quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

UM POLÍTICO DE MUITA SORTE



UM POLÍTICO DE MUITA SORTE

Antônio Francisco Sousa
Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com) 

                Não há como negar que o atual chefe do poder executivo federal é um homem de sorte. E não pelo motivo que alguns possam estar lucubrando: ter uma jovem e bela mulher a seu lado. Primeiramente, o mandato lhe caiu às mãos graças à ineficiência, à turra, birra, à teimosia, falta de tato e traquejo, à antipatia, ausência de empatia da presidente de quem foi vice. Notadamente, para a parte mais esclarecida da população, foram esses defeitos, aliados a inegável incompetência para bem administrar qualquer coisa, ainda mais um país com as peculiaridades e singularidades do nosso, que a fizeram perder o mandato; por não saber, nem querer negociar com o congresso nacional, não ouvir as diversas forças econômicas e políticas nacionais, às quais todo e qualquer dirigente ou gestor deve dar crédito, acatar sugestões ou decisões; preferiu decidir por moto e conta próprios, baseada, mais em ponto de vista ou opinião particular, do que em fatos, sem escutar auxiliares, subordinados, nem mesmo o povo quando este precisava ser ouvido.

                Pragmático – como não? Em nenhum momento, tirou de foco a manutenção de sua condição de presidente -, contrariamente à sua antecessora, ouviu auxiliares mais próximos, instituições judiciais, enfim, pessoas e entidades que pudessem clarear situações julgadas, a princípio, pouco cristalinas, questionáveis.  Não se furtou em, valendo-se do tesouro nacional, melhor dizendo, dos recursos providos pelo conjunto dos brasileiros, negociar, barganhar - quando a situação exigia isso, o que ocorreu e, ainda ocorre, visando, e aqui reiteramos, não perder o status quo conquistado - com todo e qualquer parceiro havido por útil. Fato é, igualmente inegável, que se mostrou obstinado e, graças à nata condição de hábil negociador, conseguiu algumas vitórias. Dobrar o congresso nacional, amansar o poder judiciário e diminuir a pretensa força do ministério público foi uma delas, talvez, nem a mais difícil. Fez parte das reformas a que se propôs, possibilitou que a economia desse uma guinada positiva, um salto considerável, reduzindo juros o que, por sua vez, induziu uma queda na inflação e estagnação no nível de desemprego; afastou um pouco o país da ingrata e nefasta situação em que o recebeu da presidente expurgada pelo parlamento e judiciário federais.

                Não resta dúvida de que a mais dura das batalhas, a pela reforma da previdência social, seguiu, não raro, por caminhos e vielas que quase o fizeram perdê-la de vista; no que disse respeito a ela, em nenhum momento, o processo amainou ou navegou em águas calmas; o parlamento, que se mostrara flexível, senão, obediente, diante de outras de suas proposituras, não quis ser co-protagonista de uma missão tão grave quanto radical. Há que se ressaltar que os subterfúgios com os quais tentaram obnubilar o assunto, muita mentira, ficção, desonestidade, demagogia, enodoaram as discussões sobre tema tão paradigmático em relação ao serviço público federal.

                Ainda que não admitisse, restava muito claro que a reforma previdenciária, nos moldes a que se propunha fazê-la – aprovada com os remendos de agora, após tantas e tão descabidas negociatas, manutenção de privilégios espúrios, logo, logo precisaria ser reformada -, drástica e, invasivamente radical, através de emenda constitucional não assimilada, não compreendida, nem aceita com a facilidade que se queria, não lograria êxito: o congresso nacional não se sentia à  vontade  para chancelar fato de tamanha importância e envergadura para a vida  da nação, mormente, em  ano de eleições gerais.

                Novamente, a sorte esteve ao lado do “presidente golpista”, “não legítimo”, como ainda apregoam brasileiros que, nem às decisões do poder judiciário e do parlamento de um país que pratica o beatificado estado democrático de direito, aceitam: uma intervenção federal na segurança do estado fluminense – a pedido, consoante souberam todos que de, algum modo tiveram acesso às diversas modalidades de mídia informativa, nos últimos dias - caiu-lhe no colo e decretou uma trégua na dificílima negociação, tramitação e votação da proposta de emenda constitucional de reforma da previdência, enquanto durar a situação: coincidentemente, até  o fim do mandato do presidente da república e do governo carioca. 

                Fato é, queiramos ou não o admitir, o atual presidente de todos os brasileiros, dentro do conceito usualmente admitido para o que vem a ser a política que por aqui se pratica – na qual, invariavelmente, os fins justificam os meios -, é um hábil político, exímio negociador – melhor ainda, claro, quando se vale de recursos que não oriundos do próprio patrimônio -, além de um sortudo contumaz: primeiramente, ao se unir a uma pessoa de difícil convivência, como foi sua antecessora, de quem, no curso do mandato, por impeachment jurídico-parlamentar dela, gratuitamente, herdou o cargo; depois, ao encontrar no congresso nacional, ministério público e parte do poder judiciário, leitores ou seguidores de sua cartilha política; e, agora, quando já se fazia quase iminente sua derrocada na aprovação da maior de suas obras administrativas, a reforma previdenciária, eis que um ato de força maior, uma intervenção federal, o livra de derrota, ao impedir o congresso nacional de dar sequência em tal proposta de emenda constitucional.

“Georgina”, de Luiza Amélia, ganha reedição


Daniel Ciarlini e Pádua Marques

“Georgina”, de Luiza Amélia, ganha reedição

Pádua Marques

A literatura piauiense tem motivos de sobra para comemorar, afinal, depois de 125 anos, Georgina ou os efeitos do amor, obra máxima da poetisa piauiense Luiza Amélia de Queiroz, foi reeditada e virá a público nas próximas semanas, em Teresina. Os créditos recaem para a equipe do Núcleo de Estudos de Literatura Piauiense (NELIPI), vinculado à Universidade Estadual do Piauí e coordenado pela professora doutora Algemira de Macêdo Mendes.

A reedição, que conta com a organização e a apresentação do parnaibano Daniel Castello Branco Ciarlini e Algemira de Macêdo Mendes, e texto de orelha de Rosana Cássia Kamita, importante nome nos estudos de literatura e gênero do Brasil (UFSC), é um dos mais ousados empreendimentos de resgate das letras piauienses nos últimos tempos.

Dividida em cinco cantos que somam mais de 3 mil versos polimétricos, Georgina é, na realidade, uma narrativa em versos, protagonizada por um casal, Acrísio e aquela que dá título à obra. O livro traz ainda um bônus aos leitores: inúmeros outros poemas inéditos da poetisa, publicados no século XIX, quando ela então colaborava para o Almanaque de Lembranças Luso Brasileiro.

