sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Comentário sobre o poema Fotos Antigas

Fonte: Google

               
"Fotos antigas," se não é a retomada da poesia de Elmar Carvalho, deve ser entendido como um lampejo feliz de um temperamento poético visceral independente de o autor voltar ou não a praticar o verso.


       Num e noutro caso, pouco importa. O que se deve assinalar é que o poema em apreço não diminui os poemas já escritos, publicados e muito analisados. Foram esses poemas já escritos que o tornaram um dos poetas mais conhecidos e admirados da lírica piauiense contemporânea.

       Trazendo a público este poema após alguns anos de jejum sem escrever poesia, o nível de qualidade, todavia, a meu ver, não caiu absolutamente. Escolheu o tema do "ubi sunt?" que em Elmar é algo recorrente, sobretudo agora que vive a plena maturidade de escritor.

      Uma vez, afirmei que todo bom poeta possui algo em comum: ser bom poeta e a um só tempo ser diferente um do outro. O mesmo, diria, vale para outros artistas fora do universo da palavra, como pintores, músicos, escultores, dançarinos etc. O que os une é o talento, o preparo técnico, o domínio da linguagem literária, o conhecimento de sua arte, a visão do mundo.

    "Fotos antigas" é um poema que me emociona como leitor e como analista de literatura. Nele os versos lhe parecem ter vindo naturais, espontâneos, plenos de sentimentos nostálgicos, de imagens de um passado ainda vivo na memória que não deseja o esquecimento, visto que é matéria armazenada lá no fundo do coração do vate.

    Elmar é um poeta que elegeu como um dos temas preferidos a reconstrução da paisagem antiga, das pessoas, dos objetos e construções que, seja na cidade, seja no meio rural, que mudaram de fisionomias, físicas ou psicológicas, nos tempos atuais, ou desapareceram na voragem do tempo.

   Sua lírica, em decorrência do tempo devorador, canta e lamenta a perda das imagens diversas e situações de outrora que o seu espírito jamais aceitou no confronto com os tempos apressado atuais. São imagens que lhe povoaram e ainda povoam na retina sem limite espaciotemporal.

    No fundo da saudade, por vezes em solene tom elegíaco, o poeta, dialogando com outros poetas de gerações diferentes, não deixa escapar uma dolorida crítica à modernidade. Talvez nesse aspecto haja algo nele que se aproxime da saudade dacostiana: o fundo romântico do qual nunca se livrou nem um nem outro. Em Paulo Machado, outro poeta de alta qualidade, percebi essa escavação no tempo procurando o seu resgate, em bela notação lírica, de uma cidade amada, Teresina.

     Gostaria muito de me estender mais sobre o poema agora vindo a público. Porém, deixo registrado, nessa primeira leitura, o quanto me agradou a leitura desse poema, um convite ao mundo admirável da saudade e sem pieguice fácil.

Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2017.

            Cunha e Silva Filho      

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Fotos Antigas (*)



Fotos Antigas (*)

Elmar Carvalho

Onde estão aquelas pessoas
que assistiam ao comício na velha praça,
que já não existe, exceto na foto desbotada
e carcomida pelas traças implacáveis?

Muitas já estão dormindo,
dormindo profundamente
(como no poema de Bandeira),
no Cemitério da Igualdade
ou em outro campo santo qualquer.
A própria praça já não existe
 na sua sedutora arquitetura de então.

Por causa da usura, dos metais e do tempo,
alguns casarões foram demolidos,
dando lugar a modernosas formas,
sem história, sem lembranças.
Outros permanecem, com os aleijões das “reformas”.

O homem que passava
para sempre ficou
congelado na foto,
em inconclusa passada.

Para onde se foi, com a sua pressa,
com as suas preocupações e planos,
e as suas momentâneas contingências?

Decerto, deserto de tudo,
hoje já não tem pressa,
nem preocupações,
nem dúvidas e dores,
para sempre imoto em sua cova.

A moça bonita, eternamente
moça e bonita na fotografia,
terá morrido moça e bonita
ou terá sentido na pele e na alma
o desmoronar lento do tempo?

A águia metálica
voou do cais do porto
para outro logradouro, de onde,
pousada no poleiro monumental,
assiste o desfilar frenético dos carros,
entre movimentadas avenidas.
Ela, contudo, permanece imóvel,
embora com as longas asas distendidas,
hierática, sem pressa e sem medo.

A maria fumaça que passava
soltando fumaça e apitando
não mais passará, não mais passará,
com as suas negras engrenagens,
nem mesmo travestida
em locomotiva a diesel.
Até os trilhos e dormentes
lhe foram arrancados, e as trilhas, apagadas.

Os namorados que se amavam
e se afagavam, à sombra
da velha pérgola ou do caramanchão
de outrora, ainda se amam, ainda se afagam?
São tantos os sonhos desfeitos...

Um dia, os retratos estarão apagados,
e este poema, esquecido.
E não restará sequer uma tabuleta
ou um bilhete esmaecido
em (esconsa) gaveta.    

(*) Após vários anos sem escrever nenhum poema, fiz hoje (22.11.17) este texto, que espero mereça essa classificação ou rótulo.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU


MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU
  
Cunha e Silva Filho
                                       

                   [...] O tempo é a época mais o horizonte diacrônico, o que significa dizer – é a época mais as  épocas. O isolacionismo espiritual do corte sincrônico, imobiliza, por amnésia e pela incapacidade de pre-ver. De enxergar que cada época carrega consigo outras épocas passadas e futuras.

                Eduardo Portella, Confluências – manifestações da consciência comunicativa, p. 26.



I.              INTRODUÇÃO


          Desenvolvemos neste estudo alguns tópicos subordinados aos conceitos de Modernismo e Modernidade no Brasil. Na primeira parte, procuramos discutir, ainda que de forma sintética, o movimento modernista brasileiro de 1922, realçando-lhe  a importância como marco fundador de uma nova  era para o Brasil literário, cultural e artístico.
                  Na segunda parte, discutimos os polos nacional e estrangeiro na questão da nossa identidade  literária. Na terceira parte, levantamos um dado de pesquisa que nos parece ainda não pesquisado em profundidade, que é o distanciamento do povo brasileiro como agente participativo do processo de transformação cultural e artístico desencadeado pelo Modernismo de 1922.
         Na última parte,  de forma mais  desenvolvida, estudamos  as implicações  embutidas nos conceitos de Modernismo e Modernidade em nosso  país. Esta seção do estudo visa a desenvolver algumas reflexões sobre os termos  modernismo  e modernidade partindo da leitura  de quatro ensaios de Eduardo Portella ( 1932-2017)[1] e  de um ensaio de Paulo Sérgio Rouanet.[2]

