quinta-feira, 25 de maio de 2017

História de Évora já nas livrarias de Teresina


Após o seu bem-sucedido lançamento na Academia Piauiense de Letras, o romance Histórias de Évora, de Elmar Carvalho, já se encontra à venda nas livrarias Entrelivros, Anchieta, Mons. Melo (UFPI) e Leitura (Shopping Rio Poty), pelo módico preço de R$ 20,00.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Histórias de Évora: uma ficção do erotismo, amor e saudade


Histórias de Évora: uma ficção do erotismo, amor e saudade

                          O mistério das letras tem isso de atraente: torna-se mais espesso à medida que se tenta dissipá-lo.

Tzvetan Todorov,  As estruturas narrativas.
                          
                                                    
Cunha e Silva Filho
  

        PRELIMINARES. Mais conhecido como  um   respeitado poeta no seu Estado,  o piauiense Elmar Carvalho  não poderia  se considerado  um estreante  no gênero da prosa de ficção.
         Há tempos tem escrito pequenos  textos  que se poderiam  chamar de  contos,  narrativas regionais  que misturam “realidade’ ficcional  e imaginário popular e folclórico,  adentrando-se até, em grau menor,  em textos de cunho  fantástico ou mágico que contribuem  para  um pitoresco  painel   dos costumes,  hábitos  da paisagem  interiorana  piauiense,  de cidades do interior  de seu estado natal. Lendo muitas deles, não me furto a fazer  uma analogia com alguns textos narrativos de viés sobrenatural com algumas narrativas do  escritor Bernardo Guimarães (1825-1884). Penso aqui no seu  conto  modelar que é  “A dança dos ossos.” Extraído do livro Lendas e romances (1871).
     Elmar Carvalho é um  autor  que há muito tempo venho lendo não só  analisando-lhe a poesia   que, - ninguém pode negar – é de ótima qualidade,  tendo mesmo  sido agraciado, pelo seu livro Rosa dos ventos Gerais (poesia reunida, 20002)  com o importante  prêmio “Ribeiro Couto” da União Brasileira de Escritores (UBE). Ademais,  Elmar  incursionou  elegantemente  pelo memorialismo e por algumas  pesquisas  de natureza  histórica, pelo ensaio da pesquisa histórica, pela crítica literária, pela crônica.
      Diria, em síntese, que o conjunto de textos em prosa que, até hoje, produziu  já lhe garante um lugar   definitivo   entre os escritores  mais  prestigiados da literatura  piauiense contemporânea.
    Agora,  Elmar Carvalho  nos surpreende  mais uma vez com uma novidade: a escrita de um romance, Histórias de Évora.O autor a classificou  como  romance; eu, porém  a definiria como  novela, pois se ressente de um componente forte no romance: a simultaneidade dramática.”[1]
    Deixo explícito,  no entanto,  que, nesta análise  de alguns ângulos  da linguagem e da sua  estrutura ficcional,  levarei em conta a sua íntima aproximação com  o gênero do romance e até o tratarei com tal, sobretudo  tendo em vista  o cunho ensaístico  desta  introdução, o que equivale  a dizer, que meu julgamento ou minhas   concepções  não são dogmáticas nem definitivas em terreno  tão  controvertido  quanto   a classificação de gêneros nos dias de hoje.
     Tampouco divergi dele porque seja uma obra não muito extensa, mas por um romance ser  uma narrativa que propicia uma visão totalizadora, da existência, da qual se poderia depreender melhor a  cosmovisão do narrador sobre o mundo e seus problemas mais diversificados e complexos.
      A novela, não. Tendo elementos praticamente semelhantes do romance, seu alcance narrativo é menor no tratamento destinado à trama, ao enredo, às personagens. A novela não seria um romance em ponto pequeno, mas seria um “romance incompleto,” suscetível de se prolongar indefinidamente em nosso  episódios.
    Por outro lado,  esse espaço de introdução da obra em exame não objetiva  levar-me a uma discussão teórica,  genológica, mas   apontar vias seguidas  por Elmar nesta  corajosa   empreitada de  se desincumbir  bem  no seu  projeto de  escrever ficção e estrear  como romancista  em   Histórias de Évora.
   Preferindo  seguir  a linha de uma ficção  de corte  mais tradicional, até na linguagem, com ressonâncias  de autores  portugueses  ou brasileiros do século  XIX, mas ao mesmo tempo   incorporando   ao seu texto  contribuições  da narrativa contemporânea, segundo veremos  mais adiante,  Elmar Carvalho logrou êxito nessa  combinação  do antigo   com o novo, o que,  de certa maneira,  sem forçar,  se poderia   aduzir que na obra em questão  existem  traços  distintivos  inegáveis de pós-modernidade.
  Tal estratégia do autor o salva  da pecha de uma narrativa  em modos envelhecidos ou anacrônicos. O próprio autor, nas “Advertências” de abertura da obra,  de certa maneira criteriosamente  antecipa alguns  pontos comuns entre o que ele pensa e o que eu penso acerca   da construção de seu romance no que tange a algumas  estratégicas   e técnicas narrativas por ele usadas. Desta forma,  chama a atenção do leitor para sua opção pelo não utilização, na arquitetura de sua  obra, do  experimentalismo  ou  vanguardismo: “Deixo logo bem claro que não desejei fazer uma obra de vanguarda. Quis apenas contar histórias, pois sempre entendi que um romance ou conto deve narrar algo.”  (grifos  meus).

