domingo, 20 de agosto de 2017

Seleta Piauiense - Hermínio Castelo Branco


A maldita quebradeira

Hermínio Castelo Branco (1851 - 1889)

Se há inferno na vida,
Antes do homem morrer,
Se existe acerbo sofrer,
Antes da morte temida;
Se nossalma é constrangida
A mergulhar na caldeira
Fervente, na tal fogueira,
De que fala a tradição,
É, com toda a precisão,
A maldita quebradeira.

Só quem anda rebentado,
Ou quem por isso passou;
Que, sendo pobre, ficou
Na rua, desempregado,
Pode já ter mastigado
A casca de pau-pereira,
Quinaquina verdadeira,
E batata de babosa,
Sabendo quanto é gostosa
A maldita quebradeira.

Febre amarela passando,
Cólera-morbus, morfeia,
Bexiga, tifo, diarreia,
Pelas ruas assolando,
Nunca terror vão causando
Nesta humanidade inteira,
Como produz a viseira
Do pobre homem quebrado!
Traz todo povo assombrado
A maldita quebradeira.

Os amigos dedicados
Doutro tempo mais feliz,
Torcem, agora, o nariz
Quando nos sentem quebrados.
Se mostram desconfiados,
Se, mesmo de brincadeira,
Dizemos desta maneira:
- Me empreste aí dez tostões
Té nos corta as relações
A maldita quebradeira.

Se o tipo é namorado,
E passa lá pela rua
Da bela menina sua,
De quem era apreciado,
Apenas sendo avistado,
Sai, da janela, ligeira,
A formosa feiticeira,
Dizendo mui desdenhosa:
“É peste contagiosa
A maldita quebradeira.”

E no ninho conjugal
A serpente penetrando,
Se desenrola, silvando,
Mordendo a paz do casal...
Pelo portão do quintal,
Foge a honra na carreira,
Quando, da porta fronteira,
Penetra no corredor
Um tal espetro de horror:
- A maldita quebradeira.

Se é homem ambicioso
De gozos materiais,
Sente as angústias fatais
Do infeliz invejoso.
O prazer do venturoso
Irrita de tal maneira
Sua ambição altaneira,
Que lhe gera mil torturas,
É causa das amarguras
A maldita quebradeira.

Ao contrário: se ele tem
Alma grande, generosa,
Sofre, inda mais amargosa,
A dor no peito, também.
Deseja fazer um bem,
Abrindo a seca algibeira
A pobreza sofredeira,
Que caridade mendiga:
Porém males não mitiga
A maldita quebradeira.

Inda sendo comportado,
Bom filho, bom cidadão,
Bom esposo, bom irmão
E bom pai considerado,
Logo que fica quebrado,
Perde a fama, por asneira;
Sem dar causa verdadeira,
É sevandija, bandido!
Por tê-lo, assim, convertido
A maldita quebradeira.

Nem que seja verdadeiro,
É tido por mentiroso;
Sendo honesto, escrupuloso,
Se tacha de caloteiro!
Enfim, quem não tem dinheiro,
É feio, tolo, toupeira,
Perde o ar, só diz asneira
Té perde o jeito de andar
E, jamais, pode ocultar

A maldita quebradeira.  

sábado, 19 de agosto de 2017

Teresina - homenagem em dose dupla

Fonte: Google

Teresina verde, não te quero cinza!

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Nestes 165 anos da minha cidade, há pouco que se comemorar: belos, modernos e harmoniosos edifícios passam dos 20 andares. Recentes avenidas rasgadas e asfaltadas, recentes parques ambientais, enquanto a ambição imobiliária não devore o resto do verde. Entristece-me ver devastação da mata para implantação de condomínios de luxo, como as que acompanham a estrada para Altos.

         Decantada Cidade Verde, desde primórdios. Dias contados, porque milhares de hectares da exuberante selva já foram devastados, a partir da década de 1970. Os nascidos depois daquele período não se dão conta dos desastres ambientais promovidos por líderes sindicais e de esquerda, anônimos, cabos eleitorais. Protegidos pelo prefeito Wall Ferraz, comandaram greves e invasões de terras, arrasaram o cinturão verde da cidade, promovendo invasões, estimulando surgimento de favelas, gente de fora, inclusive delinquentes, votos eleitoreiros garantidos. Líderes, hoje aposentados ou exercendo mandatos e cargos públicos sem concurso, desfrutam rico patrimônio. Antes, comiam quentinhas; hoje, banqueteiam-se e pilotam carrões, de costas às questões sociais. Nenhum participa mais do programa sindical e trabalhador da Rádio Pioneira, início da manhã. Devastação florestal, norte a sul da capital, centenas de favelas, sob as bênçãos da Prefeitura. Depois, vilas e bairros, delinquência assaltando cidadãos.

          Jóquei dos belos e verdejantes sítios, raras residências, temperatura serrana à noite, foi  engolido pelos espigões de concreto. Em 1990, não se viam altos prédios nem condomínios de luxo. Hoje, centenas, comércio e vida noturna intensos.

A edênica e mesopotâmica Teresina de quarenta anos atrás, perdeu a candura verde, quanto Adão e Eva em busca das folhas de videira para tapar as vergonhas. A neblina matinal costumava aparecer, de maio e julho; pouco se vê hoje. A temperatura baixava de 20 graus, a partir das 8 da noite, no Bairro São João. Hoje, só alcançada na zona rural.

Cidade Verde, uma pinoia! Imagino reunisse no mesmo lugar todo o calor emanado das lâmpadas acesas, escapamentos dos carros, fogões a gás, telhados e cimentos escaldantes. Formariam        imensurável fogueira.

A Cidade Verde não aparece nos registros de órgãos internacionais. A empresa alemã Siemens e a revista britânica The Enonomist consideraram João Pessoa ”a mais verde do Brasil”, durante 18 anos: média de 54 árvores por habitante, mais de 7 km quadrados de floresta, 600 hectares de mata atlântica. João Pessoa perdeu esse posto, durante a ECO-92, para Curitiba, a mais verde entre outras 17 cidades da América Latina. Abaixo dessa média, São Paulo, Rio e Brasília. Antes da Eco-92, João pessoa só perdia, no mundo, para Paris. Porém minha Teresina verde entorpece com as cinzas das fruteiras nos quintais, florestas de cocais, tucuns, guabirabas, pequizeiros, pitombeiras, mangueiras, sapotizeiros, caneleiros e ipês. Macacos, veados, animais e aves silvestres fogem, famintos e sedentos, junto a riachos desaparecidos e rios contaminados. Falta espírito de sustentabilidade, mesmo cultivando verde no alto de prédios.


PARABÉNS TERESINA!

Carlos Henriques de Araújo
Poeta e escritor

Encravada na chapada do corisco, uma referência, não ao capanga de Lampião, mas aos relâmpagos e raios que nas noites de chuva, no final do inverno, riscam os céus com clarões de fogo que derrubam árvores, no seio desse estado querido, surge a mesopotâmia do agreste.

Do sonho de Conselheiro Saraiva, cresceu embalada pelas águas do Poti e do Parnaíba, acariciada pelo vento nordeste que depois das dez vem amenizar seu clima quente, consequência do abraço carinhoso do sol do equador.