2. VALOR DA RUPTURA

       O projeto de uma literatura modernista para o Brasil não nasceu da noite para o dia. Seus vestígios remontam, sobretudo, à eclosão do Romantismo com a ideia de se inaugurar  também uma literatura que refletisse a realidade social, política e cultural, a exemplo do que ocorreu com a independência  política.
      A ideias de  separação do legado  brasileiro português teve então até o reforço original de José de Alencar (1829-1877) com a sua  tentativa de criar  uma língua brasileira que traduzisse o nosso  modo de produção  estética, sem as interferências ultramarinas engessadas nos lusitanismos lexicais, semânticos e simpáticos, gesto que seria repetido, no século seguinte, em pleno alvorecer do Modernismo,  por Mário de Andrade (1893-1945)), só que dessa vez de forma  radicalizada e que teve tantas repercussões para a delicada questão da linguagem literária no movimento modernista. E em todas  as suas  fases ou desdobramentos.
      O grande saldo  positivo do movimento modernista brasileiro foi o de atualizar os aspectos formais e temáticos da nova literatura om a realidade de um país que não podia permanecer imobilizado em práticas culturais e artística passadista. Ou seja, como  produzir literatura cm a camisa de força  de uma retórica artificialmente  objetiva ou subjetiva (estilo parnasiano, simbolista, fora os epigonismos  românticos  ou até  de períodos anteriores) num país que já passava por  transformações econômicas,  políticas e sociais que não mais admitiam a absolutização de verdades prontas e acabadas?
     Como manter-se uma ficção com bases ainda naturalistas  quando o século XX  já nos apontava para o freudismo,  o bergsonimo, o marxismo e com o surgimento  de profundas  alterações no universo das artes e das diversas manifestação de vanguarda com tantas consequências salutares à renovação   da cultura contemporânea?  Era  possível a essa altura do século XX  continuar-se indefinidamente  num mimetismo cultural só tendo vista para o passado e neste, infelizmente só vendo os aspectos imobilizados e não as suas  conquistas  inovadoras? Porque, no fundo,  todo movimento literário e artístico  avança um passo ao futuro, já que os movimentos não são estanques, mas se  influenciam  mutuamente  no seu dinamismo renovador a fim  de desbravar  novas formas estéticas.
    Mas, o sentido da ruptura entre  passado e presente, cujo marco simbólico foi a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, foi  principalmente  uma vontade de não mais parecer  com o que  se fazia literariamente em Portugal e em nosso país até então, tendo à frente a questão da linguagem, dos temas e das convenções dos gêneros literários.
     Os exemplos mais significativos dessas transformações e práticas literárias  podem-se ver nas obras de Mário de Andrade e Oswald de Andrade (1890-1954). Isso quanto aos aspectos  formais e revolucionários na produção poética e ficcional. Na temática o exemplo mais surpreendente em termos de tratamento seria a larga produção ficcional do romance de 30, inclusive pelo seu aspecto  de recepção por parte dos leitores.
   Veremos, no capítulo seguinte,  como  podemos resolver as contradições trazidas  pelos princípios da estética modernista brasileira tendo em vista os dois  polos de interferência cultural: o nacional e o estrangeiro. (Continua).
  

[1] Trata-se dos ensaios seguintes: As modernidades. Revista Tempo Brasileiro, 84: 5/9. Rio de Janeiro.  Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, 1986; Premissas e promessas  da modernidade. Revista Tempo Brasileiro, 130/131:5/10. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997; Qual modernidade? Revista Tempo Brasileiro, 111: 109/112. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1992; Sentido(s)  da modernidade, Revista Tempo Brasileiro, 76: Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,  1984.

[2] Perspectivas da cultura brasileira  no início do século XXI. Revista Tempo Brasileiro, 130/131:83/103. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,  1997.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Academia adia posse de novos membros devido morte de Carlos Araken



O presidente da Academia Parnaibana de Letras, José Luiz de Carvalho, anunciou através de nota que a posse de três novos membros marcada para o próximo domingo dia 26 está suspensa. O motivo foi a morte do médico e escritor Carlos Araken Correia Rodrigues ocorrida no final da manhã desta terça-feira dia 21 de novembro.

Em nota o presidente destacou o sentimento de pesar à família e aos amigos, colegas de profissão e de entidades das quais Araken fazia parte e destacou a sua grande contribuição intelectual e profissional ao Piauí e a Parnaíba.

A posse dos mais novos imortais da academia, o ex-prefeito Zé Hamilton Furtado Castelo Branco, o advogado Paulo de Tarso Mendes de Sousa e o professor Manoel Domingos Neto, estava marcado para o próximo domingo, dia 26 de novembro no auditório da Universidade Federal do Piauí.


Carlos Araken pertencia a várias entidades culturais e filantrópicas, entre elas, o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, Academia Parnaibana de Letras e Lions Clube. Na APAL ocupava a cadeira 23 que tem como patrono dom Felipe Conduru Pacheco. 

Fonte: APAL. Fotos: web. Edição: APM Notícias.  

Aventura por terras e livros


“Um aventureiro”, assim se auto define Carlos Henriques de Araújo, nascido na cidade de Parnaíba, estado do Piauí. Foi criado em uma casa plantada em um terreno de 50.000 m², cortado por um igarapé e reunificado por uma ponte de madeira.

Foi nesse pequeno universo, onde os dias passavam entre “pescar, pegar passarinhos, nadar e andar a cavalo” que começaram as aventuras pelo reino da imaginação. Certamente, ampliadas ao assistir os espetáculos dos circos que visitavam de quando em quando a cidade.

Na adolescência começou a viajar pelas ondas do rádio, o maior veículo de comunicação da época. Sintonizava a Voz da América e a BBC de Londres para saber coisas do mundo afora.

Nas emissoras nacionais ouvia Jackson do Pandeiro, Nelson Gonçalves, Moreira da Silva, Trio Irakitan e Waldick Soriano.  A medida em que crescia montou seu próprio elenco de artistas prediletos: Cely Campello, Ronnie Cord, Carlos Gonzaga, The Platters e Frank Sinatra. Depois vieram a Bossa Nova, os Beatles, a Jovem Guarda e “muito rock, blues e, hoje, jazz”.

Para cursar o ensino médio da época foi morar em Fortaleza, o que marcou uma nova fase em sua vida. Novos desafios surgem nessa etapa: “independência financeira, o primeiro emprego, planejamento do futuro, a insegurança, o medo do novo e a responsabilidade pelos próprios atos”.

Araújo fez concurso para a Escola de Especialista da Aeronáutica e mudou-se para o interior de São Paulo, depois de formado foi trabalhar em Brasília. Cursou administração e entrou para a Fundação Rondon.