A QUESTÃO DO NARRADOR. Existem dois narradores nas Histórias de Évora. O narrador 1 e o narrador 2.    O narrador 1 relata as  exuberantes e ousadas  experiências erótico-amorosas  de Marcos Azevedo,  protagonista do romance,  desde a sua  iniciação  sexual  com a famosa  madame  Doralice, até o final  feliz do romance, à moda romântica, já casado com a auditora fiscal, Lívia Maria.
       O narrador 2, que é interno, quer dizer,  inserido numa narrativa primeira, é um  narrador-personagem, só que, agora, na condição de escritor. Este,    a partir do capitulo  XI, será incumbido de  narrar  textos extraídos  de suas obras na fase adulta e  madura. São as obras Histórias de Évora, Mitologia de Évora e Memórias. Pelo que se viu,  o narrador I, de terceira pessoa,  emprega  o recurso  digressivo e metaficcional, ou seja, a quebra do ilusionismo  realista do chamado  romance burguês do século XIX ao mostrar  que o leitor  está diante de uma história inventada, de “criatura de papel” no dizer de Roland Barthes e, por conseguinte, não referencial,  não empírica.Na realidade,  esse recurso  metaficcional ou metalinguístico,  desponta mais de uma vez  na narrativa tanto sob o domínio do narrador 1 quanto do narrador 2. Daí advertir o leitor de que os relatos  de Marcos Azevedo virão (...) em itálicos e entre aspas”(.... )  Importa acentuar que relatando, com minúcias, os saudosos  grandes  momentos de seu  passado, os seu relatos tornam-se, por assim dizer,   tanto  ficcionais quanto fragmentos de memórias do escritor. E mais: a função narratológica  do narrador 2 tem um caráter de complementaridade no conjunto do enredo do narrador 1.
        Além disso,  enquanto narrador 2,  Marcos Azevedo  se distancia um  pouco  do que  conta,  tornando, assim,  sua narrativa mais objetiva e mais   interessada em outras realidades  não  descritas nem  expostas e nem discutidas pelo  narrador  em terceira  pessoa, o que, para a engenharia do romance,  evita descambar para uma tautologia. No conjunto geral  do romance,   essa segunda narrativa (narrador 2) em alguns capítulos, conseguem chegar  a competir, em qualidade literária,  com a narrativa   primeira (narrador 1).
        A condição de Marcos ser um escritor não deixa, dessa asneira,de funcionar como um recurso metanarrativo ou metaficcional,  de vez que os textos dele, inseridos no texto maior (narrador 1), tendo como narrador central na primeira  pessoa,  segundo já frisei, são, em grande parte, narrativos memorialísticas de Marcos  Azevedo. Portanto,  os dois planos narrativos dialogam entre si posto que  indiretamente, i.e., sem fazer explícita menção à narrativa primeira.
        Não há paira dúvida de que, nos dois planos narrativos, tem-se um alter ego do autor ( e isso é muito frequente em alguns autores), sobretudo evidente  para quem, como eu,  conhece a produção literária do autor e, além disso,  mantém com ele laços de  amizade. Entretanto,  em literatura,  a realidade, esse mundo  referencial,  sofre deformação ao se  transmudar em obra de arte, ou seja,  vira a  mímesis da concepção aristotélica e não há  senão que aceitar  essa metamorfose, com toda a sua “astúcia”  na criação literária.
        Cumpre assinalar mais um recurso   narratológico de Histórias de Évora de cunho  metaficcional. Refiro-me a exemplos, ao longo do romance, considerados os dois mencionados  narradores principais, de um deles estar  reportando alguma história ou causo, fato ou acontecimento  pitoresco ouvidos ou de que tenha  tido conhecimento pela boca de terceiros, ao invés de delegarem a palavra a estes, preferem  resumir  o narrado  e manter as rédeas da narração.
        Ora,  em exemplos como  este se poderia bem falar aqui de  recurso que mantém alguma semelhança do mise en abime, [2] notadamente quando, no mesmo  capítulo se encaixam outras histórias, outras narrativas ou fragmentos autônomos de narrativas.
        Num exemplo último, no romance pude observar  que,  em alguns capítulos,  se poderia  identificar  traços de polifonia  ou dialogismo, sobretudo  quando a narrativa  se presta a introduzir  duas ou mas versões ou depoimentos  visando à   elucidação ou não  de um relato misterioso ou fantástico. São exemplares as histórias “A terra encantada (1)” (capítulo XXII) e a sua conclusão, no capítulo XXII., e “O lendário Zé Lolô” (capítulo XVIII).
      Vê-se que a composição do romance  de Elmar só aparentemente  é simples. Ao contrário,  ele exige redobrada  atenção do leitor  especializado no que se refere ao inventivo modo de  elaboração  formal  do  romance.
       Superada essa dificuldade de natureza  teórica,  o romance Histórias de Évora vai, sem dúvida,  agradar o leitor, seja o leitor comum, mais despertado pela sequência das aventuras erótico-amorosas do protagonista  Marcos Azevedo,  seja o leitor mais exigente por outras dimensões e leituras  sugeridas  pela  obra.
     Sabe por quê? Porque há na obra um chamariz contagiante da ordem do escatológico: o lado erótico, a sensualidade, de resto, não exagerados, não resvalando para uma baixa voltagem neo-naturalista, mas não deixando de  aguçar a curiosidade e o espanto  do receptor diante de algumas cenas  do coito. Comparado a outros romances que tematizam esta dimensão escatológica, por exemplo, com  o romance Pilatos (1973), de Carlos Heitor Cony, a ficção de Elmar é  quase virtuosa. Elmar tem, na representação de cenas de sexo,  uma habilidade narrativa especial e é criativo nesse ponto.

ROMANCE DE FORMAÇÃO. Histórias de Évoras, por suas característica estruturais, é mais um romance de formação   a ser acrescido  a esta linhagem  de ficção na literatura  brasileira que já conta com O Ateneu (1888), de Raul Pompeia, Amar, verbo intransitivo (1927), de Mário de Andrade, os romances ‘ciclo do açúcar’ (1933-1937), de José Lins do Rego, Mundo dos mortos (1937), de Otávio de Faria,  e, na literatura portuguesa, Fanga (1942), de Alves Redol, Manhã submersa (1955), de Vergílio Ferreira e o ciclo de A velha Casa (1945-1966), de José Régio.[3]
      Na literatura de outras línguas, sobretudo  no alemão, onde mais se cultivou,  temos o Agathon (1766), de Wieland, e o celebérrimo Wilhelm Meister, que (1795-1796), de Goethe. Na esteira da tradição em alemão,  podem-se citar autores que cultivaram esse tipo de romance, chamado de Bildungsroman, igualmente  denominado künstleroman, como  Tieck, Novalis, Jean-Paul, Eichendorf, Keller, Stifter, Raabe, Herman Hesse. Na língua inglês citar-se-iam Charlotte Brontë, Charles Dickens, Samuel Butler, Somerset Maugham[4], James  Joyce, este último com  o  famoso  Portrait  of the artist as a young man (1916). Na França, Romand Rolland.[5]       
     O enredo dessa obra relata  a formação  de Marcos Azevedo , desde a infância em Évora, um  topônimo com ressonâncias  de Portugal, de Eça de Queirós (não é gratuito o título do capítulo  XXXI: “O crime do Padre Amaro, romance realista de Eça   com título  homônimo) passando  pela adolescência,  mocidade e maturidade e abordando   sua iniciação  sexual,   educação escolar e intelectual, sua orientação  familiar,  suas amizades,   seus hábitos  e preferências, sua  vida agitada e tórrida vida  amorosa na adolescência e mocidade, suas alegrias, frêmitos e frustrações, seus relacionamento  sociais, seu amigos mais íntimos, seus familiares, sua atividade  profissional  e, no caso dele,  sua atividade  de escritor.
      Por fim,  o seu reencontro proustiano pela memória voluntária com seus correspondentes  lugares nos quais fez o seu aprendizado sexual e – por que não? – amoroso, espaço  irremovível da suas mil lembranças de situações vividas, sonhadas, de fatos pitorescos, decepcionantes,  constrangedores, humorísticos, melodramáticos e tragicômicos.
    Lugares da sua velha e afetivamente  distante Évora, uma cidade modificada, agora, diante dos seus olhos  saudosistas, românticos, sentimentais, segundo se constata com o capítulo final da obra. Ali se narra e se descreve tanto quanto se medita o tema do ubi sunt naquela atitude de flâneur deambulando pelos antigos, decadentes  e amados lugares e tempos da juventude. Uma Évora modificada  no seu antigo traçado urbanístico com novos prédios, que substituíram algumas antigas moradias levadas pelo  progresso e pela ganância dos homens. Esse monólogo  silencioso  e elegíaco de Marcos para sempre o acompanhará até os seus últimos dias.