“Georgina, de Luiza Amélia, é de suma importância às letras do Piauí e interessa muitíssimo à historiografia literária de Parnaíba, afinal, foi nessa cidade que a poetisa viveu a maior parte de sua vida e escreveu parte considerável dessa narrativa em versos”, afirmou Daniel Ciarlini, um dos organizadores da reedição.

O projeto gráfico do livro tem a assinatura de Marleide Lins de Albuquerque e ilustração de Jheine A. Cunha.    

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

DEPOIMENTO SOBRE JOSÉ ELMAR DE MELO CARVALHO


Fonte: site APL

DEPOIMENTO SOBRE JOSÉ ELMAR DE MELO CARVALHO

Alcenor Candeira Filho
Escritor e poeta. Membro da APL

     Já me manifestei por escrito sobre a obra literária de Elmar Carvalho em quatro momentos, todos revestidos de caráter solene e público: 1994, com o discurso de recepção na posse do poeta na Academia Parnaibana de Letras; l996, com a apresentação de ROSA DOS VENTOS GERAIS na noite do lançamento em Parnaíba; 2010, com a apresentação de POEMITOS DA PARNAÍBA no lançamento ocorrido no auditório da APAL; 2015, no lançamento do livro CONFISSÕES DE UM JUIZ.

     Formado em administração de empresas e em direito. Magistrado, jornalista, poeta, cronista, crítico literário e romancista, Elmar é autor de vários livros em prosa e em verso, destacando-se ROSAS DOS VENTOS GERAIS, LIRA DOS CINQUENTA ANOS, CONFISSÕES DE UM JUIZ e HISTÓRIAS DE ÉVORA.

     Durante o tempo em que morou em Parnaíba (1975/1982), Elmar participou de vários movimentos culturais, principalmente como presidente do Diretório Acadêmico 3 de Março (CMRV/UFPI) e membro do Movimento Social e Cultural Inovação.

     Na qualidade de literato, Elmar é mais conhecido como poeta e romancista, mas não podemos deixar de lembrar a sua vocação para a crítica literária.

     Mesmo não sendo ainda autor de livro no gênero, Elmar já publicou em revistas e jornais vários textos de crítica literária, voltados especialmente para a análise de obras piauienses.

     O trabalho que Elmar Carvalho vem realizando se afasta da velha crítica historicista, que realça os elementos extrínsecos (biográfico, histórico e sociológico) da obra literária. Ciente de que literatura é acima de tudo “monumento estético”, o escritor tem optado pela chamada “nova crítica”, que valoriza os elementos intrínsecos da obra. Se literatura é a arte da palavra, o texto e a sua interpretação estético-literária é que importa.

     No início de 2010 Elmar Carvalho criou por sugestão de sua filha Elmara o “poetaelmar.blogspot.com.br”.

     Ao longo desses oito anos de existência, o blogue vem divulgando textos em prosa e em verso de sua autoria e artigos e poemas de intelectuais do Piauí e de outros estados brasileiros.

     Elmar Carvalho tornou-se um dos poetas mais importantes da Geração do Mimeógrafo ou dos Anos 70, geração que escreveu uma poesia agressiva – chamada marginal ou alternativa -, caracterizada por uma linguagem livre e contestatória e fortemente impregnada de denúncia.

     Essa poesia social, reveladora de um grande poeta público, se reveste de acentuado sopro épico, como exemplificam os poemas que integram “A Zona Planetária”, título inspirado num prostíbulo de Campo Maior.

     Além da poesia utilitarista, o poeta tem criado também a poesia lírica como se vê no poema “Marítima”.
         
           A mais importante obra poética de Elmar Carvalho – ROSA DOS VENTOS GERAIS -, com três edições, apresenta apreciável diversidade temática, variedade percebida também em termos de gêneros literários, com versos para todas as preferências e gostos: líricos, sociais, épicos, satíricos.

     A partir dessa diversidade, o poeta dividiu a coletânea em quatro partes, que passo a comentar.

      Os poemas da 1ª PARTE são líricos. Falam de amores devastadores, como no “Poema da Mulher Amada”, e de amores idos e vividos, como na “Elegia do Amor Final”.  Aliás, as coisas idas, vividas e revividas predominam na parte inicial do livro.

     O passado não é uma pedra, não é uma campa, por isso nele o poeta mergulha como que em busca do tempo perdido “com seus gemidos/ de fantasmas que/ arrastam correntes/por entre ais doloridos”.

     Conforme está dito em “Eterno Retorno” o passado são “emoções revividas/ e ampliadas/ das sensações/de nervos expostos/ nas carnes pulsantes”. Na esteira da teoria circular, o poeta lembra que “o passado poderoso e renitente/ retorna e continua vívido e presente/ se contorcendo se retorcendo/ e se reacontecendo.

     Já o poema que abre a coletânea – “Autobiografia Zodiacal” – anuncia uma das características marcantes do poeta Elmar Carvalho: sua vinculação com o concretismo, vanguarda que propõe o aproveitamento de recursos espaciais e geométricos como elementos orgânicos do poema.

     A miséria humana, observada numa das regiões mais carentes do país, latejam nos versos que compõem a 2ª PARTE do livro, denominada “Cancioneiro do Fogo”.

     Certamente não são versos incendiários, porque não incitam a rebelião. São versos utilitários, que servem para tornar o ouvido um órgão capaz de ouvir, por exemplo, o ronco sinistro de vísceras famintas:

                                                    “a rosa
                                                    que come
                                                    e consome
                                                    o ‘home’
                                                    mora
                                        em sua víscera sonora
                                                 e o devora
                                        como uma flora
                                                 cancerosa
                                                          rosa carnívora
                                        que aflora e o deflora
                                        de dentro para fora”.
     
     O poeta, sempre interessado em sua época, assume a posição de receptáculo do sofrimento humano, de caixa acústica por meio da qual as pessoas possam tomar conhecimento dos males que as afligem, como neste minúsculo poema “O Favelado”

                                      "O favelado, qual filósofo meditava:
                                      sua miséria era tamanha
                                      que tudo enchia e ainda sobrava”.

     A terceira parte do livro – “Cancioneiro da Terra e da Água” – celebra o Piauí. São versos líricos através dos quais o poeta empreende um passeio sentimental por ruas, praças, praias, campos, casas, catedrais e cidades piauienses. Nesse bloco de composições telúricas, destacam-se, como os mais inspirados e de melhor solução formal, os poemas “Noturno de Oeiras” – resultado de uma viagem física e psicológica que o poeta realizou pelo reino mágico da antiga capital de inúmeras tradições históricas, religiosas e artísticas -, e “Marítima”, escrito no ritmo oceânico do mar, em cujas ondas o poeta assimilou os gestos e o jeito de falar e de ser.