O seu espírito empreendedor e aventureiro fez com que continuasse a busca por se desenvolver, prestou concurso para ingressar na Telepará, foi transferido para a Teleamapá e depois, voltando à sua terra, trabalhou na Telepisa até aposentar-se em 1996.

Viajou por diversas terras para satisfazer “a necessidade de liberdade, a vontade de descobrir novos caminhos e acompanhar o que estava acontecendo no Brasil e no mundo”.

Percorreu também os caminhos interiores por meio da literatura: “o gosto pela leitura começou desde pequeno, primeiro com as revistas em quadrinhos. Os gibis foram seguidos pelos livros de bolso das Edições de Ouro, principalmente os de faroeste. Só mais tarde vieram as coleções de Monteiro Lobato. O leque se ampliou após os dezoito anos, quando passei aos clássicos mais conhecidos da literatura brasileira como Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, entre outros.  Os primeiros autores de outros países foram Charles Bukowski, Jack Kerouac, Herbert Marcuse, Hermann Hesse e os clássicos da literatura mundial.”

O hábito e o prazer de escrever surgiram em consequência da distância geográfica entre o aventureiro e as pessoas que deixou em sua terra natal: “em 1967, para telefonar, além de caro, a gente perdia muito tempo, passava-se horas num posto telefônico esperando completar uma ligação interurbana. Além do mais, na minha casa não tinha telefone. Então, a única maneira para me comunicar com meus pais, com meus amigos e com minha namorada era através de cartas.”

Como fruto de sua dedicação à arte de escrever já produziu cinco livros e tornou-se colaborador de jornais impressos e portais da Internet.

Ao mesmo tempo em que desenvolveu sua trajetória profissional e literária, cultivou uma linda família: “sou casado há 34 anos com Claudia Moita Araújo (dentista) e tenho três filhos André, Ana Carolina (ambos advogados e casados) e Bruna (administradora), com 32, 30 e 28 anos respetivamente. Todos concursados no MPU, moram em Brasília.”

Depois de passar por oito estados e morado em mais de dez cidades foi em Teresina que encontrou “sua cara metade”, por essa razão é um admirador da cidade que considera a sua Meca.

Ao longo da caminhada desenvolveu outra admiração, é um apreciador do trabalho da Sistel: “com a minha entrada na Telepará conheci a Sistel, que até hoje complementa meu salário. Ela foi e continua sendo meu primeiro e único plano de saúde. Criei meus filhos com a excelente cobertura da Sistel.”

Carlos Araújo não para, atualmente administra uma empresa do ramo da construção civil e prossegue sua aventura pelo universo das letras, já publicou os livros “Sem lenço, sem documento”, “Caleidoscópio”, “Versos 100 Rima”, “Sinal Fechado” e “Fragmentos”.

A respeito de si mesmo afirma:

“Sou uma pessoa feliz, muito feliz! Tenho tudo que amo e amo tudo que tenho. Minha espiritualidade tem sido a tábua de salvação: fé, trabalho, perseverança e harmonia entre o ser e o ter, o material e o espiritual. Medito todos os dias, faço yoga, caminhada e musculação na academia de segunda a sexta.”

Fonte: Perfil Sistel

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Uma capitania fictícia

Fonte: Google

Uma capitania fictícia

Reginaldo Miranda *

Segundo o juízo de alguns autores, o Piauí ficou pertencendo à Capitania Hereditária de quarenta léguas de terras na costa que, por Carta Régia de 19 de novembro de 1535, foi concedida a Antônio Cardoso de Barros, fidalgo-cavaleiro da Casa Real. Essa assertiva é corroborada por F. A. Pereira da Costa(Cronologia Histórica do Estado do Piauí). Contudo, há de se entender que as terras piauienses que comporiam essa Capitania Hereditária seriam apenas as do atual norte do Estado. Porém, esse fato nenhuma repercussão teve na colonização portuguesa, vez que o donatário nunca deu a graça de visitar sua Capitania, embora tenha vindo para o Brasil(Bahia) em companhia do governador-geral Tomé de Sousa, em 1549. Ocorre que, viera para a Colônia como servidor público e não explorador de terras, ocupando o importante cargo de provedor-mor da real fazenda. Esse fato demonstra a falta de critério na concessão dessas imensas sesmarias, senão o de amizade e influência nos corredores palacianos. Varnhagen acreditava, porém, que o donatário tivesse tentado estabelecer uma colônia no litoral maranhense, a despeito de certos indícios de ruínas de pedra e cal encontradas em Tutóia, sendo, porém, posteriormente obrigado a desamparar a localidade. Por sua vez, F. A. Pereira da Costa não dar crédito a esse pensamento, afirmando não constar que o donatário “fizesse tentativa alguma de exploração e colonização” (Cronologia ... p. 23). De qualquer forma, se tentativa de colonização houve – mesmo sendo apenas suposição – não foi no litoral piauiense.

Essa donataria iniciava a partir do rio da Cruz, em dois graus e dois terços, correndo por leste até Angra dos Negros, em dois graus, situando-se acima dos limites da que fora concedida ao historiador João de Barros e ao capitão-mor Aires da Cunha. Consta que o donatário dos litorais piauiense e maranhense, depois de exercer por largo tempo seu emprego na Bahia, teria tentado retornar para o reino em 1556, na mesma nau em que também retornava o bispo D. Pero Fernandes Sardinha, naufragando, porém, no rio Coruripe e sendo devorados pelos índios Caetés. A bem da verdade, esses fatos pouco têm a ver com a história piauiense, vez que a donataria ficou apenas em papéis reinóis, sem qualquer ação colonizadora no Piauí, razão pela qual mais tarde quando os verdadeiros colonizadores adentram o território piauiense vão nele se estabelecer sem qualquer atenção a essa primitiva concessão. Há mesmo quem conteste a abrangência dessa donataria no litoral piauiense. De qualquer forma, o lembramos apenas como curiosidade histórica. Porém, para concluir lembramos que o donatário Antônio Cardoso de Barros, deixou extensa descendência no Nordeste, principalmente em Alagoas, Ceará e Piauí, hoje representada na via matrilinear, pelas famílias Gomes Travassos-Rego Castelo Branco e Alves Feitosa; e por derivação dessas, em parcela das famílias Rocha e Miranda do centro-sul do Estado.

 (Meio Norte, 26.10.2007).
  

* REGINALDO MIRANDA é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Piauí.

domingo, 19 de novembro de 2017

Seleta Piauiense - Da Costa e Silva

Fonte: Google

O homem que volta

Da Costa e Silva (1885 – 1950)

Quando fui, com o meu sonho ingênuo e lindo,
Pelas estradas amplas, luminosas,
Vinham as Graças desfolhando rosas.