OUTRAS QUESTÕES  DO ROMANCE. Histórias  de Évora,  no que se propôs o autor,  se desenvolve  com uma simplicidade de linguagem, correção, um leve sabor clássico e arcaizante  de vocábulos,   moderação   no plano poético (traço corrente no conto, novela e no  romance)     desenvoltura  nas descrições e trechos dissertativos  do espaço literário, conhecimento da natureza, atilado  poder de observação dos costumes e hábitos do interior, da sua cultura, da sua história,  dos seus habitantes e da vida social estratificada.
      O núcleo  fulcral da história - não custa  enfatizar –  a vivência e as vicissitudes de um adolescente e seus arroubos amorosos assim como sua fase da mocidade e do início da velhice em cidade do interior piauiense entre os anos 1970 e finais de 1980. O ficcionista domina toda essa ferramenta  que se faz  necessária  à articulação na escrita
     Todavia,  a sua capacidade narrativa não termina aí e,  sob a superfície  da enunciação/enunciado, o texto literário  sinaliza para muitos  artifícios  retóricos  que só elevam  a sua  qualidade  textual.
      Quero significar aqui a riqueza de diferentes recursos  intertextuais, na obra, tais como  as inúmeras alusões a autores e poeta  de épocas diferentes, às citações de música  popular, de obras de cordel, de filmes, da época da história  narrada, assim como  as autorreferencias  de versos  do  próprio autor, as nomeações de figuras importantes  da vida cultural e literária  do Piauí ou fora dele (traços de roman  à clef ), como a referência ao próprio  nome do autor  no corpo da narrativa.
      Ora  tais riquezas  alusivas,  paródicas,  tornam o texto, em nível de leitura mais profunda  uma narrativa de amplo espectro  e alta  taxa informativa.O narrador 1 não somente  remete a objetos de uso pessoal,   usos de comunicação do tempo da narrativa, mas  inclui  também  os meios de comunicação   da atualidade, como  a internet,  os CDs,   e outras formas  de comunicação da sociedade de massa.
    Desta forma,  a vida social  daqueles jovens das décadas de 70 e 80 do século passado é reconstruída com  rara acuidade : os lupanares, a prostituição,  sobretudo  no ápice do desabrochar  da adolescência.
      A vida das madames de cabarés, na “Zona Planetária,”  um dos redutos de prostituição, tão bem visitada  pela poesia de  Elmar Carvalho, as carraspanas  de jovens e velhos,  as brigas  por ciúmes, as traições  conjugais, as tragédias amorosas, os subtérreos da sexualidade,   os desencantos  amorosos,  o romantismo  da época, tudo isso é pintado com fortes cores e com  fidelidade e verossimilhança nas descrições dos ambientes internos e externos  das diferentes situações  da realidade  local, da sociedade alta com seu  ricaços, seus coronéis,  seu apego ao dinheiro,  suas hipocrisias e seus preconceitos, recriadas com muito vigor.
      A passagem entre o período da   riqueza  extrativista da carnaúba  e sua decadência  é outro  ponto alto  no romance muito bem  narrada no  capítulo XXXVI, de título “E assim se passaram os anos.” 
     Por outro lado,  em  questões ideológicas na fase do final da adolescência, da mocidade e maturidade, não há sequer  nenhuma  indicação na narrativa   à fase  aguda da ditadura militar no país. Levando em conta que o personagem é um escritor, pessoa de visão, culta, sensível,  bem informada,  que produz artigos em jornais locais e, vivendo  intensamente o seu tempo, em tal contexto histórico-social-cultural, seria quase inescapável  alguma referência, posto  que velada,  aos anos duros  do regime discricionário. É bem verdade que há dois parágrafos (o terceiro e o quarto)  no romance, capítulo XVI, de título  “Gracinha”, nos quais  o narrador alude ao jornal  O Liberal,  fundado  por ele e pelos amigos    Fabrício,  Mário Cunha, Cazuza,  e outros companheiros. Contudo,  seria um  periódico apartidário, mas não dispensando  críticas aos governos federal, estadual e municipal.
     No meio de tantos ângulos  de visão propiciados  por essa   narrativa múltipla, o que  me  encantou  como leitor foram os incidentes por que passaram  Marcos e seus companheiros  de juventude,  ressaltando-se  o Fabrício,  o Milton Ferreira, o Cláudio Bastos, o Cazuza, entre outros. E, para concluir essa já prolongada  introdução,  ficarão  também na minha memória  de leitor aquelas mulheres da vida, desde as mais requintadas até as mais  desprezadas.
       Do ponto de vista de organização dos capítulos,  julgo que o “Anexo” inserido após o epílogo, com pequenos fragmentos de um outro livro  de Marcos Azevedo, de título Outras histórias de  Évora,  escrito aos 62 anos, melhor destino teria se fosse inserido como mais um capítulo   da obra, circunstância que levaria o ficcionista a mudanças na ordem  dos capítulos. As explicações que o narrador em terceira pessoa fornece ao leitor evidenciam  seu  viés metalinguístico. Os mencionados  fragmentos descrevem a fisionomia,  os traços físicos e psicológicos  desse conjunto de tipos populares  de Évora, alguns  engraçados,  alguns excêntricos, outros dignos de piedade, alguns patéticos,  patéticos,  desse tipos  de seres, que, por seus defeitos ou até qualidades,   passam a fazer  parte da memória  urbana e do seu  anedotário. A caracterização desses  tipos populares já tinha sido  empregada por Elmar na sua  poesia. Reporto-me à seção “PoeMitos de Parnaíba,” uma seção da quarta parte do livro linhas atrás citado,   Rosa dos ventos gerais.
       Outras ponderações teóricas  e formas de leitura  deixarei  para analistas  e   intérpretes  de literatura. Para os leitores não especializados, convido-os ao prazer  da leitura  simplesmente. Porém, a uns e a outros direi   que a maior atração  na leitura    dessa  obra  foram as aventuras amorosas do Marcos Azevedo e seus desdobramentos  felizes ou fracassados. O amor nem sempre é completo na vida tanto quanto na arte literária. Com as Histórias de Évora, o  Piauí ganha  mais um  romancista. Que esta  obra encontre muitos leitores.