     A vida, respirada, repisada, repensada e/ou reinventada nos ares do Piauí no final do século XX, mas sempre a mesma em qualquer lugar e época, - eis a matéria-prima da poesia reunida na derradeira parte do livro – “Cancioneiro dos Ventos Gerais”.

     A vida em Parnaíba, que o poeta já exaltara em vários poemas inseridos no “Cancioneiro da Terra e da Água´, está presente na série denominada “PoeMitos da Parnaíba”, que retratam tipos curiosos, malucos, miseráveis, humanos.

     Dois poemas se destacam na parte final do livro, ambos de natureza épica na classificação do próprio autor: “Dalilíada”, baseado na vida e na obra do pintor espanhol Salvador Dali, e a “Zona Planetária”, inspirado no cabaré de Campo Maior.

     Num total de 382 versos, distribuídos em 10 segmentos, o poeta focaliza a prostituição através de um processo criativo em que mistura a mitologia clássica, a astronomia e a sociologia dos lupanares.

     O início do poema fornece uma visão geral da promiscuidade do ambiente, onde as emoções são alinhadas pedra a pedra ao som de vitrolas que embala os “que bebem vinho/ e sangue em frágeis taças de cristal”.

      Há versos admiráveis nesse moderno poeta épico, seja pela magia musical, seja pela beleza das imagens. Se a linguagem às vezes ganha sabor classicizante para ajustar-se ao referencial mitológico, assume quase sempre expressividade moderna e contundente, como nos versos de “Marte”, cujo ritmo de rudo açoite parece querer varrer as impurezas da vida instintiva e sublinhar a sublime alvura dos lençóis lavados em lágrimas vertidas nas ressacas das “tempestades do sexo”.

     Com POEMITOS DA PARNAÍBA, obra ilustrada com caricaturas de Gervásio Pires e Castro Neto, Elmar Carvalho revela mais uma faceta de seu talento poético: a produção jocosa, alegre, graciosa, satírica, retratando anatômica e psicologicamente pessoas que foram ou são bastante conhecidas em Parnaíba, a maioria gente humilde.



     Finalmente, CONFISSÕES DE UM JUIZ é um livro de quase duzentas páginas que reúne parte dos textos postados no blog: crônicas, comentários, reminiscências, confissões, reflexões sobre pessoas, bichos e lugares.

     A obra enfatiza na parte inicial as lembranças do burocrata, sobretudo do julgador, do que tem a responsabilidade superior e constitucional de “atribuir a cada um o que é seu”. Responsabilidade imensa a do juiz, que raramente é reconhecido pelo que faz no desempenho da profissão.

     Destaca-se nas primeiras páginas do livro a revelação, em tom de quase desabafo, feito por quem laborou durante quatro décadas na vida pública e dela teve se afastar em razão de aposentadoria fundamentada em tempo de serviço mas motivada verdadeiramente por razões que a própria razão desconhece.

     O juiz Elmar teria ainda outro argumento para justificar a aposentadoria, se essa fosse o seu objetivo: doença grave.

     Mas no fundo o que ele pretendia apesar dos pesares era continuar servindo ao país como magistrado culto, íntegro, justo, bom. Estava plenamente motivado para o trabalho forense por mais algum tempo.

     O comovente depoimento de Elmar sobre os fatos e circunstâncias que precipitaram o pedido de aposentadoria aos 58 anos de idade repercutiu no meio forense e intelectual, com opiniões postadas na internet e comentários inseridos no livro.

     Na 2ª e 3ª PARTES do livro, o autor selecionou textos escritos há algum tempo, vários deles complementando e elucidando fatos focalizados na parte inicial.

     Recentemente Elmar Carvalho publicou o romance HISTÓRIAS DE ÉVORA, que ainda não li.

     Elmar Carvalho é casado com Maria de Fátima de Sousa Carvalho, com quem tem dois filhos. Pertence a várias agremiações culturais e literárias. Ocupa a cadeira nº 10 da Academia Piauiense de Letras e a de nº 07 da Academia Parnaibana de Letras.            

                

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O poder da toga




O poder da toga

Zózimo Tavares
Jornalista e escritor. Membro da APL

Muitas questões de grande repercussão na vida coletiva passaram a ser decididas pelos magistrados, nas mais diferentes instâncias. Daí um termo entrou em voga na atualidade, no Brasil: judicialização.

Para a solução de tudo o quanto é conflito bate-se à porta da Justiça. Quase nada mais escapa ao crivo dos juízes e tribunais.

Nesse novo cenário, matérias que comumente eram da alçada de outros Poderes passaram à arena do Judiciário. E, assim, as decisões judiciais ganham as manchetes de jornais, ocupam destaques nos noticiários de rádio e TV, esquentam as discussões nas redes sociais, fermentam os debates acadêmicos e animam até os bate-papos de mesa de bar.

O novo contexto leva os juízes a ocuparem espaço central na agenda pública, tornando-se mais presentes e mais visíveis na sociedade e na mídia. Assim, em muitos casos, aquele magistrado que só falava nos autos está praticamente aposentado.

Ativismo

Em tempos de crescente ativismo judicial, como se convencionou chamar este momento, eis que uma obra instigante vem a lume expondo e interpretando esta nova realidade. Trata-se de “Criatividade Judicial – limites, justiça e legitimidade”.

Seu autor é o desembargador Arnaldo Boson Paes, vice-presidente e corregedor do Tribunal Regional do Trabalho do Piauí e também professor universitário e escritor.

Publicado pela Editora RTM, de Belo Horizonte, a obra resulta de pesquisas e reflexões acadêmicas do autor.

O texto foi originalmente produzido em 2004, no Curso de Mestrado em Direito Constitucional, junto à Universidade Federal do Ceará. Ou seja, o autor, hoje doutor em Direito do Trabalho e em Direito das Relações Sociais, antecipou em muito o debate sobre o protagonismo do Judiciário.

A obra apresenta uma ideia do Direito e do poder que o cria, a revelação entre dogmática jurídica e “dogma” da separação dos Poderes. Também examina a jurisprudência como fonte do Direito em diversas escolas de interpretação e no pensamento jurídico contemporâneo.

A criatividade judicial

O livro defende ainda a adoção de um modelo crítico de Direito, passando a compreendê-lo como instrumento de realização da Justiça no caso concreto, a partir da dimensão criativa da atividade judicial.

Nessa perspectiva, examina os limites da criatividade judicial, a busca da solução justa no caso concreto e a legitimidade democrática do direito produzido por juízes e tribunais.

Em resumo, uma obra fundamental para compreensão do poder da toga e dos voláteis dias correntes.  