Ergui os olhos para os céus, sorrindo,
A beleza da vida pressentindo...

Quando vim, com o meu tédio miserando,
Pelos estreitos e áridos caminhos,
Iam as Parcas espalhando espinhos...

Baixei o olhos para o chão, chorando,
E fiquei para sempre meditando...   

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Histórias de Évora de Elmar Carvalho (Parte II)


Histórias de Évora de Elmar Carvalho (Parte II)

Magno Pires *

Ao dissertar em linguagem enxuta, exata e realista, e tão bem, os encontros amorosos do protagonista Marcos Azevedo, que tem a sua fase de timidez, com a famosa madame Doralice, que era uma prostituta, parece tê-los vivenciados e participado de alguns.

Pois, para descrevê-los e/ou caracterizá-los, com enormes detalhes, muita segurança, senão participou, com certeza, vivenciou-os infinitamente, o que também não há o que estranhar nesse comportamento, ainda que ilegítimo do período.

Os jovens de sua época viviam (ou vivem) numa sociedade extremamente restrita à moral, a ética e aos costumes. Portanto, conservadora, religiosa, e com receio e/ou medo do pai e da mãe. Dos avós, dos tios, dos parentes, dos amigos, de parentes e aderentes, e também da repressão dos vizinhos E receio dos castigos e das reprimendas dos genitores.

A religiosidade, ou caráter religioso, também impunha à sociedade vultosas restrições e extemporâneos limites.

Eram criados numa perspectiva ilimitada de “respeito” e/ou temor à religião e às coisas religiosas. Onde, por isso, quase toda conduta amorosa era pecaminosa.

Como antecipei antes, Histórias de Évora descrevem aspectos sociais, econômicos, políticos, religiosos e culturais do período da vivência do autor, ´percorrendo várias décadas de nossa história, com muita percuciência.

É um livro de sociologia e antropologia, portanto, realista, humanista, que todos devem ler para aumentar conhecimentos e aprimorar o saber. Pois, expõe fortemente as ocorrências socioculturais da sociedade piauiense e brasileira. Esta, projetada a partir do Piauí, como campo e cenário de ação. Numa dimensão literal correta e com fixação honesta da realidade, embora um romance. Onde, em cujo gênero literário, prevalece o ficcionismo. Por isso, o livro é menos ficção e mais objetividade e/ou materialidade, com o aspecto ficcional extremamente bem elaborado ou descrito, dissertado, pelo amor.

As aventuras romanceadas erótico-amorosas do protagonista Marcos Azevedo, com a famosa madame Doralice, com Lívia, no cabaré da Gracinha que permeiam grande parte dos cenários do livro-romance, são sensivelmente relatadas e correlatadas e sem o receio de recriminação da sociedade, dos pais, dos familiares. Ele agia livremente. Doralice mantinha o Solar da Rosa dos Ventos

Portanto, embora Évora, cujo vocabulário nos lembra Portugal, Lisboa, seja uma cidade fictícia, imaginaria, mas repleta de realidades, compreendida nos limites de Piracuruca e Piripiri, com o panorama de ação-abrangência, epicentro, em Sete Cidades, paraíso ecológico, as histórias fantásticas e realistas, descritas, focadas pelo seu inteligente, sensível e emérito autor-acadêmico impõem um forte caráter litero-histórico, sócio-político-cultural, econômico, sociológico e antropológico à obra que é recomendável à leitura e à formação de brasileiros, conforme já antecipado. Como são os livros de José Lins do Rego, Jorge Amado, Humberto de Campos, Gilberto Freyre, Raquel de Queiroz, Euclides da Cunha, Josué de Castro... dentre outros brasileiros responsáveis pela nossa formação cultural. Esses ilustres romancistas e literatos brasileiros tiveram a mesma percepção, sentimento, sensibilidade, compreensão e preocupação de Elmar Carvalho ao relatar e denunciar, pela literatura, os problemas nacionais da atualidade (ou do seu tempo) à posteridade, para conhecimento da sociedade, embora os escritores mais contemplem que realizem.

Mas, suas realizações, são as denúncias e críticas que fazem pelos livros ao mundo. Elmar faz, a seu tempo, a sua crítica-denúncia dos ainda angustiantes problemas nacionais que persistem insolúveis. E com uma literatura de excepcional valor e conteúdo, elogiável sobre todos os aspectos enfocados, analisados e criticados.

* Magno Pires é membro da Academia Piauiense de Letras, ex-Secretário da Administração do Piauí, ex-consultor jurídico da Companhia Antarctica Paulista (Hoje AMBEV) 32 anos. Portal www.magnopires.com.br com 94.450.112 acessos em 8 anos e 2 meses, e-mail: magnopires_mp@yahoo.com.br.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O velho cemitério do Curador

Foto meramente ilustrativa, da autoria de Elmar Carvalho

O velho cemitério do Curador

José Pedro Araújo

A idade do velho cemitério de Presidente Dutra é indefinida. Parece que os primeiros ocupantes do lugarejo escolheram aquele local distante para sepultar os seus mortos. E como não conheço outro campo santo mais antigo do que aquele na cidade, acredito que os primeiros enterrados lá remontam ao começo do século XX, ou até mesmo antes. Talvez tenha inicio naquela época também o pouco interesse em organizar aquele espaço de uma forma mais cuidadosa, planejando bem aquela necrópole e dividindo o seu espaço em ruas, alamedas, quadras e lotes, para melhor orientação aos visitantes.  Nunca vi coisa pior, mais sem organização.

O termo cemitério (Coemeterium), significa “fazer deitar”, definição para o local escolhido pelos primeiros cristãos para sepultar os seus falecidos. E esses locais, via de regra, são muito bem conservados, religiosamente respeitados, cuidadosamente planejados e, por isso mesmo, sempre prontos para a pesquisa ou mesmo para a meditação. Os pesquisadores quando se debruçam sobre a história de algum povo costumam devassar os cemitérios em busca de dados fidedignos sobre a nação estudada. E muito do que se sabe hoje, as informações que temos sobre os primórdios das civilizações, especialmente sobre os seus principais protagonistas, foram obtidas depois de exaustivas pesquisas em antigos cemitérios. É o caso das tumbas egípcias que ainda hoje contribuem com a história daquele povo a cada novo sarcófago encontrado, a cada nova catacumba descoberta.