                        

 NOTAS
            



[1] MOISÉS, Massaud. A criação literária – poesia e prosa.. Edição revista e atualizada. São Paulo: Cultrix, 2012. Ver capítulo X: A Novela (p.334-380; Ver também  capítulo XI: O Romance, p. 381-547.
[2] MARTIN, Gray.  Dictionary of literary terms. 2nd edition, third impression, 1994,p.181.
[3] MOISÉS, Massaud., op. cit. Ver verbete “Bildungsroman”, p. 63.
[4] _______________. Op. cit., p.63
[5] GRAY, Martin. Op. cit., p. Ver verbete “Bildungsroman,” p. 43.

Bibliografia consultada:

1. AGUIAR E SILVA,  Vítor Manuel de. Teoria  da literatura, 8 ed. Coimbra: Livraria  Almedina, 2011.
2.BOURNEUF, Roland e QUELLET, Real. O universo do romance. Trad. de José Carlos Seabra Pereira. Coimbra: Livraria Almedina, 1976.
3.BRASIL, Assis. Vocabulário técnico de literatura. Rio de Janeiro:  Edições de Ouro, 1979.
4.CHALUB, Samira. A metalinguagem. São Paulo: Editora Ática, 1986
5. KAYSER, Wolfgang. Análise e interpretação da obra literária. – Introdução à Ciência da Literatura. Coimbra: Armênio Amado Editora, 1985.
6.PAES, José Paulo e MOISÉS, Massaud. Pequeno dicionário da literatura brasileira. (Org.) . São Paulo: Cultrix, 1980.
7.REIS, Carlos. O conhecimento da literatura – introdução aos estudos literários. 2. ed. Coimbra: Livraria Almedina, 1999.
8.____________.M. LOPES, Ana Cristina Dicionário de teoria da narrativa. São Paulo:  Editora Ática, 1998
9.SCHÜLLER, Donald. Teoria do romance. São Paulo: Editora Ática, 1989.

10.TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. Trad. de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Editora Perspectiva, 1979.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

AS ENTREVISTAS DE NUREMBERG


AS ENTREVISTAS DE NUREMBERG         

Valério Chaves
Des. inativo do TJPI                    

        Penetrar em arquivos, manusear documentos, ouvir depoimentos, realizar entrevistas e buscar vestígios de um fato histórico ocorrido em épocas perdidas nas brumas dos tempos tem sido o caminho mais viável que os pesquisadores e historiadores  encontraram para reconstruir o passado e ampliar suas possibilidades de pesquisa  no horizonte da História.

        O livro como um complexo objeto de cultura, embora  tenha pouco mudado desde que Gutemberg imprimiu os primeiros exemplares da Bíblia no final do século XV, ainda é o principal acesso do homem às fontes de pesquisa cultural inclusive colocando em evidência os grandes personagens de guerras que mudaram o curso da humanidade.

        Leon Geldensohn, escritor e oficial do exército norte-americano, que durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi responsável pela saúde mental dos oficiais nazistas recolhidos em presídios enquanto aguardavam julgamento perante o Tribunal de Nuremberg, revela em seu livro “As Entrevistas de Nuremberg”, publicado no Brasil pela editora Companhia de Letras (in artigo de Luiz Lucio Merg, Cad. Literatura, AJURIS, 2006), detalhes, até então desconhecidos, das atrocidades praticadas durante o Holocausto contra os judeus.

        Através das entrevistas reproduzidas fielmente na obra, o autor conseguiu extrair relatos inéditos de 19 dos 24 criminosos nazistas importantes acusados de crime de guerra como: Hermam Greering, Ribbentrop e Albert Speer que, ao contrário de alguns poucos acusados, isentaram-se de responsabilidade direta nos massacres ocorridos nos campos de extermínio, procurando atribuí-la a Adolf Hitler e  Heinrich Luitpold Himmler – figuras mais poderosas do alto escalão nazista.

        Rudolf Auschwitz – um dos homens mais importantes depois de Hitle - quando entrevistado por Geldensohn admitindo ter conhecimento direto dos crimes diz textualmente:

        “Fui chamado a Berlim e recebi ordens de Himmler para erigir campos de extermínio dizendo-me com as seguintes palavras: “Nós da SS, precisamos executar esses planos. É uma tarefa difícil, mas se a ação não for imediatamente realizada, em vez de nós exterminarmos os judeus, serão eles que exterminarão os alemães no futuro”.

        Os julgamentos de Nuremberg, como se sabe, tiveram início em  novembro de 1945 na cidade alemã do mesmo nome situada ao norte do estado da Baviera, e constituíram-se num marco do direito internacional na medida em motivaram críticas levantadas por doutrinadores do direito sobre as violações dos direitos fundamentai do homem com a realização de julgamentos por um tribunal de exceção (ad hoc) onde além de não haver jurados, os acusados não tiveram direito de escolher advogados.

        No final, por terem admitido a veracidade das acusações, o tribunal decretou 12 condenações à morte, 3 prisões perpétuas, 2 condenações a 20 anos de prisão, uma a 15 e outra a 10. Três acusados foram absolvidos: Hans Futzsche, Franz von Papen e Hjalmar Schacht.      

domingo, 21 de maio de 2017

HISTÓRIAS DE ÉVORA LANÇADO EM TERESINA


                   
                    Na manhã deste sábado, 20 de maio, no auditório Wilson de Andrade Brandão, na sede da Academia Piauiense de Letras, em Teresina, houve lançamento de várias obras de autores piauienses, dentre as quais o romance HISTÓRIAS DE ÉVORA de autoria do juiz aposentado, poeta, escritor e acadêmico Elmar Carvalho.

                    As outras publicações lançadas nesta data foram: Contos de Viagem , de Nelson Nery Costa, que é atual presidente da APL; Mediquês – “O falar Nordestino, na consulta médica”, de Gisleno Feitosa; Cordéis Gonzaguianos e A festa da Asa Branca – Uma História com pássaros cantados por Luís Gonzaga, de Wilson Seraine.


O romance Histórias de Évora, que já foi publicado capítulo por capítulo no “Blog do Poeta Elmar Carvalho” e reproduzido neste Blog, será lançado também em Parnaíba em data a ser confirmada pelo autor.