Fonte do texto e das fotografias: portal Cidade Verde

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Seleta Piauiense - Martins Napoleão

Fonte: Google

Saudade

Martins Napoleão (1903 – 1981)

É toda de lágrimas esta elegia de amor,
porque somente de lágrimas alivia a dor.

É feita de lágrimas, toda embebida de pranto,
esta elegia que eu não sei se choro ou canto.

Lividamente, a noite cai por sobre a natureza,
como um rosto infeliz, curvo sobre a tristeza.

Distante, além das nuvens, longe, além da vida,
sinto que vive alguém. Sinto-lhe a alma querida

no infinito, vagando sozinha, à procura de alguém,
- à procura de alguém, sem procurar ninguém...

Pálida chama, ainda guardando a forma corporal,
tendo-lhe ainda o esplendor, sem já lhe ter o mal,

no meio da alegria lírica do Paraíso,
não lhe ilumina o rosto a aurora de um sorriso...

Ela sente, por certo, saudade da terra distante,
pois me quis muito mais do que Beatriz a Dante.

Porque ainda sou poeira, porque ainda não esplendo,
alma pura, alma livre, em êxtase ascendendo,

eu não posso fundir-me, como numa outra flama,
na unidade do Amor, com esta alma que me ama.

E é por isso de lágrimas esta elegia de amor,
porque somente a lágrima alivia a dor...   

Fonte: Cancioneiro Geral - EDUFPI (1999)

sábado, 17 de fevereiro de 2018

D. Fr. Francisco de Lima, Bispo de Pernambuco

Fonte: Google


D. Fr. Francisco de Lima, Bispo de Pernambuco

Reginaldo Miranda

Sobre Dom Frei Francisco de Lima, já tivemos oportunidade de escrever e publicar em obra anterior, Piauí em foco, já em segunda edição. Todavia, não poderíamos deixar de incluí-lo neste volume em que nos reportamos às figuras notáveis que ajudaram na construção de nosso Estado, o Piauí, terra onde nascemos e à qual dedicamos a melhor parte de nossa atividade intelectual. Com esse propósito e para apenas não repetir o que publicamos na vez anterior, usando de outros recursos somente agora disponíveis, fazemos nova pesquisa sobre esse notável religioso que tão bem serviu à antiga Diocese de Pernambuco, à qual que estávamos vinculados por aqueles dias de pioneirismo.

Nasceu esse benemérito no ano de 1629, na cidade de Lisboa, filho de João de Lima e de sua esposa Maria das Neves.

Na cidade natal encetou seus estudos, mais tarde ingressando na carreira religiosa e recebendo o hábito carmelita em 19 de setembro de 1649, aos vinte anos de idade, no convento da ordem.

Em seguida, exerceu o emprego de lente de Teologia em Évora. Mais tarde, foi visitador e reformador do convento dos carmelitas existente no concelho da Horta, ilha do Faial, arquipélago de Açores, recentemente fundado(1649). Dali passou ao Brasil, onde foi vigário da província eclesiástica.

De retorno ao reino, em 8 de maio de 1683, foi eleito secretário da província dos carmelitas de Portugal. Em 1686, foi escolhido para prior do convento de Lisboa, posto que ocupava à data de sua ascensão ao episcopado. Percebe-se, pois, que desde a ordenação até a ascensão episcopal encetou uma carreira toda no âmbito de sua ordem religiosa.

Nomeado para Bispo do Maranhão, em dezembro de 1691, não chegou a tomar posse do cargo, onde deveria assumir como seu segundo titular. Entretanto, em 14 de maio de 1697, requere “o pagamento da côngrua que havia vencido com o bispado do Maranhão”, sendo autorizado por ato real de 26 de agosto do mesmo ano a receber por tal título um conto de reis.

Logo mais foi nomeado Bispo da Diocese de Pernambuco, assumindo como seu quarto titular, confirmado pela Bula do Papa Inocêncio XII, dirigida a D. Pedro II, de Portugal, em 22 de agosto de 1695. Aliás, desde a edição da bula Dum fidei constantiam, de 7 de Junho de 1514, concedeu o papa Leão X a D. Manuel I, de Portugal, e a seus sucessores o padroado de todas as igrejas fundadas e a fundar no ultramar. Assim, reconheceu de jure, entre outros aspectos, que competia aos reis de Portugal eleger os bispos naquelas regiões, que deveriam posteriormente serem confirmados pelo Sumo Pontífice, o que sempre sucedeu, com exceção do ocorrido entre a Restauração de 1640 e 1667, ensina José Pedro Paiva, da Universidade de Coimbra (Os bispos do Brasil e a formação da sociedade colonial – 1551 -  1706. Texto de história, v. 14, n. 1/2, 2006).

Desta forma, em 19 de setembro de 1695, D. Fr. Francisco de Lima pede ao rei D. Pedro II, ajuda de custo para encetar viagem para Pernambuco, como era costume e fora concedido a seu antecessor. Chegou a Olinda tomando posse do cargo em 22 de fevereiro do ano seguinte. Iniciou então um trabalho dos mais profícuos e elogiados no Bispado de Pernambuco, dedicando seu maior empenho na catequese dos índios, fundando várias missões e reorganizando outras (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 17. D. 1690).

Em 18 de maio de 1697, escreve ao rei sobre a falta de igrejas e párocos nos presídios dos Palmares e sertão de Rodelas, sobre os delitos cometidos na região e a dissolução em que vivia o mestre-de-campo do presídio das Alagoas, Domingos Jorge Velho. Para ele

“Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado; quando se avistou comigo trouxe consigo língua, porque nem falar sabe, nem se diferencia do mais bárbaro tapuia, mais que em dizer que é cristão, e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem sete índias concubinas, e daqui se pode inferir, como procede no mais; tendo sido a sua vida desde que teve uso da razão/ se é que a teve, porque se assim foi, de sorte a perdeu, que entendo a não achará com facilidade/ até o presente andar metido pelos matos à caça de índios e de índias, estas para o exercício das suas torpezas, e aqueles para os granjeios dos seus interesses” (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 17. D. 1732).