Teresa Cristina, para os íntimos, Teresina. Seu nome traz a beleza de uma menina que, àquela época, dom Pedro previa um futuro promissor. A menina cresceu e com ela cresceram seus filhos: os teresinenses ilustres.

A “selva de pedras” em que está se tornando com o crescimento vertical, Teresina não difere muito das grandes capitais do nordeste, no tocante ao custo de vida, qualidade de serviços e infelizmente a falta de segurança.

Cento e sessenta e cinco anos! Apesar das administrações que se sucederam ao longo desses anos, segue seu caminho buscando, altaneira e despretensiosamente, ser um dos maiores centro populacional do meio norte, no tocante a medicina, educação e eventos.

Permanecem vivas em todos nós as lembranças da bucólica Verdecap de outrora. Que saudade das caminhadas admirando as árvores e os pássaros na praça da Bandeira; dos passeios de carro pela na av. Frei Serafim; da feirinha na praça Saraiva depois da missa aos domingos; da peixada do Pesqueirinho sob a luz do luar; do lanche discreto no Minhocão; do churrasco na animada Beira-Rio; das rodadas de cerveja ouvindo forró no bar Maria Fulô; do papo agradável com os amigos no bar Escândalo; da batida gostosa do Raízes ao som do melhor do rock e da MPB; das serestas na coroa do rio Poti; das festas juninas no Tabajaras; dos ensaios das escolas de samba Ziriguindum e Esquindô; do sorvete gostoso no Elefantinho; do pão de queijo do seu Cornélio;  das noitadas no Nós e Elis; dos embalos nas boates La Muralha e Super Star; e para encerrar a noitada com chave de ouro, uma deliciosa mão de vaca no Cassarolinha, acompanhado pelo violão do Silizinho.

Teresina hoje não é lembrada só pelo seu calor, pela a cajuína, pelo  troca-troca ou o cabeça-de-cuia. Ela é cantada em verso por seus poetas e reconhecida no Brasil por ter as melhores escolas do país.
 
Recortada de avenidas longas e largas, Teresina se iguala a outras capitais do nordeste como uma grande metrópole: A reurbanização da Av. Frei Serafim, a Ponte Estaiada, o sistema de ônibus integrado que além de embelezar a cidade, diminuirá o congestionamento de carros e dará mais comodidade e conforto aos usuários.

Com vários shopping muito visitados, mas por não dispor de praia e contar com um clima muito quente durante o dia, a noite é a hora mais agradável para o divertimento e lazer. Por isso dispõe de uma grande diversidade de bares, restaurantes e clubes para todos os gostos e bolsos.

E para acolher os turistas e visitantes em busca de tratamento médico, estudo e eventos dispõem de uma rede de hotéis, pousadas, escolas, faculdades, cursinhos e empresas especializadas em eventos.

 Só falta as autoridades e governantes responsáveis pela segurança somarem esforços para que os teresinenses, turistas e visitantes possam trabalhar e se divertir com mais tranquilidade.

Parabéns Teresina!   

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

PREFÁCIO AO LIVRO MATRIZ DE SÃO BERNARDO: DE CAPELA A SANTUÁRIO

Flagrante da ordenação diaconal de Felipe Costa Silva


PREFÁCIO AO LIVRO MATRIZ DE SÃO BERNARDO: DE CAPELA A SANTUÁRIO

Elmar Carvalho

Recebi ontem, pelos Correios, enviado de Quixadá, o livro Matriz de São Bernardo: de capela a santuário, de Felipe Costa Silva, que foi ordenado diácono no dia 12, após ter se licenciado em Filosofia e se bacharelado em Teologia, passando a fazer parte do clero da Diocese de Quixadá. Em sua ordenação estiveram presentes Monsenhor Maurício Laurent, Pe. Ribamar Xavier e Pe. Joel Teixeira, além de seus familiares e amigos, em cuja oportunidade o livro foi lançado. O lançamento em São Bernardo (MA) está previsto para o próximo dia 09 de setembro. Tive a honra de lhe fazer o prefácio, cujo texto segue abaixo. O livro poderá ser adquirido através do blog https://freguesiasb.blogspot.com.br/

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            Quando o teólogo e historiador Felipe Costa ainda estava no início de seu trabalho de pesquisa para concepção do vertente livro, fez contato comigo, através de e-mail, indagando-me sobre como poderia adquirir o meu Bernardo de Carvalho, o fundador de Bitorocara. Bernardo também é considerado o fundador, ou pelo menos um dos fundadores, de sua cidade natal. Deve ter tomado conhecimento da existência do opúsculo por meio da internet. Pedi seu endereço e lhe enviei um exemplar.

Tendo, sem dúvida, observado que ele tinha como principal fonte bibliográfica a notável obra historiográfica Bernardo de Carvalho, da autoria do insigne historiador, professor e sacerdote Cláudio Melo, perguntou-me sobre onde encontrá-lo. Esclareci-lhe que o livro tivera apenas uma modesta e acanhada edição, e, portanto, já se encontrava esgotado há várias décadas. Providenciei uma fotocópia de meu exemplar, que tinha uma honrosa dedicatória do Mestre e conterrâneo, e lhe remeti pela ECT.

Após a Universidade Federal do Piauí, para gáudio meu, publicar a segunda edição de meu referido livro (revisto, aumentado e melhorado), com novos e mais robustos argumentos e informações, inclusive transcrições de documentos e inclusão de dois novos capítulos, tratei de lhe encaminhar um volume, pois sabia e sei que seria uma semente caindo em terreno fértil, o que restou provado com a elaboração desta valiosa obra, fundamentada em extensa bibliografia e sólida documentação.

Na recente edição de meu trabalho, penso ter demonstrado, de forma cabal e peremptória, que o saudoso padre Cláudio Melo é quem tinha razão, quando afirmou, de forma corajosa, que Bitorocara, fazenda de Bernardo de Carvalho, ficava mesmo onde hoje se ergue a cidade de Campo Maior, cuja primeira igreja ele erigiu a pedido de seu parente, padre Tomé de Carvalho, primeiro vigário da Freguesia de Nossa Senhora da Vitória e importante figura histórica do Piauí.

Não faz muito tempo, o seminarista Felipe Costa criou o blog Freguesia de São Bernardo do Parnaíba, designação antiga do território de seu município. Nesse sítio virtual vem publicando importantes artigos e ensaios historiográficos, além de curiosidades, pequenos textos de conteúdo de edificação moral e pequenos audiovisuais, entre os quais um sobre o hino do padroeiro São Bernardo de Claraval e outros sobre os festejos e eventos religiosos da velha paróquia.

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Há poucos dias fui surpreendido com nova façanha dele, que verifiquei ser ainda bem jovem, o que mais ainda nos faz admirar haver feito trabalho de tão elevada importância. Concluídas suas pesquisas, escreveu esta notável história da Paróquia de São Bernardo, desde os seus primórdios, antes ainda de ser extensa Freguesia, até o seu estágio atual, em que a igreja matriz se tornou Santuário.

Não se limitou a conceber uma simples obra de divulgação, coligindo apenas as informações que já se encontram nos livros e em artigos avulsos, o que já seria um feito meritório, digno de efusivos encômios. Foi além, ao colher novos dados, através de entrevistas e de recursos da história oral, bem como do acesso a vários documentos.