Fonte: Blog do Professor Gallas

Seleta Piauiense - Ednólia Fontenele


Quase Poema 1

Ednólia Fontenele

Procuro um poema,
Novo, derramando sangue,
Cheirando mal.
Procuro um poema
Com a cor do sol,
O brilho da tua pele
Com sabor de língua.

sábado, 20 de maio de 2017

Poema de Walter Lima


1705.01

Walter Lima

Desde a Gênesis de tudo quando
Ele na sua infinita perfeição
Reformulou o que não era Nada,
Infinitamente calculou, mediu imensidões
Somou, multiplicou, pôs tudo e
Mais um tanto no nivelamento, ocorreu
As divisões entre Céus e Terra, firmamento,
Reuniu Sabedoria na criação das estrelas, astros...

Sim, na Terra dia a dia fez criação de
Ilimitadas espécies, animais, peixes, insetos...
Lua, Sol, planetas, astros, tudo em seu lugar. Por último
Veio à lume o ser perfeito, Adam e da costela saída
A Madam, prefeição total, ser “mulher”.

“Viu Deus tudo que fez era bom no sexto dia.”

w. lima_.
RP, SP, 17.05.2017.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Convite da APL para lançamento de livros

A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento dos seguintes livros:, Contos de Viagem, de Nelson Nery Costa, nº 1; Mediquês  - “O falar Nordestino, na consulta mèdica”, de Gisleno Feitosa, nº 7; Histórias de Évora, de Elmar Carvalho, nº 15, todos da Coleção Século XXI, bem como: Cordéis Gonzaguianos  e A festa da Asa Branca – Uma História com pássaros cantados por Luís Gonzaga, de Wilson Seraine.


                                        Nelson Nery Costa
                                              Presidente


Data: 20 de maio de 2017 (Sábado)
Horário: 10 horas
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão) Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone: (86)  3221 1566 – CEP.: 64001-490 – Teresina-PI

terça-feira, 16 de maio de 2017

DISCURSO DE RECEPÇÃO A QUATRO ACADÊMICOS NA APAL

Fonte: Blog do Pessoa
Fonte: Blog do Pessoa


DISCURSO DE RECEPÇÃO A QUATRO ACADÊMICOS NA APAL

Elmar Carvalho

PREÂMBULO

            Nesta noite festiva e engalanada de nossa augusta Academia Parnaibana de Letras – APAL, coube-me a honrosa e prazerosa missão de proferir o discurso de saudação a quatro novos acadêmicos, que hão de fortalecer os seus pilares.

            Conquanto honrosa e agradável seja essa tarefa, contudo ela se reveste de certas dificuldades e armadilhas, pois sendo os neófitos confrades do mesmo tope, ou seja, ombreados pela sapiência e méritos intelectuais, não posso ser pródigo no elogio a uns e avaro em relação a outros. Portanto, devo ser cauteloso, comedido, e manter a simetria entre todos, na medida do possível.

            Também gostaria de ser conciso ao falar dos quatro novos mosqueteiros ou cavaleiros andantes de nossa Academia, para não os cansar, e para não enfastiar com palavras este seleto auditório. A concisão sempre foi considerada uma grande virtude do beletrismo ou arte de bem escrever.

Esto brevis et placebis – sê breve e agradarás, já recomendavam os antigos latinos, de modo que este antiquíssimo brocardo sempre foi seguido pelos grandes mestres da retórica e da eloquência. E principalmente deve ser observado nos apressados e internéticos dias de hoje, embora também seja do senso comum que a pressa é inimiga da perfeição.

Na época da Relatividade, a pressa deve também ser relativizada, pois a arte busca a perfeição, e a perfeição só pode ser alcançada sem açodamento. Se não for para fazer bem feito, para que fazer, já dizia o perfeccionista artesão ao ansioso cliente, a desbastar com pachorra a madeira que esculpia. Por conseguinte, serei breve, porém não tanto, de modo a não calar as virtudes que deverão ser exaltadas.

Não desejo fazer um discurso acadêmico em molde clássico, seguindo as linhas mestras da retórica tradicional. Pretendo fazer com que esta saudação seja uma espécie de crônica sobre meus novos confrades, recheada, tanto quanto possível, de lirismo, emoção e saudade – saudade dos imortais velhos tempos que vivi em Parnaíba, e que gostaria de reviver nesta noite memoranda.

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Breno Ponte de Brito terá a imensa responsabilidade de ocupar a cadeira de nº 5, patroneada pelo grande Alarico José da Cunha, e que teve como precedente Aldenora Mendes Moreira. Breno, além de advogado, é um mestre da publicidade, tendo escrito nessa seara os livros “Broadside – A propaganda vista por dois lados” e “Da Brancura à sujeira”, nos quais revela seu conhecimento teórico e prático. É filho de José Ademir de Brito e Dilma Ponte de Brito, que conheci ainda nos idos dos anos 1970, ele como laborioso funcionário do INSS, e ela como competente servidora do Banco do Brasil. Em dias mais recentes, sua mãe ingressou no magistério da Universidade Federal do Piauí, não preciso assinalar que por concurso público, e se tornou nossa confreira nesta Academia, mercê de seu valor literário, sobretudo como cronista.

Sua antecedente, a professora, escritora e historiadora Aldenora Mendes Moreira, escreveu o importante livro “Personalidades Atuantes da História de Parnaíba ontem e hoje”, em que traça a síntese biográfica de ilustres parnaibanos, que se destacaram em diferentes campos da atividade humana, seja na literatura, na cultura, nas artes, no comércio, na indústria, na política, etc. Seu marido, o senhor Moreira, mestre da boa e agradável conversação, que parecia ainda mais sábio, com os seus pesados óculos de lentes “fundo de garrafa”, foi meu amigo e amigo de meu pai.  

Como costumo dizer, sou um parnaibano de Campo Maior, e aqui nasci, pela segunda vez, em meado da década de 1970. Nesses idos, ouvia falar em Alarico da Cunha, misto de homem prático, poeta e espírita. Dizia-se que ele era vidente e cumprimentava os espíritos que encontrava pelas ruas da cidade. Li poemas avulsos dele.

Depois, tomei conhecimento de sua bela poesia através do livro Eixo do Tempo, editado por seus filhos, em Goiânia – GO, em edição sem data, cujo exemplar me foi ofertado por Reginaldo Costa, fundador do jornal Inovação, em autógrafo datado de 5 de março de 1985. Nessa obra encontra-se o soneto “A Missa da Natureza”, verdadeiro cântico de exaltação a Deus e ao alvorecer em bela paisagem marinha. Vi, algumas vezes, o jornalista e poeta Fonseca Mendes a ele se referir com admiração, e o recitar, de cor, com muita ênfase e entusiasmo.

