magro
        foi e não mais voltou.
Foi encontrado morto
        com o olhar de
        vidro absorto
        fitando o vazio
        do sem futuro.
Foi encontrado morto
        com os olhos tristes abertos
        fitando talvez a quimera
da vida perdida de quem nada espera
da vida perdida
de pobre diabo
completamente morto
morto ainda em vida
de morto morto e acabado.

                (Uma rosa rubra de sangue coagulado
                brilhava muito viva e linda em seu
                peito frágil de Galo Magro magro.)    

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Convite para o lançamento de Parnárias


Bancas de revista

O Louro visto por Fernando di Castro

BANCAS  DE  REVISTA

Alcenor Candeira Filho
                                                
                         o sol nas bancas de revista
                         me enche de alegria e preguiça
                         quem lê tanta notícia?
                         eu vou
                         (Caetano Veloso  -  “Alegria, Alegria”)

     Em minhas reminiscências, se o assunto é venda de jornais e revistas, ocorre-me primeiramente o estabelecimento de José de Moraes  Veras, o Zequinha da Coca-Cola, situado nas proximidades da praça da Graça, na rua Marechal Pires  Ferreira.

     Quando criança gostava de ir à banca do Zequinha para me abastecer de revistas em quadrinhos e figurinhas colecionadas em álbuns. A “Revista dos Esportes” também me atraía. Zequinha comercializava só publicações novas. Quem queria revistas usadas e bem mais baratas visitava no Mercado Central a banca do Sr. Lira, um sessentão muito simpático com pelos plantados no corpo inteiro. Seu Lira vendia e permutava revistas em quadrinhos (Pato Donald, Mickey, cow-boy, Bolinha, Luluzinha), cordéis, livretos pornôs do Carlos Zéfiro e figurinhas ou supercromos tecnicoloridos para álbuns, como  “Os Dez Mandamentos” ,inesquecível filme de Cecil B. de Mille, estrelado por Charton Heston como Moisés, Anne Baxter como Nefretiri, Yul Brynner  como Ramsés II,  Yvone De Carlo como Sephora,  Debra Paget como Lília, John DereK como Josué,  Edward G. Robinson como Dathan,  Sir Cedric Hardwick como Seth I, com total de 210 supercromos, que retratam a trajetória de Moisés, do nascimento à expulsão do Egito por decreto do faraó Ramsés II e o abandono nas areias de deserto quase infindo, com ração e água para um só dia. Depois, a imensa responsabilidade de conduzir seu povo a lugar incerto, a terras novas, à terra que seja só sua, sob impiedosa perseguição do exército comandado pelo faraó. A abertura do mar. O afogamento de militares egípcios. A subida ao Monte Sinai. O bezerro de ouro. A terra se abrindo e o bezerro de ouro e seus adoradores caindo no abismo que se abriu a seus pés. Lá em cima o fogo, a voz , as regras. Os Dez Mandamentos.  Moisés: braços abertos para o infinito, barba e cabelo longos e brancos, em cima do monte, na despedida de quem esconde para onde vai.

     Outro álbum inesquecível , que conservo até hoje, é o constituído de 200 supercromos impressos  -  “Estrelas de Ontem e de Hoje”, retratando atores e atrizes brasileiros e estrangeiros que se destacaram na primeira metade do século XX e nos anos 60:  Ronald Golias, Anselmo Duarte, Grande Otelo, Oscarito, Ankito, Zé Trindade, Norma Benguel, Paul Newman, Elvis Presley, Audie Murphy, Robert Wagner, Natalie Wood, Anita Ekberg, Gina Lollobrígida, Anthony Quinn, Marilyn Monroe, Richard Burton, Marlon Brando, Rock Hudson, Gary Cooper, James Stewart, Glenn Ford, Kirk Douglas, Victor Mature...
      
     O troca-troca de figurinhas era interessante e tinha suas regras:  qualquer pessoa podia chegar na banca do Lira com uma Gina Lollobrígida repetida e sair com um Anthony Quinn que lhe faltava no álbum.  Claro que havia supercromos mais raros que outros e na negociação dez figuras poderiam por exemplo ser trocadas por uma.

     A banca do Zequinha só vendia envelopes lacrados com cinco figurinhas cada. Era quem bancava o produto na praça.