Por sua vez, existem cemitérios tão importantes e tão visitados, como o Père Lachaise, em Paris, inaugurado em 1804, que recebe por ano mais de dois milhões de visitantes; ou o da Recoleta, em Buenos Ayres, que se transformou em um dos pontos de atração para os turistas do mundo todo que visitam a cidade argentina. A modernidade também chegou aos “campos santos”. O San Cataldo, em Modena, Itália, é um cemitério vertical, instalado em um prédio gigantesco e com muitos andares. Trata-se de um ossuário humano em que a estrutura do corpo do extinto é guardada em caixas individuais em meio a uma decoração florida e muito alegre.

Já o velho cemitério do Curador é um dos piores “campos santos” que já visitei até hoje.  Sem sombras de dúvidas, o pior, o mais desorganizado, aquele que diariamente é mais vilipendiado. Recentemente voltei lá, em datas alternadas, para realizar o sepultamento de duas pessoas muito queridas, e o encontrei imerso no caos de sempre. Mato em profusão sobre os túmulos, sujeira por toda a parte, e o velho e maior problema de todos: a falta de disciplinamento na hora de realizarem-se o sepultamento dos corpos dos falecidos. Como isso vem acontecendo ao longo de muito tempo, parece até que o local é terra de ninguém, onde cada um escolhe o espaço para o sepultamento do seu defunto ao seu bel prazer, no meio dos antigos passeios, muitas vezes uns sobre os outros, sem um mínimo de respeito com quem já ocupou primeiro aquele endereço. Não existem mais ruas para o acesso das pessoas aos túmulos localizados mais para o seu interior, obrigando o visitante a caminhar sobre as sepulturas ou saltar por cima dos túmulos mais difíceis de transpor.

Outra coisa que constatei também: não existe ninguém para informar a localização do jazigo de alguém que se pretenda visitar. Não existe numeração definida ou endereço que possa ser informado. Se você não souber a localização exata da cova de quem pretende visitar, com certeza voltará de lá sem concretizar o seu desejo.

Mas o pior mesmo é a disputa por espaço que se instalou no cemitério. Parece até que as pessoas vão cavando as sepulturas no local que bem entenderem, sem o mínimo de respeito para com quem já chegou ali antes. Nessa última visita, procurei pelo jazigo de uma irmã falecida ainda criança e não mais o encontrei. No local em que fora sepultada, alguém construiu um monstrengo a guisa de catacumba, quadrado, preto, ocupando um espaço de aproximadamente dois metros e meio por dois e meio. A última morada da minha irmãzinha Célia, antes localizado ao lado da campa que continha os restos mortais do seu avô, foi soterrado pelo desrespeitoso invasor, assim como deve ter ocorrido com outros defuntos sepultados nas suas proximidades. Meu coração, já tão abarrotado pela tristeza dos acontecimentos daqueles dias, transbordou de dor e decepção. O descaso com os nossos extintos é brutal ali.


Conto que este meu grito de revolta possa chegar aos ouvidos do nosso Alcaide, um homem sensível e ligado aos interesses da nossa coletividade, e que tem muitos dos seus sepultados no velho Cemitério do Curador. Não me refiro apenas a uma demão de cal nos muros. Mas a algo maior. Ainda é tempo de impor alguma ordem naquele pouco mais de um hectare de terra; organizar o seu funcionamento; estabelecer um gerenciamento eficiente por lá, pois os extintos cidadãos presidutrense precisam também de um bom tratamento para que possam descansar definitivamente em paz.    

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

UMA HISTÓRIA DAS BEIRAS E NAS BEIRAS

                   
              Mais um livro  será lançado em Parnaíba neste mês de novembro. Desta feita de autoria  do professor Erasmo Amorhim com o título de  "Uma História das Beiras e nas Beiras" que reconta a história de prostitutas, que morriam queimadas em nome do amor tendo como cenário principal o famoso cabaré da "Munguba" localizado no antigo bairro quarenta nas proximidades do também famoso "Bar do Augusto" e do "Porto das Barcas".

              O lançamento será na próxima segunda-feira(27) no auditório da Universidade Estadual do Piauí, às 19 horas, conforme convite abaixo:


               O professor Erasmo Carlos Amorhim Morais possui Doutorado em História Social pela Universidade Federal Fluminense, é graduado em Direito pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI, especialização em Direito pelo Instituto Dexter , graduado em História pela Universidade Estadual do Piauí, além de possuir Mestrado em História pela Universidade Federal do Piauí.

Fonte: Blog do Professor Gallas

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Academia Parnaibana de Letras promove palestra sobre Everaldo Moreira Véras



Com o tema “O Canto Anterior de Everaldo Moreira Véras”, será realizada palestra no Sesc Caixeiral dia 16, quinta-feira às 18h pelo poeta Diego Mendes Sousa com entrada franca.

Este evento é uma realização da Academia Parnaibana de Letras. Segundo o presidente José Luiz de Carvalho este é um momento muito importante para a literatura piauiense e parnaibana pelo resgate de um grande nome e sua obra. Everaldo Moreira Véras nasceu em 1937 e morreu em 2011.


Na segunda-feira dia 13 o poeta foi homenageado pela prefeitura quando deu nome à Sala de Literatura Infantil da Biblioteca Pública Municipal Senador Alberto Silva e à noite recebeu post mortem a Medalha do Mérito Legislativo, da Câmara Municipal de Parnaíba. 

Fonte: APAL. Fotos: web. Edição: APM Notícias.

domingo, 12 de novembro de 2017

RETRATO DE MEU PAI




RETRATO DE MEU PAI

Elmar Carvalho

No dia 8 de janeiro deste novo ano, comemoramos o aniversário de meu pai. O evento foi idealizado por minha irmã Maria José, mas contou com o apoio dos familiares. A missa foi celebrada pelo padre Jurandir da Silva Rodrigues, na igreja da Paróquia Santa Luzia. Foi um lindo culto, em que o sacerdote, de joelhos, com as luzes na penumbra, fez um magistral sermão, que nos encantou a todos pela riqueza de seu conteúdo. Todos nos emocionamos com as suas belas palavras.

Apesar da chuva fina que caiu durante a noite toda, estavam presentes todos os amigos e colegas postalistas de meu pai, muitos já idosos. Essa presença massiva foi uma prova de consideração e amizade ao aniversariante. O padre Jurandir foi atencioso e afetivo com meu pai, inclusive tendo lhe dado a palavra após o término da celebração. Papai agradeceu o comparecimento de todos e pediu desculpas por eventuais esquecimentos de nomes.

Vendo tantos amigos, lembrei-me de um caso contado pelo escritor Orígenes Lessa, a respeito do sepultamento de seu pai, que teve um grande cortejo. Um forasteiro, admirado, perguntou a uma pessoa que chorava, se o falecido era uma pessoa muito importante. Recebeu, entrecortada por soluços, a seguinte resposta: “Não. Era só muito bom.” Fazendo coro, poderia dizer que apenas comemorávamos as nove décadas de um simples homem bom.