Trouxe condimentos agradáveis e pitorescos, quando tratou da origem “legendária da matriz de São Bernardo”, mostrando diferentes versões, cotejando-as e as interpretando à luz da história documentada. Discorreu sobre as suas divergências e verossimilhanças, separando o que seria pura lenda do que teria um fundo de verdade histórica. Portanto, fez um contraponto entre a origem mítica e a real da primitiva igreja.

Ao traçar os albores da Paróquia, e ao lhe delinear o contexto histórico, relatou muito da história do Maranhão e mesmo do Piauí, pela estreita vinculação histórica e religiosa entre essas duas unidades federativas. Sem maniqueísmos e anacronismos, sempre buscando a imparcialidade e a verdade que deve nortear uma legítima História, narrou os embates e vicissitudes, mas também os heroísmos da época da Conquista, em que houve excesso de ambas as partes, vale dizer, de brancos e índios.

Entre os grandes pioneiros, avulta a figura do mestre de campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, no entendimento do padre Cláudio Melo a mais importante personalidade histórica do Piauí colonial, certamente uma das grandes figuras da história de São Bernardo e do Maranhão, e que sempre auxiliou a Igreja Católica, em suas atividades, missões e desobrigas, inclusive na ereção de templos.

Neste importante trabalho é contada a história do arraial de São Bernardo, da criação da Freguesia, da luta pela construção, conservação e reconstrução da Matriz. Teve ensejo de desfazer dúvidas e equívocos, alicerçado em documentos. Quando eventualmente teve de fazer interpretações, o fez com base em sólida verossimilhança e com o desenvolvimento de raciocínio pautado na lógica, sem descurar das contribuições da história oral, que também tem a sua relevância, sobretudo quando em cotejo com outras fontes.

Além de ter discorrido sobre o território inicial da Freguesia, as suas vinculações e abrangência, dissertou sobre as divisões ou desmembramentos, inclusive sobre paróquias e capelas contíguas ou que integraram a sua circunscrição territorial.

Capítulo especial mereceu o que o autor denominou como sendo “os áureos tempos da matriz”. Nesse segmento falou de fiéis dedicados, que contribuíram com seu trabalho e até mesmo recurso financeiro para que a religiosidade dos paroquianos não esmorecesse, mormente nos períodos de vacância. Foram louvados com a merecida ênfase as figuras luminosas dos padres Gentil de Moura Viana, padre Pereira (José Alexandre da Silveira Pereira), o primeiro sacerdote nascido no município de São Bernardo, e o legendário cônego Nestor de Carvalho Cunha, que dirigiu a paróquia durante 45 anos; e desenvolveu, além de suas funções sacerdotais, atividades de fomento à cultura. Foi assassinado em pleno exercício de função administrativa inerente a seu cargo de vigário.

Como se não fosse bastante tudo o que já expusemos, a obra discorre sobre novas abordagens evangélicas, trabalho de catequização, comunidades eclesiais, renovações pastorais, congregações pias, etc. Abordou os novos rumos da Paróquia, sobretudo a contribuição dada pelo monsenhor Maurício Laurent.

Dispõe de glossário e nos apêndices apresenta uma cronologia dos principais fatos relativos à paróquia e ao município de São Bernardo, relação de párocos e vigários, longa e importante entrevista com o monsenhor Maurício Laurent, e, nos anexos, fez a transcrição de documentos basilares da Paróquia de São Bernardo de Claraval.

Por tudo o que dissemos, mas também pelo que não pudemos ou não soubemos dizer, é um livro de capital importância para a história da paróquia e do município de São Bernardo, mas também relevante para a historiografia piauiense e maranhense.    

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

SOBRE O ROMANCE “HISTÓRIAS DE ÉVORA”


SOBRE O ROMANCE “HISTÓRIAS DE ÉVORA”

Robertonio Pessoa

Membro da Academia Piauiense de Letras Jurídicas
Procurador da Fazenda Nacional e escritor

Robertônio Pessoa
O livro Histórias de Évora, do conhecido escritor e dileto amigo Elmar Carvalho, despertou-me o interesse desde o primeiro momento, interesse este ainda mais aguçado quando ele, num tom quase confidencial, disse-me que me encontraria naquele romance, em particular nas peripécias do protagonista Marcos. E confesso que não demorei muito para perceber que o vaticínio do amigo logo de realizaria.

O romance gira em torno das aventuras e primeiras experiências sexuais do jovem Marcos numa hipotética cidade chamada Évora, e que bem poderia ser a nossa Teresina, ou talvez a vizinha Campo Maior, nos anos 60-70-80, e para qualquer outro leitor aquela cidadezinha querida onde ocorreram os primeiros passos da vida adulta, naquela mágica e turbulenta passagem da adolescência para os primeiros anos da juventude.

Folheando já os primeiros capítulos, senti-me misteriosamente transportado para aquela atmosfera infanto-juvenil do final dos anos 70 e começo dos anos 80, período em que profundas e estranhas transformações físicas e psíquicas marcaram o final da minha adolescência, época chancelada por incontornáveis ritos de passagem e pelas alegrias e transtornos na iniciação sexual, tema este, aliás, que toma boa parte do romance.

No livro não se encontram capítulos longos, sendo composto por pequenas e bem proporcionadas unidades, que mais lembram os “splins” baudelairianos, e que, sem muito esforço e fadiga vão nos introduzindo no tempo, na personalidade, no entorno, nas peripécias e aventuras sentimentais, amorosas e sexuais do protagonista. Concomitantemente, outros pitorescos casos de época são narrados, como tragédias familiares, sociais e mesmo eclesiásticas, como o curioso “crime do padre Amaro”.

O romance tem um tom de reminiscências, talvez do próprio Elmar, mas que bem poderiam ser minhas e suas. Evocando as lições de Marcel Proust, o autor declara: “Por muitos anos, quando quis recordar certos episódios de minha vida, no intuito de aproveitá-los em algum texto literário, mormente em poemas evocativos, contemplei vetustos sobrados, velhas casas solarengas; percorri algumas praças e ruas que não haviam sido desfiguradas, que ainda mantinham os traços que vi em minha infância e adolescência. E pude relembrar certos momentos de minha vida, que já se esfumaçavam em minha memória.”

A narrativa e a linguagem do romance são bem trabalhadas, com a escolha do tom adequado e das metáforas apropriadas ao tempo, com atenção aos detalhes, numa recomposição bastante verossímil que nos remete aos gostos, costumes, expressões, gírias e trejeitos de uma época já esquecida, principalmente em face da velocidade que a história assumiu em nossos dias. Faz-nos rememorar coisas, fatos, personagens, modos de falar e de agir aos quais alegremente assentimos em nosso íntimo: “Isso...isso... era assim mesmo...era assim que se dizia..”. E tudo isso numa tessitura bem costurada, numa trama simples, sem maiores pretensões, mas composta com desenvoltura e no estilo próprio, agradável e leve do autor.