Nos meus PoeMitos da Parnaíba, que publiquei de forma seriada no jornal Inovação e depois os enfeixei em livro, e também os recolhi nas três edições de Rosa dos Ventos Gerais, prestei homenagem a Alarico da Cunha, com os seguintes versos:

Poeta. Espírita. Espírito
da carne e do osso, a roer
o osso duro do ofício de poetar.
Quixótico, exótico: misto de poeta
e de espírita. Via espíritos no
ar. Nunca estava sozinho:
quando a poesia lhe faltava
os espíritos surgiam e
se insurgiam contra a solidão.
Cavalheiro de fino trato:
tirava o chapéu para os
espíritos que só ele via.

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O detentor da cadeira de nº 15 passa a ser o advogado, professor universitário e escritor Roberto Cajubá de Britto, quase sempre um vitorioso nos pugilatos forenses, tal a garra e empenho com que defende seus constituintes. Para isso concorre o seu elevado poder de argumentação, seu raciocínio estribado na lógica e na razão, seus altos conhecimentos doutrinários e o seu cuidado em pesquisar atualizadas e consolidadas jurisprudências, mas também trazendo à baila novas teses, quando é o caso.

É um verdadeiro jurista, e não somente um bom advogado, o que já seria o bastante para suas lides forenses. Pertence ainda a uma seleta dinastia de grandes causídicos, entre os quais avultam Francisco de Assis Cajubá de Britto, seu pai, e seu irmão Antônio Cajubá de Britto Netto.

O primeiro foi meu mestre no curso de Administração de Empresas, no Campus Ministro Reis Velloso da Universidade Federal do Piauí. Cultura polimorfa, é farmacêutico, economista e advogado da melhor casta, além de vibrante, competente e erudito na retórica jurídica. Com ele aprendi as virtudes e os vícios da Economia, em quaisquer que sejam os regimes políticos.

O segundo se tornou meu amigo, desde os velhos tempos do jornal Inovação, do qual era ele admirador. Certa feita, fomos eu e ele convidados pelo poeta e escritor Alcenor Candeira Filho a proferirmos breve palestra no Rotary Club, em sessão ocorrida no imponente hotel parnaibano, em cujo prédio, localizado na Praça da Graça, ao lado da vetusta e bela catedral, funcionava o Cine Gazeta, que me traz pungentes e alegres recordações.

Sendo eu na época presidente do Diretório Acadêmico 3 de Março, aproveitei a deixa para criticar a falta de liberdade na ditadura militar, ainda em pleno vigor, e as minguadas verbas orçamentárias destinadas à Educação. Cajubá Neto, que iria fazer um discurso mais lírico, apolítico, segundo ele próprio me confessou, seguindo as minhas pegadas, também resolveu sentar a pua na dita “redentora”. Estavam presentes, além do Alcenor, várias pessoas da elite política, econômica e cultural de então, como José Alexandre, Sebastião Rodrigues, Maurício Machado, José Oscar,Cândido de Almeida Athayde e Roberto Broder, os dois últimos meus professores na faculdade.

O currículo vitae do Dr. Roberto Cajubá de Britto é muito opulento, e se eu o fosse debulhar aqui não teria tempo de ser breve, como já disse ser o meu objetivo. Portanto, contento-me em dizer que ele é Bacharel em Direito pela UFC (1989), Bacharel em Ciências Econômicas pela UFPI (1996), Mestre em Ordem Jurídica Constitucional pela UFC (2005) e Especialista em Direito Processual pela UFPI. Professor Assistente do curso de Direito da UESPI. Foi Conciliador e Juiz Leigo do Juizado Especial Cível e Criminal da Comarca de Parnaíba, bem como assessor jurídico da Associação Comercial de Parnaíba.

Coautor dos Livros "Petições" (Editora Premius, Fortaleza, 2003) e "Tópicos Polêmicos e atuais do Direito" (Editora SEGRAJUS, Teresina, 2003). Autor dos Livros "A Processualização do ato administrativo como contribuição para a Democracia" (Premius Editora, Fortaleza, 2010) e "Amplo Direito" (Premius Editora, Fortaleza, 2014). Mantém, desde 2009, a Coluna Amplo Direito, no jornal Norte do Piauí e no Portal Costa Norte. Com isso, creio haver demonstrado quão ricas são as suas realizações e conquistas na seara do Direito.

Francisco Iweltman Vasconcelos Mendes, seu antecessor, nasceu em Sobral – CE, em 16 de janeiro de 1965, mas se tornou tão parnaibano como os que mais o sejam, pelo seu esforço, dedicação e amor a esta terra. Muito jovem ainda se dedicou às letras e à cultura, tanto em Ubajara como em sua terra natal, nas quais publicou livros e foi fundador ou colaborador de jornais e revistas. Bacharel em História e licenciado em Estudos Sociais. Pós-graduado em Metodologia do Ensino Superior.

Em 1992, através de concurso público, ingressou na Universidade Federal, quando passou a residir em Parnaíba. No importante opúsculo Livros sobre Parnaíba, de Alcenor Candeira Filho, são relacionados os seguintes livros de nosso saudoso confrade: Associação Comercial de Parnaíba: Lutas e Conquistas (1994), A Parnaíba Colonial e Imperial (1996) e Parnaíba: Educação e Sociedade (2001), em cuja orelha o saudoso acadêmico Valdir Edson Soares, médico e escritor, relaciona ainda outros livros e fatos de sua fecunda vida. Todas são importantes obras sobre a história, a economia, a educação e a cultura de nossa Parnaíba.

Além de professor, com atuação no Campus Ministro Reis Velloso (UFPI), foi secretário da Educação do município de Parnaíba e maçom dedicado. Amante da música, especialmente do samba, e da saudável libação era hábil percussionista de seu próprio grupo musical. Diz-se que a velha ceifadora gosta dos bons; por isso foi colhido por ela precocemente, quando ainda tinha muito a oferecer, pois era incansável e diligente em seu profícuo labor historiográfico e cultural. Era um ser humano benfazejo e benquisto, e a prova disso é que, por ocasião de sua morte, seus inúmeros amigos e alunos lhe prestaram comoventes homenagens, através de manifestações escritas e de comparecimento às suas exéquias.

Seu patrono é Simplício Dias da Silva, figura emblemática, lendária e legendária da História do Piauí. O povo mitificou e mistificou sua biografia. Nessa mitificação poderíamos dizer, com o poeta Fernando Pessoa, que o mito é o nada que é tudo, porque, mesmo que certos fatos não tenham existido, a lenda lhes deu perene existência. Filho do português Domingos Dias da Silva e de Claudina Josefa, piauiense, nasceu em Parnaíba, em 1773. Em certos fatos que lhe são atribuídos, não se sabe ao certo onde termina a lenda, nem onde a realidade começa.

Opulento, dizem que a Casa Grande onde residiu era ladrilhada com ouro; este próprio solar é objeto de controvérsia, pois alguns defendem a tese de que ele não ficava na esquina, mas sim no local do prédio em que funcionou o hotel da Cosma; que teria dado um cacho de bananas de ouro, em tamanho natural, ao imperador D. Pedro I. Consta que teria 1.800 escravos, com o que teria organizado um regimento, que provocaria inquietações ao governo.