Depois da celebração religiosa, nos deslocamos até o Buffet Momentos, onde houve farto jantar e libações. Mesmo com a chuva ou, talvez, por causa dela o “clima” foi de alegria, descontração e congraçamento, com o reencontro de velhos e estimados amigos. Foram contados vários “causos” pitorescos ou engraçados do tempo em que papai chefiou a ECT em Parnaíba, quando muitos dos presentes estavam iniciando a sua vida profissional. Como lembrança, foi distribuído o livro “Retrato de meu pai” (com depoimentos e fotografias), cujo texto principal, de minha autoria, datado de 05.01.2016, quando ele completou noventa anos de vida, transcrevo:

“Não pretendo ser emotivo e nem sentimental, e tampouco desejo traçar aqui o perfil psicológico e moral de meu pai. Por tal razão, irei contar, de forma sintética, fatos de sua vida, que serão diminutos mosaicos ou azulejos, que juntos formarão um pequeno painel de sua vida e de seu caráter.

Talvez alguns de seus pequenos defeitos, que todos os temos, sejam consequência de suas virtudes e qualidades de homem bom, de uma pessoa que sempre teve dificuldade em dizer um não, que procurou sempre não contrariar ou magoar quem quer que fosse. Algumas vezes ele se prejudicou por causa disso, por causa dessa virtude que alguns consideram fraqueza ou tolerância algo excessiva. Contudo, Deus o protegeu, e ele alcançou os seus noventa anos de idade sem maiores percalços e sobressaltos.

Miguel Arcângelo de Deus Carvalho é o seu nome completo. Nasceu em Barras, no dia 5 de janeiro de 1926, filho de João de Deus Nascimento e Joana Lina de Deus Carvalho. Perdeu seu pai quando tinha apenas 13 anos de vida, e cursava o ginásio no Colégio Diocesano, em Teresina. A infausta notícia lhe foi transmitida, com as cautelas de praxe, pelo Monsenhor Chaves, que depois viria a se tornar um dos maiores historiadores do Piauí, do qual vim a me tornar amigo, quando fui o presidente do conselho editorial da Fundação Cultural que leva o seu nome. Teve que retornar a Barras, a chamado de sua mãe. Filho único do terceiro casamento de seu pai, muito jovem e sem experiência laboral, era evidente que não saberia gerir a herança que lhe coube, após a partilha com os demais herdeiros.

Portanto, cedo teve que trabalhar, para sustentar-se a si e a sua mãe, que morou em sua companhia até quando faleceu. Fora outros empregos, trabalhou na Casa Marc Jacob e na Casa Inglesa, em Campo Maior, para onde se transferiu aos 26 anos. Após aprovação em concurso público, feito pelo famoso DASP, foi admitido no Departamento de Correios e Telégrafos – DCT, mais tarde, no regime militar, transformado em empresa.

Quando trabalhou numa firma comercial pertencente ao marido de uma prima de minha mãe, houve um fato que bem revela o seu caráter de homem leal, mas polido, e que não gostava de ofender ninguém, mesmo os desconhecidos. O dono do comércio estava chateado com um fornecedor, que não cumprira fielmente o contrato. Ditou uma carta áspera, em que se queixava de forma rigorosa dos defeitos que apontava. Meu pai, ao datilografar o que lhe era ditado, atenuou algumas palavras e expressões. Ao ler a carta, o empregador, que era uma ótima pessoa e amigo de meu pai, de maneira educada observou: “Miguel, você não se sentiu bem em escrever as palavras que eu disse... Deixe, que eu mesmo vou datilografar.” E carregou na dosagem dos impropérios e adjetivos, com os quais fustigou o seu desafeto.

Após aprovação em concurso público realizado pelo DASP, meu pai, em 1957, foi nomeado servidor público federal. O telegrama da nomeação, após espera de aproximadamente dois anos, lhe foi entregue pelo telegrafista Gerson Marques, seu amigo por toda a vida, que, apesar de não ser mensageiro nem carteiro, fez questão de lhe repassar incontinenti a mensagem telegráfica. Exerceria o cargo de guarda-fio na Diretoria Regional do Piauí do Departamento de Correios e Telégrafos – DCT. Era considerado um bom emprego para a realidade da época. Tomou posse de seu cargo no então povoado de Papagaio, um pouco depois elevado à categoria de cidade, onde nasceu meu irmão João José, o segundo de uma prole de oito, da qual fui o primogênito. Após uma breve serventia de um ano, meu pai conseguiu sua remoção para Campo Maior, após breves passagens por José de Freitas e Barras. Sobre a nossa permanência em Francinópolis já me referi em outros textos, publicados na internet.

Em sua carreira no DCT, nossa família morou por pouco tempo na zona rural de Campo Maior e novamente em José de Freitas, durante um ano. Nesta cidade, com o apoio total do padre Deusdete Craveiro de Melo (meu professor e diretor no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas), fundei um time de futebol, o Santos, e um campo futebolístico, localizado perto do cemitério velho. Quando morou na zona rural, e com o crescimento da família, meu pai sentiu a necessidade de ascender funcionalmente. Embora tivesse apenas o segundo grau incompleto, encarou os livros com afinco e determinação e passou no concurso interno para técnico postal da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – ECT. Fez curso de um ano em Recife, no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro. Após, teve que optar pelo regime celetista (deixando de ser estatutário e estável), para assumir seu novo cargo. Foi designado, no começo de 1975, chefe da ECT em Parnaíba. Exerceu esse cargo por vários anos. Aposentou-se em 1984.

No final da década de 1960 e/ou início da seguinte, meu pai foi colaborador eventual do jornal A Luta, de Campo Maior. Nele publicou algumas crônicas e artigos, alguns contendo casos interessantes ou pitorescos de sua vida. Seus textos eram concisos, fluentes, objetivos e gramaticalmente corretos. Tanto que, ao retomar seus estudos, mereceu em redação para a disciplina Educação Moral e Cívica, de que era professor o impoluto juiz Hilson Bona, a nota 10. Ao dar o resultado da prova, o Dr. Hilson, que mais tarde veio a ser meu professor de OSPB, disse que outros alunos mereciam essa nota, mas que não lhes dera porque não poderia dar mais do que 10 a meu pai. Assim, lhes deu nove vírgula alguns décimos.