Na mesma correspondência reporta-se ao curato de Cabrobó, onde paroquiava o padre Miguel de Carvalho e ao sertão do Rodelas, em que então se incluía o Piauí nascente. Por ser interessante descrição de nosso sertão àquele tempo, feita com base no relatório do reverendo cura, segue a seguinte passagem:



“No sítio a que chamam Cabrubu, junto do rio de S. Francisco, está um curato, cuja igreja é de N. Sra. da Conceição, o último que este Bispado tem da banda do Sul, cujo distrito continuando-se pela margem acima do dito rio, que fica para a parte do norte, não tem limite, compreendendo tudo o que do dito sítio está da mesma parte, e todo o sertão a que chamam de Rodela, que pelas travessias de que é cursado contém mais de 400 léguas cortado de vários rios, uns menos e outros mais caudalosos, porém todos de boas águas, o clima é muito saudável, e não menos fértil a terra para a criação e sustento dos gados, dos quais importa só os dízimos passante de 4 mil cruzados, e por esta razão contém em si muitas povoações em grandes distâncias umas das outras, e todas elas sujeitas ao cura da dita igreja da Conceição, e para este os desobrigar não lhe basta todo o ano para correr uma só vez a paróquia, porque além de pouco devotos que são os moradores, as distâncias grandes em que vivem da igreja lhes dificulta e fazem quase impossível o ir a ela, e assim passa todo o ano sem missas e sacramentos, porque não há sacerdote, que lhes administre fora do cura nomeado; este se vale às vezes dos padres franceses barbados para acudir àquelas povoações mais próximas às aldeias em que eles assistem em o rio de S. Francisco, e as mais fica no desamparo referido; este ano mandei ao cura corresse o dito sertão, e gastando mais de seis meses, não pôde chegar a muitas povoações dele, e nas que entrou achou muitas pessoas, que havia dez anos não ouvia missa, nem se tinham confessado, nem visto sacerdote com quem o pudessem fazer; e assim vivem estes homens sem lembrança da outra vida, com tal soltura passam, como se não houvesse justiça, porque a de Deus não a temem, e a da terra não lhe chega. Do rol dos  mortos no decurso do ano passado que o cura me remeteu, por lho mandar pedir, consta faleceram 16 pessoas, das quais uma só morreu de enfermidade, que tão benigno como visto é o clima, porém, que tem este de bom, tanto tem de mau os habitadores, porque os 15 foram mortos a espingarda, com este estilo se trata, e com este risco se vive entre eles; e ainda se haveria pior, se não confinara com o gentio brabo, cujo temor os conserva de algum modo, para que na ocasião dos assaltos que lhe costuma dar, se veja uns dos outros socorridos” (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 17. D. 1732).

Essa parte que refere o Bispo, que distava do rio São Francisco, onde havia morador que há dez anos não assistia ao sacrifício da missa e nem recebia sacramento, era o Piauí, daí a importância do relato para se compreender a situação de nossos pioneiros ancestrais na época referida. Sobre o assunto e na mesma ocasião, também se reportou o governador de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, em carta do mesmo dia 16 de maio:

“Para os dilatadíssimos sertões do Rodelas mandou o Bispo quatro clérigos, determinando terra para dois curatos, e para o Assu e Jaguaribe foram sacerdotes; bom será que uns e outros obrem de modo que acreditem a escolha que neles se fez” (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 17. D. 1732).

Essas duas correspondências, do Bispo e do governador de Pernambuco, são seguidas de parecer favorável do Conselho Ultramarino, datado de 29 de outubro de 1697. Também, denota um conceito que vai se repetir mais tarde na correspondência dos primeiros ouvidores, da rudeza do habitante do sertão, de pouca fala, difícil compreensão e pouco temor às leis e a religião. Segundo esses primeiros relatos, infere-se que o nosso sertanejo vivia livre, isolado, sem muitas convenções sociais e empenhado na luta diária de implantação de fazendas e do criatório bovino.

Logo mais, em carta ao secretário Roque Monteiro Paim, comunica o Reverendo Bispo, sobre a fundação da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, no sertão do Piaguí. Como desdobramento, em decreto de 6 de novembro de 1697, o rei D. Pedro II, de Portugal, fala do compromisso dos moradores para a manutenção do novo curato e diz ao Conselho Ultramarino:



“Há de louvar o zelo com que este prelado procura o bem de suas ovelhas, que desgarradas por aqueles desertos, apenas ouvem os silvos de seu pastor; porém, é de considerar se este novo que lhe dá, pode aproveitar a todos, vivendo em tão largas distâncias (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 17. D. 1733).

Em 16 de novembro de 1699, o Conselho Ultramarino consulta ao rei D. Pedro II, sobre as cartas do Bispo de Pernambuco, D. Fr. Francisco de Lima ao secretário Roque Monteiro Paim, acerca das visitas nas missões do sertão; demarcações das terras de Piaguí; das queixas contra o capitão da aldeia de Santo Amaro dos Caboclos; dos delitos cometidos na vila de Porto Calvo; da falta de ministros de letras e ouvidor para as Alagoas e São Francisco; do aldeamento dos índios da nação Corema e eleição de capitão-mor para governá-los; do excesso cometido por soldados, ferindo um padre missionário que não permitiu o rapto das índias e, por fim, pedindo um coadjutor para o ajudar em suas obrigações, dada a sua avançada idade (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 18. D. 1794).

Resumindo o estudo da vida e a análise da ação episcopal de D. Fr. Francisco de Lima, no Bispado de Pernambuco, pode-se dizer que em seu governo diocesano fundara curatos e freguesias, envidara esforços na evangelização das missões indígenas e preocupara-se com a falta de critérios na concessão de sesmarias, assim como assumiu intransigentemente a defesa dos posseiros do Piauí em contraposição à exploração que lhes faziam os sesmeiros, cujas sesmarias lhes foram concedidas em demasia e extensões escandalosas.

Aliás, esse foi o ponto marcante de sua missão evangelizadora, assim assegurando a criação e manutenção da freguesia de Nossa Senhora da Vitória contra o ataque dos sesmeiros; inclusive, condenando o desacato praticado contra o vigário Tomé de Carvalho, por Domingos Afonso Serra, sobrinho de Julião Afonso Serra, em cujas terras estava sendo edificada a nova matriz. Denuncia esses desmandos em carta a Roque Monteiro Paim, secretário de Estado. Como consequência o Conselho Ultramarino recomenda ao governador de Pernambuco que interviesse na questão para apaziguá-la, que enviasse um ouvidor à localidade para apurar os fatos e procedesse contra os culpados e, enfim, que fossem declaradas devolutas as sesmarias cujos sesmeiros não as cultivassem por si, seus feitores, colonos ou constituintes e dadas a quem as denunciasse.

Ainda como consequência dessa luta foi editada a carta régia de 3 de março de 1700, que transferia o contrato dos dízimos do Piauí, da alçada de Pernambuco para a do Maranhão.

Novamente, formulando nova denúncia em 29 de junho de 1700, consegue do rei que ordenasse D. João de Lencastre, governador-geral, a enviar o ouvidor-geral de Sergipe, Diogo Pacheco de Carvalho, para apurar os tais delitos. Nesse contexto ainda surge a carta régia de 3 de março de 1702, obrigando os sesmeiros a demarcarem suas terras no prazo máximo de dois anos, sob pena de ficarem as mesmas devolutas.