No livro Simplício Dias da Silva – seu nascimento até sua morte (2008), de José Nelson de Carvalho Pires, é relatado que ele, em navio de sua família, teria raptado a açafata Maria Isabel Tomasia de Seixas, prometida pelos pais para desposar um tenente da marinha inglesa, com quem veio Simplício a contrair núpcias. Esse episódio, de caráter romanesco e de contorno quase épico, me faz lembrar o mito da bela Helena de Troia e de Páris, o galante e ousado sedutor. Romanesco também e trágico foi o episódio da morte de sua filha Carolina Tomásia Dias de Seixas e Miranda, que teria sido assassinada por um escravo, ensandecido por fulminante paixão ou movido por vingança contra maus-tratos.

Mas o certo mesmo é que foi um homem refinado, amante da liberdade e da música, que teria mantido uma orquestra de escravos, com a qual gastou muitos cabedais, e liderou o movimento de 19 de outubro de 1822, que proclamou a Independência do Brasil em plagas piauienses, em cujo movimento quase arruinou a sua fortuna. O certo mesmo é que não teve apego à glória fugaz de cargo público, pois declinou do convite imperial para governar a Província do Piauí. Nele, muitas vezes, a história se confunde com o mito, o que mais concorre para a sua glória e relevo na História do Piauí.

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A cadeira de nº 24 passa a ser ocupada por Antônio de Pádua Marques da Silva. Nasceu em Parnaíba, e se formou em jornalismo.  Membro da Academia de Letras da Região de Sete Cidades – ALRESC. Ao longo de sua trajetória profissional colaborou com os principais jornais e sites do litoral piauiense. Publicou os romances Gato Ladrão de Sebo, ambientado na região pernambucana de Garanhuns, e Rua das Flores. Sobre este disse Alcenor Candeira Filho em sua aludida obra: “prosa de ficção inspirada na rua, próxima da Lagoa do Bebedouro, com sua gente pobre e esquecida. O jornalista e escritor Pádua Marques já escreveu oito livros, entre fábulas e romances, a maioria ainda não publicados.”

É ele um jornalista polivalente, e aborda com desenvoltura e conhecimento de causa os mais variados assuntos. Não se escusa de discorrer sobre temas polêmicos e controvertidos, e tem a coragem necessária para isso. Muitos de seus artigos, pelo tratamento literário que recebem, podem ser tidos como verdadeiras crônicas.

Ernest Hemingway em seus romances adotou técnicas do jornalismo, sobretudo ao usar frases curtas, telegráficas, objetivas e de clareza solar. Sem dúvida o novel acadêmico, por ter a teoria acadêmica e a prática cotidiana, não deixa de observar essas lições. E observa também o inverso, seguindo as pegadas do jornalismo contemporâneo, ao injetar em seus textos jornalísticos lições extraídas da boa literatura.

Sua antecessora é Edmée Rego Pires de Castro, nascida em Parnaíba, em 13 de fevereiro de 1915. Professora, jornalista e poetisa, é autora, entre outras, das seguintes obras: Poetizando, A trova e o espaço piauiense e Primavera. Sobre ela disse o fundador e primeiro presidente de nosso silogeu, Fontes Ibiapina: “Ora romântica, ora lírica, sempre transborda uma inspiração com muita propriedade arquitetônica em seu pensamento numa formação ético-espiritual. Poesias sadias e puras, sem sensacionalismo, tampouco artificialismo ou palavras rebuscadas.”

Sua cadeira está sob o patronato de Luíza Amélia de Queiroz, nascida em Piracuruca, no ano de 1838, filha de Manuel Eduardo de Queiroz e Vitalina Luíza de Queiroz. Teve dois casamentos, o primeiro com o empresário Pedro José Nunes, tio do grande historiador Odilon Nunes, e o segundo com o também comerciante Benedito Rodrigues Madeira Brandão. Radicou-se em Parnaíba, tendo residido por muitos anos no solar ou sobrado dos azulejos, na Rua Grande, nas proximidades do Porto das Barcas.

A sua morada em vida e a póstuma, tornaram-se dois emblemáticos monumentos arquitetônicos e pontos turísticos. Reza a tradição que ela expressou o desejo de ser sepultada à sombra de uma gameleira. A natureza ou força sobrenatural realizaram sua vontade. Misteriosamente, de dentro de seu belo túmulo rebentou frondosa e sempre verdejante gameleira, que lhe dá perene sombra e encantamento.

Mereceu o honroso título de Princesa da Poesia Romântica do Piauí. Autora de belos e comoventes versos, sobre ela, em meu opúsculo Aspectos da Literatura Parnaibana, tive a oportunidade de proclamar: “poeta de versos sensíveis e delicados como sua alma de mulher voltada para a beleza, todavia já se denotando em alguns deles o questionamento libertário de uma mulher que pensa e deseja. ” Uma mulher que não se dedicou apenas ao lar, como as suas conterrâneas e contemporâneas.

Seus belos poemas foram enfeixados no volume Flores Incultas, recentemente reeditado pela Academia Piauiense de Letras, de cuja cadeira nº 28 ela é patrona; faz parte da excelente Coleção Centenário, a que o presidente Nelson Nery vem emprestando o melhor de seu esforço. Na orelha desse livro disse o historiador e escritor Reginaldo Miranda: “Foi Luíza Amélia de Queiroz, a primeira mulher a publicar livros na província, depois Estado do Piauí. ”

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Não desejo falar sobre a biografia do professor, jornalista versado e versátil, radialista, poeta e cronista Antônio Gallas Pimentel, neófito ocupante da cadeira 35. Tampouco irei repisar que ele é servidor aposentado do Banco do Brasil, que nasceu na vetusta e mítica Tutoia em 21 de julho de 1951, que ele aborda com a mesma competência os mais diversos temas, tais como arte, cinema, música, que é autor de "Meu Sobrinho Prodamor e Outros Causos", "Fragmentos" e outras publicações. Irei apenas respigar trechos esparsos do que sobre ele disse em minha crônica memorialística A Gallática Tutoia, que, apesar de datada de 1º de abril de 2010, não contém uma só mentira:

“Por ocasião da solenidade de lançamento de meu livro PoeMitos da Parnaíba, entre vários amigos, como o prefeito Zé Hamilton, os poetas Alcenor Candeira Filho e Wilton Porto, o jornalista Bernardo Silva, vários confrades da Academia, encontrei Antônio Gallas Pimentel, que conheço desde o início de minha chegada a Parnaíba, em meado da década de setenta. Ele era professor de inglês, jornalista e diariamente uma crônica sua era transmitida pela Rádio Educadora, a mais antiga do Piauí e, então, a única emissora da cidade, através da bela voz do locutor Gilvan Barbosa.