Papai gostava de ler, e “degustou” vários clássicos da literatura brasileira e mesmo mundial. Tinha certa predileção por Machado de Assis. Tinha várias antologias escolares, insertas em livros didáticos de Português. Sabia decorado vários poemas, os quais ocasionalmente recitava. Cantarolava belas letras, verdadeiros poemas, de músicas da velha guarda. Era assíduo ouvinte do programa radiofônico Gramofone da Vovó, apresentado por Jaime Farrell, através das ondas poderosas da Rádio Sociedade da Bahia. Por esse motivo, conheço muitas dessas antigas e belas melodias. Se tivesse dado continuidade a essa sua faceta literária, poderia ter-se tornado um escritor, ainda que bissexto. Mas sua modéstia e despretensão não lhe permitiram ir além dessas breves incursões literárias.

Ainda na fase em que voltou a estudar, havia uma disciplina artística em que o aluno era obrigado a confeccionar um objeto de arte, em papel, madeira ou argila. Geralmente eram feitos desenhos, pinturas ou objetos de artesanato. Os trabalhos eram elaborados em casa, de modo que alguns alunos pagavam a alguém para fazê-los, já que não eram produzidos à vista da professora. Numa das ocasiões, meu pai optou por fazer o desenho de uma das mais conhecidas casas de Campo Maior. Sem ser desenhista e sem ter essa vocação, foi, contudo, meticuloso, e mesmo perfeccionista. Fez medições com a régua e o esquadro, para alcançar a simetria, a proporcionalidade e o possível efeito da perspectiva. Conseguiu fazer um bom trabalho, mormente considerando-se a sua inexperiência e falta de vocação para esse mister.

Outro trabalho seu, por exigência dessa disciplina artística, foi um carro de boi, executado em buriti, que é leve e não exige demasiado esforço para ser desbastado. Após vários dias, com muito cuidado, disciplina e paciência, fez a miniatura, que apresentava notáveis semelhanças com um de verdade, pelo menos aos meus olhos de menino. Mereceu o elogio de todos, inclusive de minha mãe, e creio que da professora, já que ele não ficou reprovado. Disso tiro a conclusão que ele tinha o espírito de um artista, mas que por modéstia e timidez não deixou que lhe aflorassem esses dotes, que lhe ficaram em estado latente, ou pelo menos reservados à admiração que tinha pelos dons alheios. Talvez, ao confeccionar o seu pequenino carro de boi, tenha se lembrado do engenho de madeira de seu pai e dos imortais versos de Da Costa e Silva:

Movida pelos bois tardos e sonolentos,
Geme, como a exprimir, em doridos lamentos,
Que as desgraças por vir, sabe-as todas de cor.

Ai! dos teus tristes ais! Ai! moenda arrependida!
- Álcool! Para esquecer os tormentos da vida
E cavar, sabe Deus, um tormento maior!

No final da década de 1950, meu pai foi chamado a Teresina pelo senhor Oto Veloso, que exercia o cargo de diretor regional do DCT no Piauí. Visivelmente constrangido, o diretor perguntou o que meu pai fizera contra determinada figura da política piauiense. Meu pai respondeu-lhe que nada, que apenas comentara que não iria votar em determinado candidato que ele apadrinhava. Oto, bastante contrafeito, contou a papai que o político referido [descendo de seu alto cargo republicano para a sarjeta da política miúda, para a politiquice de campanário], exigira a sua destituição de pequeno cargo de confiança. Confidenciou que ainda lhe ponderara que Miguel era um bom servidor, e que não cometera nenhum deslize profissional, mas a alta autoridade, com irritação, quase tendo um chilique ou um ataque de apoplexia, respondera: “Mas eu quero, eu quero que ele seja exonerado”. Meu pai, humilde, mas altivamente, falou: “Fique à vontade, diretor, não se preocupe, pode fazer a exoneração, que a minha amizade e respeito pelo senhor vão permanecer os mesmos. Entretanto, o que eu fiz contra esse político foi votar nele várias vezes. Porém, moralmente, retiro os votos que já lhe dei...” Papai sempre manteve grande respeito e admiração pela integridade moral de Oto Veloso, irmão do ex-governador Djalma Martins Veloso.

No começo da década de 1960, logo ao chegar para o expediente, meu pai foi indagado pelo chefe da agência sobre por que faltara ao plantão anterior. Papai respondeu que não fora ele o faltoso. O agente, então, exigiu que lhe desse o nome do funcionário que não comparecera. Meu pai respondeu que não poderia fazer isso, mas que lhe bastava consultar o livro de ponto para saber o nome desse servidor. De maneira insólita o chefe comunicou ao diretor regional da época que meu pai teria cometido insubordinação, e não lhe teria acatado a determinação funcional. Meu pai, como “punição”, quase foi transferido para um local distante e isolado. Contudo, seguindo seus princípios éticos, preferiu ser prejudicado a prejudicar alguém, sofrer uma injustiça, a praticá-la. Mas Deus o protegeu e orientou, e tudo acabou bem.

Após aprovação em concurso interno, meu pai foi fazer o curso de Técnico Postal no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro, em Recife, cuja duração era de um ano. Ao retornar, e após breve serventia em Teresina, foi designado para chefiar a agência da ECT em Parnaíba. Permaneceu nesse cargo por mais de sete anos. Embora aposentado, continuou residindo em Parnaíba até dezembro de 1994, quando voltou a morar em Campo Maior. Procurou cultivar a política da boa vizinhança com os quase cinquenta servidores, que existiam no início de sua gestão. Sempre que precisava reclamar por causa de alguma falha, chamava o colaborador ao seu gabinete, quando, então, com bons modos, fazia as suas observações e lhes dava a orientação que achava conveniente. Por causa de sua maneira cordial os servidores lhe tinham respeito e consideração, que até hoje conservam. Muitos que conviveram com ele, declaram dele sentir saudade, e sempre perguntam por ele e pela sua saúde. Desprovido de empáfia e arrogância, nunca precisou levantar a voz contra quem quer que fosse, e tudo acabava dando certo.

Por ter constituído uma família grande, mais precisamente de oito filhos, em certa fase de sua vida passou por algumas dificuldades financeiras, como costuma acontecer com quase todas as famílias, mas guardava isso somente para si, e nunca gostava de se queixar. Tinha uma fé inabalável em Deus, a quem orava com fervor, e terminava por resolver todos os seus percalços e dificuldades, sem nunca enganar os outros e nem lhes causar prejuízo. Nas vezes em que, eventualmente, recebeu algum dinheiro a mais, em lojas ou em agências bancárias, de imediato retornava para devolver o que indevidamente lhe fora pago. Esses exemplos sempre nos eram ressaltados por nossa mãe, para que os seguíssemos.