Foi, portanto, figura de suma importância em nossa história. E consta que veio ao Piauí, em visita pastoral, no ano de 1699, embora esse fato seja bastante controverso. Segundo o frei André Prat, esse Bispo “na idade de 70 anos, com as maiores privações e incômodos percorreu toda a sua diocese até o sertão”. O historiador Pereira da Costa, dar como certa essa visita do Bispo ao Piauí, que teria sido comunicada por carta de 8 de outubro de 1699. No entanto, Odilon Nunes não tem muita convicção nessa sua vinda ao Piauí, “apesar de ser anunciada sua visita pastoral”. Infelizmente, não encontramos nada de concreto sobre o assunto, porém não é duvidoso que tenha vindo pois existe farta referência à desobriga em toda a diocese, sendo o Piauí muito grande para ficar de fora. Todavia, independentemente dessa visita pastoral, com sua ação enérgica ao lado dos posseiros e criação da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, transformou-se em destacado vulto de nossa história.

Por fim, faleceu esse notável Bispo na cidade de Olinda, em 23 de abril de 1704, sendo sepultado, a pedido, na igreja dos carmelitas daquela cidade. Segundo Franklin Távora, autor de O cabeleira, faleceu ele em estado “tão pobre que unicamente se lhe encontraram de seu quarenta réis em dinheiro”. Acrescenta que “ele havia despendido todas as rendas da mitra na sustentação das trinta missões de índios que reunira e visitara no seio de inóspitos sertões, sendo-lhe preciso, para cumprimento deste apostólico dever, transpor mais de trezentas léguas na avançada idade de setenta anos”. Para o mesmo autor, foi um prelado que ilustrou a cadeira episcopal de Olinda por conspícuas e beneméritas virtudes que não foram até hoje igualadas.

________________

* A imagem é da igreja do Carmo, em Olinda, onde foi sepultado o corpo de D. Fr. Francisco de Lima.

**REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br

*** O presente ensaio biográfico foi elaborado para o livro Piauienses notáveis, que será publicado no corrente ano de 2018, pela Academia Piauinse de Letras, abordando tanto aqueles que nasceram no Piauí quanto os que ajudaram a construir sua história.   

APAL trata de convênio com a Fecomércio e lançamento de livro

Valdeci, José Luís e Gallas
O presidente da Academia Parnaibana de Letras, José Luiz de Carvalho, acompanhado do secretário-geral Antonio Gallas Pimentel, esteve na tarde desta sexta-feira dia 16 na Federação do Comércio do Piauí tratando com o presidente Valdeci Cavalcante sobre assuntos relevantes para a entidade.



Segundo o presidente José Luiz de Carvalho foi marcada a data de lançamento do livro Eixo do Tempo, de Alarico da Cunha, às 19h, no dia 23 de março no SESC Avenida e cuja renda será revertida para a Academia Parnaibana de Letras.

Também foi tratado o convênio entre a APAL e o SESC. Valdeci Cavalcante, empresário, advogado e escritor, toma posse na cadeira 39, que tem como patrono seu pai, o comerciante e ex-vereador Gerardo Ponte Cavalcante, no dia 13 de abril no Espaço de Eventos, bairro de Fátima. 

Fonte: APAL. Fotos: APAL/SESC. Edição: APM Notícias.   

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Sucesso literário



Sucesso literário

Daniel C. B. Ciarlini



Ao falar do escritor escocês Walter Scott, e mais detidamente do flamengo Hendrock Conscience, Otto Maria Carpeaux, num dos raros momentos de posição em sua História da literatura ocidental, deixou entrever o seguinte juízo: “Não existe relação entre os valores literários e os efeitos sociais: o sucesso não é prova de valor; a mediocridade não exclui consequências benéficas” 1. Esse pensamento depõe contra o senso comum que acredita o sucesso literário edificar um nome no disputado mundo das letras.

Mais do que isso, a fala de Carpeaux esconde algumas verdades que rondam as letras pelo menos desde Voltaire, que num arroubo de autoafirmação costumava escrever nos jornais sobre si e as suas próprias obras ou fazia com que os outros escrevessem, elogiando-o (as), numa espécie de marketing pessoal que ainda perdura – hoje avolumado por “campanhas” que se espalham em redes sociais motivadas por noviços escritores, marqueteiros em sua essência.

Em “Conselho aos jovens escritores”, Baudelaire infere que “o sucesso é, numa proporção aritmética ou geométrica, a consequência da força do escritor, o resultado dos sucessos anteriores, frequentemente invisíveis a olho nu” 2. Essa força e esses esforços de que fala o grande nome da poesia francesa não se relacionam a campanhas em nome próprio, mas ao brio estético com que o verdadeiro escritor se depara ao longo da vida.

À dedicação diuturna pela forma ideal, que o obriga muitas vezes a vencer as limitações receptivas de um tempo, rompendo com as expectativas de um público afeito e viciado a modelos pré-definidos; eis aqui o grande esforço: ser propositor ao invés de reprodutor. Se esses sucessos são invisíveis a olho nu é porque nem sempre eles virão em tempo hodierno, mas depois que, vencidas as limitações de leitura, uma dada geração ser capaz de absorver o bem simbólico produzido.

Obra medíocre, portanto, é aquela que se furta em exigir de outrem uma meditação ou, no mínimo, uma leitura mais profunda, antes cumpre apenas o papel de apreensão imediata, da ordem do dia, dando ao público exatamente as imagens superficiais que ele se identifica – como o é a maior parte dos best-sellers, que não excluem “consequências benéficas” aos seus criadores. Esse valor de mercado, como indica Bourdieu, é inversamente proporcional ao valor literário, traduzido por Flaubert como aquele que quanto mais consciência se põe no trabalho menos proveito pecuniário se tira dele.

Isso porque novos códigos exigem novos leitores, que só se formam a médio e a longo prazos, daí porque os lucros que dele se tiram são os mais duradouros e mais alicerçados na história das letras, já que não flutuantes e nunca efêmeros como a moda do dia. Não por acaso se atribui ao tempo o grande juízo dos fatos. O que é bom permanece, o que é ruim é esquecido.

A história nos indica que pouquíssimos foram os escritores que alcançaram o sucesso em vida, e mesmo esses, quando o conquistaram, já estavam nas últimas primaveras de vida, como os recentes casos de Gabriel García Márquez e José Saramago, que agradavam tanto ao público comum como aos leitores mais competentes.

Ainda não vivi o tempo necessário para dizer que acumulei experiência produtiva de vida, todavia, no abreviado tempo que já passou, vi sujeitos começarem nas letras muito bem, conquistarem algum espaço e depois, convencidos de sua pretensa “genialidade”, tropeçarem no próprio orgulho, no exibicionismo precoce e na prepotência – características que foram inevitavelmente transplantadas à produção, que muito perdeu em riqueza e polissemia.