     As bancas de revista satisfazem todos os gostos e gastos: jornais e revistas nacionais, estaduais e municipais, charadas, palavras cruzadas, casa e jardim, apostilas para concursos públicos, esporte, artes, religião, ciências, filosofia, cordel, pornô, além de livros, muitos dos quais de autores parnaibanos.

     A partir dos anos 60, a banca de revista mais procurada pertencia ao senhor Aluísio Cruz , que sucedeu o cunhado Zequinha no negócio. Dona Carlota trabalhava com o marido.

     Da fase áurea da banca do Aluísio, na avenida presidente Vargas, lembro-me dos encontros dominicais de leitores em busca do Jornal do Brasil, com seus diversos cadernos (esporte, literatura, turismo, economia, política). O JB era o jornal de circulação nacional mais consumido em Parnaíba. E olha que as edições  de domingo  chegavam na cidade  a partir das nove horas do mesmo dia.

     Através da banca do Aluísio formei coleções completas de lançamentos de grandes editoras nacionais, como os 32 volumes das obras de Érico Veríssimo, os 50 da coleção “Literatura Brasileira Contemporânea”, os 50 da coleção “Obras Imortais de Nossa Literatura, os 50 de “Literatura Comentada”, os 21 da “História da República Brasileira”, de Hélio Silva e Maria Cecília Ribas Carneiro, e muitas outras obras.

     Hoje há várias bancas de jornal na cidade. A mais conhecida e frequentada é a Banca do Louro, localizada na praça da Graça. Em sua volta, quatro instituições financeiras, duas igrejas bicentenárias, um hotel, receita federal, câmara municipal e estabelecimentos comerciais.

     A Banca do Louro, graças à simpatia e educação do proprietário, é muito visitada. Em torno dela as pessoas gostam de bater papo.

     Durante o tempo em que viveu, o sr. Pedro Alelaf reunia a partir dos anos 60 na calçada de sua casa comercial, aos domingos de manhã, várias pessoas  -  políticos, empresários, bancários, comerciários, jornalistas, intelectuais. Tema: livre. Quem quisesse falar mal de alguém que falasse, quem preferisse falar bem que o fizesse. Esse grupo chamava o ponto de reunião de senadinho. E realmente os pontos de vista políticos predominavam democraticamente nas conversas. Além do anfitrião, José Maria Medeiros e Pedro Borges eram presenças constantes.

     Depois do falecimento de Pedro Alelaf, o senadinho se mudou para a banca do Louro. A democracia continua plena. Todos têm razão neste mundo sem razões.

     Um dos traços marcantes no comportamento do Louro é a discrição. Ele fala muito menos do que ouve. Aliás, quando fala, não ofende a ninguém. A esposa e o filho aprenderam bem a lição da boa convivência.

     O Louro parece ter um só partido: PCP – Partido da Cultura Parnaibana e por isso se entende bem com todo o mundo.

     Em todo ano eleitoral, o Louro colocava uma urna ao lado de sua banca para que  as pessoas manifestassem sua intenção de voto. Suas  pesquisas sempre batiam com o resultado oficial. Na última eleição municipal, algumas pessoas não comprometidas com a democracia tentaram desvirtuar a  pesquisa feita pelo Louro, desestimulando-o a prosseguir nesse  trabalho.

     Além de publicações de praxe, a Banca do Louro vende livros diversos, principalmente de autores parnaibanos.

     Recentemente escrevi e publiquei um poeminha chamado Epigrama:

         o poeta foi à livraria
         atrás de livro de poesia:
         -  como podes ver nas estantes
         aqui temos livros bastantes
         que vendemos a todo instante
         e que agradam o leitor
         -  obras de autoajuda  de amor
         de culinária de ficção
         de botânica de religião...
         como vês são livros diversos
         mas não temos nenhum de versos
         por escassez de comprador.

     Na Banca do Louro, cuja missão superior é divulgar a cultura, com ou sem lucro, tem até livros de poesia. Talvez até mais que obras em prosa.

     Existem outras bancas de revista em Parnaíba e é provável que tenha havido outras anteriores às do período em tela. Neste artigo, menciono apenas as que me marcaram efetivamente.

                                                                  2017