As peripécias, venturas e desventuras da iniciação sexual de Marcos são deliciosamente eróticas, onde as pulsões transbordantes da juventude, quando a testosterona alcança seus picos máximos, são inteligentemente trabalhadas, com o suspense das primeiras trepadas, animadas pela circulação quase clandestina de revistas pornográficas e as primeiras descidas aos meretrícios, e tudo numa ambiência quase vitoriana. Quem não se lembra daquelas louras estonteantes das escassas revistas suecas em coitos mirabolantes e das performances da holandesa Silvia Cristal no filme Emanuelle Tropical que assistíamos no Cine Rex.

Ao final, eu bem que poderia responder como Gustave Flaubert quando lhe indagaram quem seria a Madame Bovary do seu consagrado romance. Parodiando-o, responderia sem titubear: “Marcos sou eu”.   

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

DE RIBEIRA DE PENA AO PIAUÍ: A TRAJETÓRIA DA FAMÍLIA CARVALHO DE ALMEIDA NOS SÉCULOS XVII E XVIII


DE RIBEIRA DE PENA AO PIAUÍ: A TRAJETÓRIA DA FAMÍLIA CARVALHO DE ALMEIDA NOS SÉCULOS XVII E XVIII

Reginaldo Miranda
Historiador, genealogista e escritor

Generalidades

A colonização do Piauí não data do século XVI, mas somente da segunda metade do século XVII, quando os paulistas capitaneados por Domingos Jorge Velho e Francisco Dias de Siqueira, assentam arraial na bacia do Poti(1661); e Domingos Afonso Sertão, Julião Afonso Serra, Francisco Dias d’Ávila e Bernardo Pereira Gago, da Casa da Torre, na Bahia, conquistam os vales dos rios Piauí, Canindé, Gurgueia, Itaueira e outros da região sul(1672). Em pouco tempo esses últimos estão recebendo as primeiras sesmarias e, assim, repartindo entre si a nova conquista.

Com eles e depois deles chegam as levas de colonizadores para efetivarem a posse da terra, assentarem as fazendas e, assim, a base colonial portuguesa. O primeiro marco do Estado, no suceder à concessão de sesmarias, é fundar a freguesia, erguer a cruz e erigir a capela, divulgando o Evangelho. Entre os primeiros párocos desse sertão em conquista estão os padres Miguel de Carvalho (Vigário de Rodelas), Tomé de Carvalho (vigário da Mocha) e Inocêncio de Carvalho (vigário da Barra, com jurisdição no médio e alto Gurgueia e Curimatá, território que iria se constituir no antigo termo de Parnaguá, todas no Bispado de Pernambuco. No entanto, algum tempo depois essa segunda freguesia(da Mocha), recebe o território do médio e alto Gurgueia em permuta com o território do São Francisco, que lhe pertencia, e com suas peculiaridades próprias iria se transformar em capitania, depois província, hoje Estado do Piauí, no Nordeste do Brasil.

Contemporaneamente a esses três Carvalho da fé, aqui também chegava Bernardo de Carvalho, que iria ser mestre-de-campo do novo território, plantar fazendas e constituir descendência. Duas décadas depois chegavam Manuel Carvalho de Almeida e Antônio Carvalho de Almeida(2º), ambos também militares, que iriam casar na família Castelo Branco e constituir numerosa progênie. Portanto, temos aqui seis membros da família Carvalho, todos portugueses, três religiosos e três militares, que se fizeram notáveis por aqueles dias da conquista. Desde então, por século e meio, quando se começou a escrever a história da conquista, das fazendas, freguesias, vilas, cidades e das famílias, muito sobre eles já se escreveu, porém, sempre com equívocos sobre nomes completos e graus de parentesco.

Porém, com o avanço provocado pela Internet, o acesso a documentos digitalizados e estudos sérios, foi possível avançar nesse assunto. Em março último(2017), o conterrâneo Gustavo Conde Medeiros divulgou interessante nota sobre o Pe. Tomé de Carvalho e Silva, esclarecendo sobre nascimento, filiação e algum parentesco, colhidas num processo de habilitação de um sobrinho à herança do tio vigário (Atrás de uma herança no Piauí, http://gustavocondemedeiros.blogspot.com.br/2017/).

Em Portugal, um estudo revelador foi publicado pelo advogado e genealogista Manuel Abranches de Soveral, trazendo a origem dessa importante família lusitana desde o final da era dos mil e quatrocentos, reportando-se a Damião Leitão, governador de Cabo Verde, casado com uma senhora da família Almeida (Famílias de Ribeira de Pena: subsídios para a sua genealogia – séculos XV a XVIII). Nesse estudo fica esclarecida a origem e nome do Pe. Miguel de Carvalho e Almeida (ou Miguel Carvalho de Almeida, como também assinava, na verdade, todos os seus parentes ora são tratados por Carvalho de Almeida, ora por de Carvalho e Almeida). Foi um avanço importante no esclarecimento da origem dessa família.

No entanto, recentemente tivemos a oportunidade de examinar diversos autos de inquirição de genere desses e de outros vigários da aludida família, autos cíveis, criminais e de habilitação para familiar e comissário do Santo Ofício, a mesma fonte de Soveral, autos de habilitação de um herdeiro do Pe. Tomé de Carvalho e Silva, com testamento, certidão de batismo, óbito e diversos outros documentos, a mesma fonte de Gustavo Conde Medeiros, cujo artigo somente li depois, tudo arquivado na Torre do Tombo, de Lisboa, podendo assim comparar dados, contrastar informações e, por fim, esclarecer muitos pontos  até agora obscuros na genealogia desse construtores do Piauí.

Ribeira de Pena: a origem em Portugal

O concelho de Ribeira de Pena localiza-se no distrito de Vila Real, sub-região do Alto Trás-os-Montes, no norte de Portugal, limitando-se a norte com o concelho de Boticas, ao sul com Vila Real, a leste com Vila Pouca de Aguiar e, por fim, a oeste com Mondim de Basto e Cabeceiras de Basto.

Ao tempo em que interessa a esse estudo, era esse concelho dividido em três freguesias: Salvador, Santo Aleixo de Além Tâmega e Santa Marinha, as duas primeiras separadas pelo rio Tâmega, daí os diversos casamentos entre gente dos dois lados. É de pequena população, igual a qualquer pequena cidade do Piauí, razão pela qual naquele tempo, uma família antiga como a Carvalho de Almeida, ali residindo por séculos era bem aparentada, existindo muitos casamentos endogâmicos.