Esses mesmos sujeitos são aqueles que formaram em torno de si capelinhas de elogio, e porque se puseram a crer em julgamentos de amizade, perderam o senso crítico real sobre os próprios trabalhos e, no que tange aos ganhos artísticos (que são diferentes desse capital social pernicioso), o que um dia estava em ascensão repousa na mais infame horizontalidade.

Medir a projeção de uma obra não é sondar e ter na ponta do lápis todos aqueles que a celebram e a leem, porque esses são os amiguinhos de plantão que a contemplam não pelo objeto, mas pela inescapável cordialidade de todos os dias. O verdadeiro ganho de um autor contraditoriamente dilui-se pelos dedos, constituído por um público discreto que aprecia mudo e sequer o conhece, senão através do escrito. Os livros quando produzidos e distribuídos não nascem para serem sondados, mas para os espaços jamais imagináveis e as prateleiras dos mais exigentes leitores.

Teresina, 2 de novembro de 2017.   

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O TALENTO ESCULTÓRICO DE BRAGA TEPI

Fonte: Google

O TALENTO ESCULTÓRICO DE BRAGA TEPI

Elmar Carvalho

Hoje à tarde fui acordado de um cochilo por um recado de meu irmão César Carvalho, que me mandava entregar um álbum com fotografias coloridas de esculturas de Braga Tepi, que foi convidado a expor suas obras na H. Rocha Galeria de Arte, no Rio de Janeiro. A exposição será aberta no próximo dia 04 de março e se estenderá até o dia 23 do mês seguinte.

Confesso que ainda não ouvira falar nesse artista, e, portanto, não conhecia seus trabalhos. Por isso mesmo, olhei o fólio lentamente, com muita atenção. Surpreendi-me com a qualidade das peças. São obras construídas com sucatas de ferro. Mas nota-se que o artista teve muito cuidado na escolha das peças e no modo como as interligou, como as encaixou e dispôs, dando harmonia ao conjunto.

Mesmo nas esculturas grandes e pesadas, pode ser visto, em certas partes da composição, um toque detalhista, uma minúcia de obra minimalista, como se fora um trabalho de delicada ourivesaria, fazendo como que um contraste com as partes maiores e mais compactas. Apenas pelo título de algumas obras, que remete à cultura humanística e clássica, percebe-se que Braga Tepi não é um artesão ingênuo, e muito menos primitivista.

Dentro do que é possível nesse tipo de escultura, concebida com a montagem das mais diferentes peças de sucatas de ferro, que não permite uma moldagem total, pode-se afirmar que ele é um figurativista de alta linhagem, mas sem ser um copiador servil e fotográfico da natureza, porque sabe distorcê-la artisticamente, adicionando elementos colhidos na imaginação, na mitologia, nos sonhos, podendo-se tirar a conclusão de que ele agrega a algumas de suas esculturas, com muito refinamento e graça, elementos extraídos do surrealismo.

Sem dúvida, pelo que pude perceber das peças constantes do álbum, é um dos maiores escultores do Piauí, e inegavelmente é um dos grandes artistas brasileiros. Por isso, não me chateei de ter o meu cochilo sido interrompido abruptamente. Até porque mergulhei num sonho maior e melhor, que é a arte mágica, supra e surreal de Braga Tepi.   

12 de fevereiro de 2010   

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

As Minhas Copas do Mundo de Futebol (4)



As Minhas Copas do Mundo de Futebol (4)

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e historiador

Fomos à França em 1998 defender o nosso título, ganho nos estados unidos em 1994. Não precisamos jogar as eliminatórias, uma vez que o campeão do mundo já está automaticamente classificado para a copa seguinte, ele e o país anfitrião, e isso nunca é bom porque a seleção se prepara para o duro embate apenas jogando amistosos. Portanto, não sabíamos como chegaríamos às disputas por pontos no curto torneio que é uma copa do mundo. Sem o nosso talismã da copa anterior, Romário, cortado quando a seleção já se encontrava na França para a disputa, depositamos as nossas fichas num jovem atacante que tinha ido à copa dos EUA apenas como coadjuvante: Ronaldo, o fenômeno. E ele fez bonito na sua primeira competição mundial como ídolo de uma nação louca por futebol. Isso, apesar de contarmos com um camisa dez de respeito, Rivaldo, o craque de pernas tortas, quase tão envergadas como a de Garrincha, e também com o nosso camisa sete da copa anterior, Bebeto.

Ganhamos os dois primeiros jogos contra Escócia e Marrocos, e perdemos o terceiro para a Noruega. Classificamo-nos em primeiro do grupo, mas ficamos com aquela dúvida se o time teria forças suficientes para chegar a mais um título. Fomos para as oitavas-de-final e despachamos o Chile com uma goleada por 4x1 e seguimos em frente. E nas quartas-de-final foi a vez da Dinamarca pegar o voo de volta para casa, 3x2. Melhoramos bastante durante a competição e o melhor do mundo, Ronaldo, vinha fazendo o seu papel muito bem. Na semifinal encaramos a Holanda, adversária que estava ficando comum em todas as copas do mundo. E foi o que se viu: um jogo difícil, amarrado e perigoso, decidido somente nos pênaltis. 1x1 no tempo normal, 4x2 nos pênaltis, estávamos na final mais uma vez.

Assistíamos aos jogos no sítio que tínhamos em sociedade com a minha irmã, e a festa que começara com poucas pessoas, ia engrossando a plateia jogo a jogo até chegarmos a grande final, quando a torcida já era enorme.  A comemoração terminava sempre do mesmo jeito: dentro da piscina. Estávamos no melhor dos mundos. Tomávamos todas ao ponto de a borda da piscina ficar cheia de copos e garrafas de cerveja, serviço extra para o caseiro. Enquanto isto, no seu entorno, amarradas em árvores, bandeiras e faixas alusivas ao Brasil tremulavam e davam um aspecto festivo ao ambiente.

Duas tevês haviam sido instaladas, uma na sala e outra no alpendre, para que todos pudessem assistir aos jogos sem atropelos. Muito diferente dos tempos em que ouvíamos o locutor se esgoelar pelo rádio, ou víamos os jogos em aparelhos que só nos mostrava a bola de tempos em tempos, tal era a qualidade ruim da imagem ofertada.

Mas ai veio a final, e, quando já nos encontrávamos à postos e bem acomodados para assistirmos mais uma final da nossa seleção, veio a notícia arrasadora: o nosso principal jogador, Ronaldo, havia sofrido uma convulsão no dia do jogo e, provavelmente não jogaria. Foi uma ducha de água fria. Enquanto isso, do lado do nosso adversário na final, a dona da casa, a França, uma franco-argelino, Zinedine Zidane, vinha assombrando com um futebol de altíssimo nível.