O professor Joaquim Furtado de Carvalho, primo de meu pai, que falava o inglês fluentemente e era um grande causeur, recomendou-me fizesse amizade com o Gallas. Um dia, vencendo a minha timidez de ainda adolescente, fui à sede do jornal Folha do Litoral perguntar se o hebdomadário aceitava colaborações literárias.

Estavam na redação o Gallas, B. Silva e o Xixinó, um grande compositor; bem entendido, compositor tipográfico. Tinha extraordinária habilidade de recolher cada tipo de sua respectiva caixa e colocá-lo no componer, na composição dos vocábulos e períodos. Gallas era professor de minhas irmãs Maria José, Josélia e Joserita.

Às vezes, na boca da noite, eu e o B. Silva íamos até a casa dele, para ouvirmos uns tangos, pelo rádio, enquanto degustávamos umas três doses de boa pinga. Eram uns belos e vibrantes tangaços, como dizíamos. Um dia o Gallas me convidou a ir até sua residência ouvir uns tangos e tomar umas duas ou três talagadas de calibrina. Para me convencer, como se estivesse falando de uma raridade quase impossível disse: - Elmar, eu tenho até dinheiro!... Verdade que naqueles tempos inflacionários e de vacas magérrimas, dinheiro era um tanto difícil e arredio.


Já estive com o Gallas na sua bela e histórica Tutoia, outrora importante cidade portuária da região do Delta do Parnaíba. Contemplei as suas lindas praias, como a de Andreza, e a sua exuberante lagoa, ornamentada de coqueiros e outras árvores.”

Sobre seu antecessor, o jornalista e radialista Rubem da Páscoa Freitas, seu amigo e conterrâneo, transcreverei o que a respeito dele disse na minha elegíaca crônica Inventário da saudade, em que pranteei a morte de minha mãe e de vários amigos, no infausto ano de 2013:

“Em seu périplo macabro, a ‘indesejada das gentes’ ceifou a vida de Rubem da Páscoa Freitas, mais precisamente no dia 14 de novembro. Aos 81 anos de idade, era ele o ‘papa’ do jornalismo social em Parnaíba. Era o decano dos jornalistas e radialistas do litoral piauiense, em atividade ininterrupta há várias décadas. Conheci-o em 1975, na redação do jornal Folha do Litoral, do qual fui colaborador.

Uma vez por outra, eu ia até a redação desse periódico, para entreter rápida conversa com os amigos Bernardo Silva e professor Antônio Gallas Pimentel (seu conterrâneo tutoiense), e também com o “compositor” tipográfico Xixinó, sempre alegre e irreverente, a destilar sutis ironias, e lá encontrava Rubem Freitas a redigir ou a revisar a sua coluna Carnet Social, que manteve por vários anos. Mesmo nas notas mais despojadas e sintéticas, a sua linguagem era límpida e castiça, e disso ele parecia ter saudável orgulho. Organizou o livro Pedro Alelaf – Lição de Vida (2001), no qual foi inserto o meu trabalho Craques do Futebol Parnaibano, que depois, devidamente revisado, inseri em meu livro O Pé e a Bola. Era meu confrade na Academia Parnaibana de Letras – APAL.”

Dom Paulo Hipólito de Souza Libório é o patrono da cadeira de nº 35. Nasceu em Picos, em 10 de outubro de 1913, e faleceu em Teresina, em 31 de março de 1981. Foi o primeiro bispo nascido no Piauí e o primeiro da Diocese de Caruaru. Foi o substituto do primeiro bispo da Diocese de Parnaíba, Dom Felipe Conduru Pacheco. Diretor do Colégio Diocesano, reitor do Seminário e Vigário Geral da Diocese de Teresina.

Quando viemos morar em Parnaíba, em junho de 1975, Dom Paulo era o bispo desta Diocese. De forma cortês, nos visitou no apartamento da ECT (Correios), na Praça da Graça, onde morávamos, em virtude de meu pai haver sido aluno do Diocesano em sua gestão. Na época em que fui presidente do Diretório Acadêmico “3 de Março”, do Campus Ministro Reis Velloso – UFPI, realizei um torneio esportivo, que levava o nome do padre Raimundo Vieira. Por essa razão, pedi a Dom Paulo que nos desse a taça, para entrega ao time campeão, e ele a concedeu sem nenhuma dificuldade.

Morou, durante algum tempo, em antigo casarão localizado na rua Olavo Bilac, 1481 – Centro - Teresina. Esse solar se manteve impecavelmente conservado graças aos cuidados e recursos financeiros de seu sobrinho, o professor universitário e teatrólogo Paulo de Tarso Batista Libório, que o transformou em importante museu de arte sacra. Esse patrimônio artístico e histórico passou, poucos anos atrás, a ser administrado pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves. O museu leva-lhe o episcopal nome.

CONCLUSÃO

Todos nós temos os nossos objetivos e o nosso ideal de vida. E procuramos alcançá-los. Quando o conseguimos, às vezes nos decepcionamos, porque nem sempre o que angariamos corresponde àquilo que de fato almejávamos.

Na literatura não é diferente. As nossas conquistas e louros triunfais muitas vezes são meras ilusões, que não nos satisfazem. Até porque o ideal é uma ilha da Utopia, que, por mais que a persigamos, jamais a alcançaremos em sua plenitude.

Não raras vezes nos lançamos ao mar encapelado à procura de nossas metas e de nossos ideais, e, quando chegamos ao nosso destino, verificamos que o nosso sonho era apenas um sonho, um simples ouro de tolo e nada mais. A viagem pode ser longa, demorada, cansativa, cheia de perigos e ciladas, mas nela poderemos moldar o nosso caráter, descortinar deslumbrantes paisagens, e nela, decerto, colheremos experiência e sabedoria.

Como no poema Ítaca, de Konstantinos Kaváfis, vocês buscaram a nossa Academia, e ela lhes pareceu uma Ítaca atraente e encantada:  

Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem os Lestrigões, nem os Ciclopes,
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
(...)
Faz votos de que o caminho seja longo.
(...)
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Rogo para que vocês não se decepcionem, acaso achem a nossa Academia pobre. Os amigos se tornaram mais sábios e mais experientes. Viram muitas coisas, tiveram muitas aventuras. E fizeram uma bela e enriquecedora viagem.

Portanto, lancem as âncoras e adentrem o acolhedor regaço de seu porto seguro.
  
(*) Discurso de recepção a quatro novos membros da Academia Parnaibana de Letras,  proferido por Elmar Carvalho, em solenidade ocorrida no dia 12 de maio de 2017.