As principais famílias desse concelho vêm sendo estudadas pelo advogado e genealogista Manuel Abranches de Soveral, que sobre o assunto já publicou alguns trabalhos interessantes. Falando sobre os Leitão e Almeida, traz importantes revelações sobre os ancestrais dessa família ali radicada e uma das principais do lugar. A seguir delinearemos breve resumo sobre as notas de Soveral, reportando o leitor mais interessado para o seu blog (http://www.soveral.info/mas/RibeiradePena.htm), onde colherá mais detalhes sobre o assunto. Conforme os dados por ele revelados essa família tem origem com DAMIÃO LEITÃO (n.c. 1485), cavaleiro fidalgo da Casa Real e governador de Cabo Verde, casado com uma mulher da família Almeida, ele provável “irmão de Fernão Leitão, que foi morador em Negreiros, termo de Barcelos, e abade reitor da igreja do Salvador de Ribeira de Pena, onde instituiu em 1520 a capela de S. Pedro, concluída a 22.1.1521 (esta capela tem um escudo, certamente religioso, composto por uma cruz e dois leões assaltantes), e ambos filhos de Álvaro Leitão, tabelião do judicial (17.7.1482) e juiz das sisas de Aguiar de Pena (6.5.1490)” (SOVERAL); filho:

F.1-    Francisco Leitão (de Almeida)

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F.1- FRANCISCO LEITÃO (DE ALMEIDA) (c. 1509 – c. 1570), “que sucedeu na quinta do Outeiro, em Salvador de Ribeira de Pena, e viveu em Vila Real, onde casou cerca de 1530 com Beatriz Correa (da Mesquita), referida no meu Ensaio sobre a Origem dos Mesquita como filha de João Correa (da Mesquita). A justificação de nobreza (1718) do seu descendente António Leitão de Meirelles, senhor da antedita quinta, diz serem ‘descendentes legítimos dos verdadeiros Farias, Leitões, Almeidas, Borges, Correas e Mesquitas destes Reynos’. Francisco Leitão ainda vivia a 23.7.1567 quando testemunhou um casamento em Vila Real. Beatriz Correa sucedeu a seu pai, em 2ª vida, como senhora do prazo do casal de Donelo, em S. Pedro da Cova (Vila Real). Algumas genealogias, como Gaio, dão este Francisco Leitão como filho de um Cristóvão Leitão, capitão de Arzila, e de D. Josefa Hidalgo, filha de D. Isidoro Hidalgo, de Briche (Galiza), mas é fantasia” (SOVERAL); filhos:

F.1.1- Cristóvão Leitão de Almeida

F.1.2- Isabel Leitão, falecida solteira.

F.1.3- Antônio Leitão de Almeida, escrivão do público, judicial e notas, Câmara, almotaçaria e órfãos do concelho de Ribeira de Pena e sucessor na quinta do Outeiro, c.c. Isabel Gomes; c.g.

F.1.4- Gonçalo Leitão da Mesquita, residente em Vila Real, c.c. Violante Guedes, filha de Pedro Álvares Galego e sua mulher Filipa Dias, ricos cristãos-novos; c.g.

F.1.5- Pedro da Mesquita Leitão, segundo Gaio, que diz ter casado em Mirandela.

F.1.6- Ana da Mesquita, segundo Gaio, que diz ter casado em Mirandela.

F.1.7- Maria Correa de Almeida, c.c. Jerónimo de Souza Machado, “da casa de Eiriz, em Vila Pouca de Aguiar, de ascendência conhecida, fidalgo da Casa Real que depois esteve em Alcácer Quibir, onde ficou cativo, sendo remido em 1583, sendo então alcaide do castelo de Aguiar até 1594, data em que foi viver para Ribeira de Pena, onde instituiu o morgadio de Stº António de Trezena em Salvador do Outeiro, a que vinculou a casa que aí mandara fazer e o prazo do vale de Senra de Baixo, foreiro à Casa de Bragança, que sua mulher levara em dote e era então a principal propriedade agrícola de Ribeira de Pena” (SOVERAL); c.g.

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F.1.1- CRISTÓVÃO LEITÃO DE ALMEIDA (c. 1508 - ?) Capitão da Ordenança de Ribeira de Pena, senhor da quinta do Bruxeiro, teria “sucedido na capela de S. Pedro, instituída por seu presumível tio na igreja do Salvador de Ribeira de Pena” (SOVERAL), não se sabendo com quem casou; filhos:

F.1.1.1- Jerônimo Leitão de Mesquita, “serviu na Índia e morreu na defesa de Ormuz, como se diz na mercê da Ordem de Santiago a seu sobrinho José, herdeiro dos seus serviços” (SOVERAL).

F.1.1.2- Cristóvão de Almeida (c. 1543 - ?), “foi abade reitor do Salvador de Ribeira de Pena e sucessor na quinta do Buxeiro e na capela de S. Pedro”(SOVERAL); c.g.

F.1.1.3-  Camila Leitão

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F.1.1.3- CAMILA LEITÃO (c. 1550 - ?), sucessora na quinta do Buxeiro e capela de S. Pedro, foi c.c. JOÃO FERNANDES DE ALMEIDA; filhos:

F.1.1.3.1- José Leitão de Almeida, n.c. 1571, em Ribeira de Pena, foi cavaleiro fidalgo da Casa Real, cavaleiro da Ordem de Santiago, serviu em Ceuta, foi vedor do 2º correio-mor do reino e familiar do Santo Ofício(22.5.1629); c.g.

F.1.1.3.2- Gervásio Leitão de Almeida, instituiu a capela de N. Sra. do Amparo ou de Copacabana, na Ribeira de Baixo (Salvador).

F.1.1.3.3- Maria Leitão de Almeida

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F.1.1.3.3- MARIA LEITÃO DE ALMEIDA (c. 1580 - ?), foi c.c. António Gonçalves de Matos, “provavelmente dos Matos da casa de Terças, em Stª Marinha de Ribeira de Pena” (SOVERAL); filhos:

F.1.1.3.3.1- Catarina de Almeida (1ª)



Ribeira de Pena: o tronco comum dos Carvalho que passaram ao Piauí

F.1.1.3.3.1- CATARINA DE ALMEIDA, n.c. 1608, no lugar da Ribeira de Baixo, da freguesia do Salvador do concelho de Ribeira de Pena, foi c.c. DOMINGOS CARVALHO, natural do lugar de Bragadas, moço da câmara da Casa Real, juiz de órfão de Ribeira de Pena, senhor da quinta das Bragadas de Além Tâmega, em Santo Aleixo, onde faleceu a 7.7.1668, deixando herdeiro e dotado o filho Miguel Carvalho de Almeida (SOVERAL); filhos:

F.1.1.3.3.1.1- Cap. Miguel Carvalho de Almeida (três filhos passam ao Bispado de Pernambuco, no Brasil, sendo dois padres e um militar).

F.1.1.3.3.1.2- Gaspar Carvalho de Almeida, residente em Santa Marinha, foi c.c. Senhorinha Gonçalves, falecida em 30.9.1642, vítima de complicações no parto; filho: Domingos de Carvalho, nascido em 22.9.1642, em Santa Marinha, foi c.c. Maria de Souza Machado; c.g.

F.1.1.3.3.1.3- Catarina de Almeida (2ª) (dois filhos padres e quatro netos, sendo um padre, passam ao Piauí, no Brasil).

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F.1.1.3.3.1.1- Cap. MIGUEL DE CARVALHO E ALMEIDA, n.c. 1630, capitão de infantaria dos Auxiliares de Ribeira de Pena, sucessor na quinta das Bragadas de Além Tâmega, em Santo Aleixo, onde faleceu a 6.4.1695, ficando pelos bens de almas seu filho Domingos Carvalho; foi c.c. HELENA GONÇALVES DE MATOS, natural e falecida a 15.9.1684 em Santo Aleixo, provavelmente sua parente, filha de Domingos Dias de Matos (provavelmente dos Matos da casa de Terças, em Santa Marinha de Ribeira de Pena) e de sua mulher Senhorinha Gonçalves, ambos naturais da freguesia de Santo Aleixo (SOVERAL); filhos (quatro, sendo que no final do século XVII, três deles passaram ao Brasil, capitania de Pernambuco, a cujo território pertencia o Piauí):

F.1.1.3.3.1.1.1- Pe. Miguel Carvalho de Almeida, natural de Ribeira de Pena, ordenado no Seminário de Braga, foi vigário da freguesia de Rodelas, no Bispado de Pernambuco, oportunidade em que visitou o Piauí por duas vezes, fundando a freguesia de Nossa Senhora da Vitória, que deu origem à vila da Mocha, hoje cidade de Oeiras, primeira capital do Piauí, depois retornando para a terra natal, onde faleceu depois de muitos anos de sacerdócio; sobre ele escrevi ensaio biográfico, ao qual reporto o leitor: Padre Miguel de Carvalho e Almeida: fundador de paróquias e missionário do sertão (http://www.portalentretextos.com.br/materia/pe-miguel-de-carvalho-e-almeida-fundador-de-paroquias-e-missionario-do-sertao,12648).