Já estávamos certos de que o Brasil jogaria sem o seu principal jogador, quando eis que Ronaldo aparece no gramado. Cabisbaixo, sem demonstrar aquela força e agilidade que o caracterizava, veio para o jogo meia-bomba, como dizem no jargão futebolista. As mulheres, pouco afeitas ao metiê, até se assanharam quando o careca entrou em campo. Mas nós, um pouco mais entendidos das coisas do futebol, ficamos em suspense o jogo inteiro. Não deu outra: perdemos a final para os donos da casa por largos 3x0. A tristeza foi geral. Já estávamos acostumados às grandes comemorações, e fomos chorar dentro da piscina, onde as nossas lágrimas não poderiam ser vistas por se confundirem com a azul e límpida, uma vez que era trocada a cada jogo.

Dava pena ver a criançada em total desespero, afinal, o futebol passou a ser um alento para as nossas mazelas, e derrotas em outros campos da vida, há muito tempo. E o nosso país, tão cheio de fraquezas e notícias diárias ruins, tem no seu futebol uma válvula de escape para os nossos tormentos, as nossas fraquezas.

Quatro anos depois estávamos novamente com o bloco na rua. Com Ronaldo Fenômeno no auge da sua forma, após passar por um grave problema em um dos joelhos, partimos para o Japão/Coréia do Sul, com uma seleção muito desacreditada, depois de jogar as eliminatórias de forma muito defensiva, e se classificar em terceiro lugar, atrás de Argentina( que ficou a anos luz da gente), e Equador. Mas, enfim, estávamos lá, e isso aqui no país é motivo para muita festa, apesar de os jogos terem sido disputados em horários impróprios, sempre de madrugada. Passarmos bem pela primeira fase, em primeiro lugar do grupo, após passar fácil por Costa Rica, China e Turquia. E nas oitavas batemos a Bélgica com certa facilidade e pegamos a Inglaterra nas quartas-de-final. Este sim, foi um jogo duríssimo contra os inventores do futebol. Ganhamos por 2x1, com um gol de Ronaldinho Gaúcho no melhor estilo espírita. Não deu para saber até hoje se ele teve a intenção de cruzar a bola na área ou se bateu mesmo para o gol.

As comemorações, confesso, eram meio frias, sem aquele estilo carnavalesco das outras copas. Tudo porque os jogos eram realizados nas madrugadas, como já falei, e íamos dormir para acordar próximo à hora do jogo. A torcida também era muito reduzida, pois a insegurança quer já começava a assombrar o país nos mantinha em casa. Foi a copa do mundo em que a cerveja sobrou na geladeira por falta de consumidor. Por outro lado, ainda assistíamos aos jogos na velha TV Sharp adquirida duas copas antes. Imagem, contudo, perfeita, para os padrões de então. Na semifinal ganhamos pelo magro placar de 1x0 de uma seleção pouco assídua em copas do mundo até então, a Turquia. Jogo chato, difícil para um time que se acostumou a depender do trio Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e, principalmente, Ronaldo Fenômeno. E nesse jogo estávamos sem o nosso poderoso camisa dez, expulso na partida anterior contra a Inglaterra.

Enervado e com a pressão nas alturas, fomos para mais uma final, contra a temível seleção da Alemanha. Nesse dia precisei mais do que nunca do amparo da cerveja para controlar os nervos. Não dormi a noite inteira, antes fiquei assistindo a tudo o que era programa esportivo até a hora da grande final. Foi pior. Deveria ter ido dormir, pois os nervos estavam à flor da pele quando o jogo começou. Completo outra vez, o time brasileiro emparedou a Alemanha e fez um jogo memorável. Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, e o Fenômeno estavam demais da conta e o Brasil venceu a forte retranca adversária com dois gols de Ronaldo. Estávamos nos acostumando a ganhar copas do mundo outra vez. Em três disputadas, ganhamos duas e fomos finalistas na terceira. Nada mal. E a ainda vimos a Argentina ficar logo na primeira fase. O que poderíamos querer de melhor? Quanto aos meus nervos, até que estavam no lugar, tal o futebol que jogamos contra os nossos temíveis adversários.   

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

CARNAVAL



CARNAVAL

Pádua Marques

...negra, estroboscópica, psicodélica, rítmica, submarina...

Uma portaria assinada pelo juiz da Vara de Menores da Comarca de Parnaíba, José de Anchieta Mendes de Oliveira naquele dia 15 de fevereiro de 1976 ordenava que, entre outras, fossem observadas algumas determinações que aos olhos atuais podem ser consideradas ingênuas. Parnaíba ainda tinha boa parte das ruas sem calçamento, estava no meio de um grande inverno com mais de doze mil casas danificadas, segundo o relatório da CAVI, a Comissão de Amparo às Vítimas das Inundações, criada por entidades da igreja e dos clubes de serviços.

A portaria do Juízo de Direito da Vara de Menores dizia claramente que nenhum festival carnavalesco poderia se realizar com a presença de menores sem o competente alvará judicial era proibido a permanência ou participação de menores de 16 anos em salões públicos ou outros logradouros, bem como em qualquer local onde se realizassem bailes noturnos com entrada livre.

Nas vesperais infantis, que teriam início depois das três horas da tarde e deveriam se encerrar por volta das seis, somente participando os menores com idade superior a três anos desde que acompanhados de seus pais ou responsáveis. Em relação às matinais, deveriam se iniciar às nove da manhã e encerrar ao meio-dia obedecendo a uma separação entre estes menores até 13 e de 14 aos 18 anos. Haveria um intervalo de dez minutos de hora em hora para descanso sendo proibida a participação dos adultos nos folguedos, mas liberando suas entradas como acompanhantes.

O que mais chama a atenção, passados mais de quarenta anos, é a determinação sobre as matinais e vesperais infanto-juvenis e nos bailes noturnos frequentados por menores de dezoito anos. Deveria ser mantida a iluminação comum nos salões ou dependências sendo proibido o uso de “luz negra, estroboscópica, psicodélica rítmica, submarina e outras semelhantes”.

Outra determinação da legislação eleitoral dizia que estavam proibidas referências elogiosas ou não através dos corsos carnavalescos a políticos e autoridades brasileiras. Qualquer bloco que fizesse menção a nomes de pessoas, tanto no carnaval de rua ou nos clubes, estaria sujeito a sofrer a repressão por força de lei. Às comissões julgadoras seria determinado que o bloco fosse eliminado da competição.  

Fonte: IHGGP. Fotos: web. Edição: APM Notícias.  

INFLAÇÃO




INFLAÇÃO


Elmar Carvalho

A inflação está
tão alta que
papel-moeda
virou papel higiênico.

E papel higiênico
virou artigo de luxo.