F.1.1.3.3.1.1.2- Domingos Carvalho de Almeida

F.1.1.3.3.1.1.3- Cap. Antônio de Carvalho e Almeida (1.º do nome), natural da freguesia de Santo Aleixo da Ribeira de Pena, comarca de Vila Real, Arcebispado de Braga, capitão-mor da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, morou em Lisboa, em casa de Manoel Mendonça Arraes, até março de 1701, quando mudou-se para servir no posto de capitão-mor de Natal, no Rio Grande do Norte, onde praticou atos notáveis; cavaleiro da Ordem de Cristo, familiar do Santo Ofício, moço da câmara da casa Real, foi casado com Maria Teresa Pereira Rebello Leite; c.g.

F.1.1.3.3.1.1.4- Pe. Inocêncio Carvalho de Almeida, natural de Ribeira de Pena, vigário da freguesia de São Francisco da Barra do Rio Grande, hoje cidade de Barra, na Bahia(Brasil), sobre quem ainda pretendemos escrever ensaio biográfico.

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F.1.1.3.3.1.1.2- DOMINGOS CARVALHO DE ALMEIDA, natural do lugar de Bragadas, freguesia de Santo Aleixo, onde é morador, Familiar do Santo Ofício, c.c. MARIA GONÇALVES DE CARVALHO, filha de Tomé de Carvalho e sua mulher Maria Gonçalves, ambos naturais da sobredita freguesia de Santo Aleixo; neta paterna de Tomé Francisco e sua mulher Senhorinha de Carvalho, ambos naturais do lugar de Bragadas, freguesia de Santo Aleixo; neta materna de Pedro André e sua mulher Ana Gonçalves, ambos naturais do lugar e freguesia de Santo Aleixo; filhos:

F.1.1.3.3.1.1.2.1- D. Maria de Almeida, foi casada com Baltazar Pacheco de Andrade, de Stª Marinha de Ribeira de Pena.

F.1.1.3.3.1.1.2.2- D. Helena de Almeida, residente em Fontes, onde constitui família(SOVERAL).

F.1.1.3.3.1.1.2.3- Luiza (bat. 11.2.1703, em Stº Aleixo), parece que faleceu solteira.

F.1.1.3.3.1.1.2.4- Pe. Miguel de Carvalho e Almeida (3º do nome), b. a 3.8.1704, sendo padrinhos Domingos Dias de Matos, de Senra, Salvador, e Ângela de Almeida (irmão do padre Tomé de Carvalho e Silva). “Tirou IG em Braga a 31.12.1721        (SOVERAL).

F.1.1.3.3.1.1.2.5- Rosa, b. a 25.9.1707.

F.1.1.3.3.1.1.2.6- Domingos, b. a 21.12.1710.

F.1.1.3.3.1.1.2.7- Francisco, b. a 25.3.1714.


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F.1.1.3.3.1.3-  CATARINA DE ALMEIDA (Santo Aleixo, c.1640 – 17.10.1703), foi c.c. JOSÉ DA SILVA (Soveral, anota José da Silva Carvalho), morador em Bragadas, onde faleceu a 21.11.1687; filhos:

F.1.1.3.3.1.3.1- Cristóvão da Silva (herdeiro do casal, cf. Soveral).

F.1.1.3.3.1.3.2- Domingas Carvalho, madrinha do irmão Pe. Tomé de Carvalho e Silva.

F.1.1.3.3.1.3.3- Antônia (bat. 21.2.1669, cf. Soveral).

F.1.1.3.3.1.3.4- Pe. Tomé de Carvalho e Silva (bat. 23.1.1673, padrinho Tomé Carvalho e madrinha sua irmã Domingas Carvalho); foi o primeiro vigário do Piauí, sobre quem escrevia ensaio biográfico (http://www.portalentretextos.com.br/materia/padre-tome-de-carvalho-e-silva-primeiro-vigario-do-piaui,12645).

F.1.1.3.3.1.3.5- Pe. Miguel de Carvalho e Silva (3º vigário da família com o prenome Miguel), paroquiava no Piauí, ao tempo do testamento do irmão padre, conforme consta no documento.

F.1.1.3.3.1.3.6- Catarina Almeida, moradora na freguesia de Gondiães, Portugal; c.g.

F.1.1.3.3.1.3.7- Maria Almeida, c.g, nomeadamente a filha Ângela de Almeida, contemplada no testamento do tio Pe. Tomé.

F.1.1.3.3.1.3.8- Izabel de Almeida

F.1.1.3.3.1.3.9- Ângela de Almeida

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F.1.1.3.3.1.3.8- IZABEL DE ALMEIDA, residente em Aroza, freguesia de São João de Cabés, parte do concelho de Ribeira de Pena; em 24.1.1782, c.c. DOMINGOS DIAS (bat. 28.4.1755, tendo por padrinho Sebastião, irmão da mulher de Francisco Dias, e madrinha a mulher de Lucas Francisco, todos do lugar da Aroza), natural do lugar de Aroza, freguesia de São João de Cabés, comarca de Braga, filho de Francisco Dias, de Aroza e sua mulher Maria Pacheco (Francisco Dias, filho de Domingos Dias e sua mulher Maria Gonçalves, do lugar de Bragadas, freguesia de Santo Aleixo, casou-se em 7.1.1655, na freguesia de São João de Cabés, com Maria Pacheco, filha de Agostinho Sanches); filhos:

F.1.1.3.3.1.3.8.1- Dr. Manoel Carvalho da Silva e Almeida, nascido em 18.12.1710, no lugar de Aroza, freguesia de São João de Cabés, parte do concelho de Ribeira de Pena, bacharel em Leis pela Universidade de Coimbra; morou parte da infância e juventude na vila da Mocha(Oeiras), no Piauí, em companhia do tio padre Tomé de Carvalho, depois passando à Bahia e, por fim, a Coimbra, onde estudou e se formou às expensas do tio padre, não mais retornando ao Brasil; foi casado com D. Tereza Maria de Almeida e muito lutou para receber uma herança que lhe deixou o referido tio e protetor, fato que nos proporcionou conhecer muito da história da família.

F.1.1.3.3.1.3.8.2- Cap. Antônio Carvalho de Almeida (2.º do nome), nascido em 1703, no lugar de Aroza, freguesia de São João de Cabés, parte do concelho de Ribeira de Pena (bat. 25.3.1703, sendo padrinho Antonio Sanches e Maria, solteira, filha de Luiz Antunes, todos do mesmo lugar), capitão-mor do Piauí, para onde veio em companhia do irmão e sob proteção do tio padre; rico fazendeiro, foi casado com Maria Eugênia de Mesquita Castelo Brando, natural do Piauí, de cujo consórcio deixou numerosa e ilustrada descendência.

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F.1.1.3.3.1.3.9- ÂNGELA DE ALMEIDA, residente em Ribeira de Pena, foi c.c. MANOEL SANCHES; filho:

F.1.1.3.3.1.3.9.1- Antônio Sanches de Carvalho, n. 5.5.1709 (bat. 10.5.1709, na freguesia de São João de Cabés, sendo padrinho Antônio Gonçalves de Carvalho, de Bragadas, freguesia de Santo Aleixo, e Antônia, filha de Sebastião Sanches, do lugar de Aroza); veio morar na vila da Mocha, hoje cidade de Oeiras, no Piauí, em companhia do tio padre Tomé de Carvalho e Silva, sendo um dos agraciados em seu testamento, herdando a fazenda Sítio Novo, no rio Piracuruca, com duas léguas e meio de comprimento e uma de largura; povoou e conseguiu data de sesmaria da fazenda Taquari, no riacho de mesmo nome, freguesia de Piracuruca, com três léguas de comprimento e uma de largura, mais tarde as vendendo ao primo Antônio Carvalho de Almeida(2.º).

Conclusão

Com essas notas fica elucidado o parentesco existente entre os três padres que chegaram ao Bispado de Pernambuco, no final do século XVIII, sendo Miguel de Carvalho, irmão de Inocêncio de Carvalho, ambos primos do padre Tomé de Carvalho (embora tivessem outros sobrenomes complementares era assim que costumavam assinar e assim eram conhecidos).
Também, o parentesco destes com o capitão-mor Antônio Carvalho de Almeida, que colonizou o norte do Piauí e deixou grande parentela na família Castelo Branco. Era este sobrinho, protegido e herdeiro do Pe. Tomé de Carvalho. Da mesma forma, fica esclarecido que um seu homônimo e não ele foi o capitão-mor do Rio Grande do Norte, este último sendo irmão dos padres Miguel e Inocêncio de Carvalho.
Da mesma forma, fica esclarecido que a família Carvalho teve ao menos três padres com o nome de Miguel, em homenagem a um ancestral comum, sedo que dois destes se vincularam ao Piauí.
Todavia, ainda não foi esclarecido o parentesco deste núcleo com dois outros colonizadores do Piauí: Bernardo de Carvalho e Aguiar (natural de Vila Pouca de Aguiar) e Manuel Carvalho de Almeida (natural de Linhares), este último casado com Clara da Cunha e Silva Castelo Branco. No que se refere ao primeiro, não temos dúvida do parentesco, pois Vila Pouca de Aguiar é fronteiriça com Ribeira de Pena, de forma que diversas famílias se dividem pelos dois concelhos, o que não seria diferente com os Carvalho, família antiguíssima na região (Carvalho era a mãe de Bernardo); da mesma forma, o sobrenome comum e o casamento na mesma família Castelo Branco, fazem presumir estreito parentesco entre Manuel Carvalho de Almeida com Antônio Carvalho de Almeida, embora, seguramente, não sejam irmãos, porque o último já tinha um irmão bacharel com esse prenome e foi atestado em autos judiciais que este era o único sobrinho do padre Tomé de Carvalho com prenome Manuel. Penso que esses dois eram primos de segundo ou terceiro grau dos pioneiros vigários, o que ainda vai se apurar.

Não sabemos por quem ficou representada a descendência de Antônio Sanches de Carvalho, sobrinho e herdeiro do Pe. Tomé, que também se fixou no Piauí. Também, ficou esclarecido que o Pe. André da Silva, coadjutor em Oeiras, era sobrinho do Pe. Tomé de Carvalho e Silva.   

domingo, 13 de agosto de 2017

Seleta Piauiense - Licurgo José Henrique de Paiva


Meu coração

Licurgo José Henrique de Paiva (1842 – 1887)

Choram as fontes, o bezerro muge,
o sabiá suspira.
A natureza infunde amor nos seios
e faz vibrar a lira.

Há um segredo no bulir das matas
que nos agita n’ alma.
É quando a vida no silêncio augusto
a natureza acalma.

As almas vivem de esperança infinda
a folhear os dias.
Com a crença em Deus, o respirar de um anjo
as santas melodias.

Fonte: Antologia dos Poetas Piauienses, de Wilson Carvalho Gonçalves

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Apresentação do livro "palavra SERtão"

Leandro, entre Josué Costa e Luíza Miranda, demonstrando que é um homem de sete instrumentos: além da medicina, desenha, pinta (até o sete), canta, e escreve ensaios históricos e poemas

 
Gilson Caland, Carvalho Neto, Graça Vilhena, Leandro Fernandes, Hermano Nino, Aurea Santos e Lucili

Wilson Seraine, Marleide Lins, Douglas Machado e Leandro Fernandes

APRESENTAÇÃO do livro "palavra SERtão"

Elmar Carvalho

Leandro Cardoso Fernandes é piauiense de Teresina. Médico pela Universidade de Pernambuco (UPE), cardiologista e ecocardiografista pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP).
Poeta, cordelista e pesquisador de cultura popular, com foco na temática “Cangaço”. Tem participação em documentários, capítulos de livro e artigos sobre este tema.
É coautor (em parceria com Antônio Amaury Correa de Araújo) do livro “Lampião: A Medicina e o Cangaço”.
É membro titular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC); ocupa a cadeira nº 5 da Academia de Medicina do Piauí, membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), da Sociedade Piauiense de História da Medicina e Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES-PI), dentre outras. (Orelha do livro “palavra SERtão”)
Cineas Santos fez a apresentação da obra na solenidade de lançamento, ocorrida na noite do dia 10, no Auditório Prof. Paulo Nunes, na Oficina da Palavra.
   
Leandro Cardoso, que além do mais é um dos maiores e melhores escritores e pesquisadores do tema cangaço, não apenas do Piauí, mas do Brasil, com importantes trabalhos publicados, inclusive em livro, é um poeta de muitos e variados recursos na arte de versejar, pois é versátil e versado.

            Transita do poema de cordel ao poema moderno e erudito com singular facilidade, pelo menos facilidade aparente, pois certa fluidez e espontaneidade que quase sempre lhe percebemos pode ser fruto de estressante luta com as palavras, como no dizer drummondiano.

            Os temas que aborda são os mais diferentes possíveis, e vão das agruras sertanejas, com toda o seu cortejo de misérias e percalços, a temas líricos, amenos e, em alguns momentos, do cotidiano e circunstanciais. E nisto não vai nenhum reparo ou senão, uma vez que sou conhecedor de que o menestrel Manuel Bandeira foi um mestre de belos poemas ditos de circunstância, como muito bem pode ser aferido em Mafuá do Malungo. Nesses versos, Leandro louva o sorriso de uma filha, a saudade da mulher amada e o afeto paterno por toda a prole.

            O nosso bardo não cai nas armadilhas das aparentes facilidades da poesia contemporânea, e por isso, talvez para demonstrar que tem talento e técnica, comete primorosos poemas metrificados e rimados. Para isso, decerto, hauriu as lições dos grandes mestres da poesia, digamos erudita, e dos célebres cordelistas brasileiros, sem preconceitos e sem pruridos elitistas.

            Em alguns de seus poemas, se revela como um consumado artífice de descrições paisagísticas. Torna-se, então, um hábil pintor, e nos seus versos perpassam belas paisagens, mas também asperezas da paisagem nordestina. Por vezes podemos nos deparar com um belo pôr de sol, mas também sermos surpreendidos com uma esquálida e espinhenta caatinga nordestina. Também canta os rios, os mares, as serras e os belos carnaubais verdejantes, como se a natureza estivesse entranhada em sua alma.
            Nem só de cenários trata o seu versejar, mas ainda de cenas, que, se não são épicas nem homéricas, são também relevantes, mesmo quando falam do cotidiano nordestino, porque mostram as mazelas e tragicidade do nosso caboclo, que enfrenta a seca, a miséria e a fome, até culminar na epopeia cinzenta dos retirantes.

Portanto, é um poeta solidário com o sofrimento do bravo sertanejo, que nas palavras de Euclides da Cunha é antes de tudo um forte, a que acrescentarei o adjetivo espartano. Assim, não vive encastelado em etéreas torres ebúrneas, enevoadas, e distanciadas da realidade da terra e do homem que nela vive, sofre e moureja.

            Leandro Cardoso tem um verdadeiro arsenal poético, e, por conseguinte, utiliza os mais variados recursos estilísticos, e figuras e tropos. Não segue o modismo dos poeminhas pequenininhos, geralmente contendo apenas pretensos trocadilhos engraçadinhos. Seus poemas têm “sustância”, com conteúdo vertido em bela forma.

            Contudo, quando os perpetra, nota-se que eles contêm denso conteúdo, senso de humor, e não mero malabarismo rímico, como pode servir de exemplo o sintético poema Namoro, de sabor epigramático:

 – Com licença?
Posso entrar na sua vida?
                        – Desculpe...
Mas detesto despedida!


            É um poeta que veio para ficar e ficou... Ficou e ficará como um de nossos bons poetas.   

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Corujas, tetéus, casacas e outros bichos

Imagens caçadas no Google


Corujas, tetéus, casacas e outros bichos

Elmar Carvalho

No local onde nos últimos meses me hospedo em Parnaíba, tenho ainda uma bela visão, de paisagens próximas e de outras que vejo ao longe. Assim, vejo os grandes cata-ventos das usinas eólicas, que me fazem recordar os belos e quase bucólicos cata-ventos de minha meninice, e as dunas que outrora ornaram a Lagoa do Portinho... Disse “outrora ornaram” porque a lagoa já não existe, ou pelo menos já não existe em todo seu esplendor e glória.

Bem distante, como um debrum do céu, vejo uma nesga azulada do que deve ser uma serra. Pensei fosse a Serra Grande, a Serra da Ibiapaba, o que me faz lembrar os romances indígenas de Alencar, a viçosa e antiga Viçosa imperial, e as graciosas Tianguá e Ubajara, que conheci em minha adolescência, quando desejei morar nelas, para melhor lhes sentir as névoas e o frio, e dessa forma escrever friorentos e nevoentos poemas, cheios de distância e de brumas. Todavia, alguns dizem ser uma outra serra, menos imponente e mais perto, pertencente ao município de Luís Correia.

O local a que me refiro se presta a umas boas pedaladas. Por isso, resolvi adquirir uma bicicleta. Nesses passeios ciclísticos, vejo as ervas e as flores silvestres da terra ainda sem construções. E isso me faz recordar a minha adolescência, em que, algumas vezes, eu empreendia longos passeios pela periferia e arrabaldes de Campo Maior, tendo numa das vezes ido até a pequenina Serra Grande de Campo Maior ou Serra Azul, ou mais propriamente morros isolados de Santo Antônio do Surubim.

Fico contente de ainda saber manejar, com certo vigor e perícia, a “magrela” de várias marchas, tão diferente da minha velha e despojada Bristol ou Gulliver. A indefinição se deve ao fato de que o nome da marca já não era visto na época ou de que já se esvaiu na fragilidade da memória.



Quando estou a passear, vejo várias aves e algumas vezes desfruto do prazer de lhes ouvir o canto, quando paro de pedalar para melhor lhes apreciar o gorjeio. Vejo e ouço o bem-te-vi com a sua emblemática admoestação ou advertência: bem te vi!; os pernaltas e ariscos tetéus, que logo se afastam ou alçam voo, enquanto alardeiam o suposto perigo com as suas metálicas trombetas de alarme.

Os casacas também marcam sua presença, como aladas notas musicais vivas, pousadas sobre as paralelas da partitura dos fios elétricos, para retomar uma metáfora de um meu antigo poema. Há os casacas-de-couro, de sóbria plumagem amarronzada e uniforme, como se vestissem um gibão de couro dos nossos indômitos vaqueiros, de que, creio, lhes adveio o nome. E há os casacas-de-peito-vermelho, elegantes e belos, como se trajassem um colete vermelho por baixo do paletó negro das asas. Não há negar, são flamenguistas ostensivos e aguerridos.

Nessas andanças vejo ao longe, em revoada, a magnífica coreografia dos urubus, que circulando se vão afastando, em sincronizado movimento de rotação e translação. E numa das vezes flagrei, de maneira para mim inusitada, dois exemplares dessas aves de rapina a fazerem amor, no cocuruto do telhado de uma das casas. Disse “fazer amor” porque o casal não se bicava e nem se espezinhava, antes se cheiravam e se acolhiam e se agasalhavam. Pensei que os urubus faziam isso entre as gazas das nuvens do poeta, em verdadeiras pulutricas e acrobacias aéreas, como autênticos e literais nefelibatas. 

Mas principalmente encontro, nesses périplos de boas pedaladas, as circunspectas corujas, encarapitadas em postes ou em montes de pedras, ou simplesmente postadas no descampado. Olham-me com desconfiança, com seus olhos argutos, de pupilas arregaladas. Às vezes fogem. Outras vezes permanecem no mesmo lugar, mas ariscas, em estado de vigília e defesa.

Elas me fazem recordar os caburés dos áridos tabuleiros de minha terra, e o caburé com frio do poema dacostiano, piando, piando, contudo sem folhas lívidas cantando... Também recordo as corujas esculpidas da coleção que aos poucos estou formando, de diferentes tamanhos e materiais. Muitos as consideram aves de mau presságio, mormente as rasga-mortalha, de dilacerante canto, que dizem antecipar acontecimentos funestos.

Em minha negra bicicleta, como um esdrúxulo centauro, tento lhes imitar o piado. Mas parece que o meu crocitar é muito canhestro, porque elas, do alto do poste em que se empoleiram, me olham com certo desdém, talvez por me acharem desafinado. Ou por entenderem que eu seja uma grande, desengonçada e feia coruja.


Porém, em certa ocasião, uma pousou tão perto de mim, que fiquei com a impressão de que ela me reconheceu ao menos como um primo pobre e distante, a quem ela não poderia dar muita confiança, a não ser em rápida e fugaz eventualidade.