Em meados da década de 1960, meus pais receberam, através do serviço de reembolso postal, um pacote remetido pela empresa Hermes. Era um belo faqueiro, de aço inoxidável, quase uma novidade na época, pelo menos para nós. Esse conjunto de garfos, facas, colheres e outros utensílios nos serviram desde então. Minha mãe, creio que por pressentir que o termo de seus dias já se aproximava, mandou gravar em sete dessas colheres os dizeres “Casamento – Miguel e Rosália – 09.06.55”, e as distribuiu a cada um dos filhos. Desde essa data (09.06.55) até o falecimento de mamãe em 26.04.2013, meus pais viveram em perfeita união e benquerença.

Com oração e Fé, suportou meu pai a trágica morte de minha irmã Josélia, ocorrida em 02.07.1978, quando ela mal completara 15 anos de idade, e a de minha mãe, Rosália. Sei que ele muito sofreu, mas em Deus encontrou força e resignação. E agora, ainda lúcido e saudável, como um herói da vida e da luta do cotidiano, comemora com seus familiares, amigos e admiradores os seus 90 anos de idade, em cujo percurso, como o apóstolo Paulo, guardou a Fé, e disseminou o bem e o seu exemplo de homem voltado para a concórdia e para a bondade.”

(*) Este texto foi escrito por ocasião da comemoração do aniversário de 90 anos de idade de meu pai. Ele nasceu em Barras, no dia 26/01/1926, e faleceu em Teresina, no dia 05/11/2017, portanto com a idade de 91 anos e dez meses.    

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

MISSA DE SÉTIMO DIA


Comunicamos aos parentes e amigos que a Missa de Sétimo Dia pelo falecimento de meu pai, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, será no próximo dia 11 de novembro, às 15:15 horas, na Igreja de Nossa Senhora das Mercês, Bairro São João, em Campo Maior.

Antecipamos nossos agradecimentos aos que comparecerem a esse ato de piedade e Fé.   

Francisco Dias d'Ávila


Francisco Dias d'Ávila

Reginaldo Mirnda (*)

                     O pioneiro devassador do vale do rio Gurgueia foi Francisco Dias d’Ávila, no verão de 1674, comandando um troço de seguidores em perseguição aos índios de mesmo nome. E, assim, descobriram, conquistaram e povoaram grandes extensões de terras, para isso praticando violentos massacres contra os Gurgueias e outras tribos indígenas que habitavam aqueles dilatados sertões.

Nasceu esse importante conquistador do Gurgueia em 1648, na Bahia, sendo batizado em 9 de agosto do mesmo ano. Pertencia a uma renomada geração de conquistadores do sertão, sendo filho do capitão de ordenanças Garcia d’Ávila 2.º e de Leonor Pereira, esta esposa e tia do marido. Era neto paterno de Francisco Dias d’Ávila(1.º do nome) e de dona Ana Pereira(irmã da nora Leonor), filha esta de Manuel Pereira Gago e dona Catarina Fogaça. Por essa linhagem era bisneto de Isabel d’Ávila e de seu segundo consorte, o mameluco Diogo Dias, este neto materno de Diogo Álvares, o Caramuru, com a índia Catarina Álvares, da nação Tupinambá. Era ainda trineto do português Garcia d’Ávila, vereador do Senado da Câmara de Salvador, fundador da Casa da Torre, e da índia Francisca Rodrigues, também da nação Tupinambá.

Francisco Dias d’Ávila era filho intermediário de uma família de três irmãos, antecedido pela primogênita Catarina Fogaça(1643 – 1704) e sucedido pelo irmão mais moço, Bernardo Pereira Gago(1656 – 1689), que o acompanhou na conquista do sertão.

O velho Garcia d’Ávila herdou muitas léguas de terras e imenso rebanho bovino, mas não se conformou com o considerável espólio que lhe deixaram seus ancestrais, continuando a saga de conquista do sertão. Em 1641, com apenas 19 anos de idade, recebeu a patente de capitão de ordenanças em recompensa pelos serviços prestados pelo pai no combate aos holandeses e em sua consequente expulsão de Pernambuco. Em 1642, casou-se com a tia Leonor Pereira, irmã mais moça de sua mãe, para manter indiviso o patrimônio familiar. Combateu índios nos sertões de Sergipe e do rio São Francisco, onde recebeu muitas sesmarias, aumentando o patrimônio que passou aos herdeiros, quando faleceu em 1675.

Por aqueles dias, uma vaidade dos pais abastados era direcionar os filhos à carreira das armas ainda na meninice. Não foi diferente com o segundo Francisco Dias d’Ávila, que, aos 11 anos de idade começou a acompanhar o pai nas conquistas pelo sertão.

Em 1657, com apenas 9 anos de idade já é vertiginosamente aquinhoado, juntamente com os dois irmãos, o pai e um tio materno, o padre Antônio Pereira, com cinquenta léguas de terras, sendo dez para cada um, no sertão do São Francisco. Então, já começava a vida com um imenso latifúndio, sem falar na considerável herança que mais tarde iria receber.

No ano seguinte, nova sesmaria lhe é concedida no sertão do São Francisco, com área imprecisa situada entre “as terras povoadas e a aldeia dos índios Amoipiras”. Ora, essa imprecisão territorial lhe favorecia demarcar a área que bem quisesse, dadas as grandes distâncias e a ausência de outros limites.

Por esse tempo, com a morte do pai, teve de assumir a administração de imenso patrimônio, constituído em regime de morgado, desde o rapto de sua sobrinha Isabel d’Ávila, filha de Catarina Fogaça, por Manuel Paes da Costa, moço de origem humilde. Por esse regime, amparado nas Ordenações Filipinas, o patrimônio permanecia inalienável e indivisível, transmitindo-se, no caso de morte do titular, ao descendente primogênito varão. Portanto, já era rico e poderoso quando iniciou a conquista do Piauí.

Mais tarde, o frade capuchinho Martinho de Nantes,  diria em queixa que todas as terras na margem oriental do rio São Francisco, desde trinta léguas para baixo até cem léguas para cima pertenciam a Francisco Dias d’Ávila, com exceção das que eram necessárias à sustentação dos índios aldeados.

Em 5 de agosto de 1672, foi provido na patente de capitão de ordenanças do distrito da Torre.

Com o avanço dos currais pelo sertão do rio São Francisco, não tardaram os indígenas a rebelar-se contra a invasão de suas tabas e as admoestações que sofriam na terra de seus ancestrais. No princípio de 1674, levantam-se em armas os Gurgueias e outras nações aborígenes que habitavam aqueles sertões, rechaçando os currais e o avanço do conquistador lusitano sobre seu território. Governava o Estado do Brasil, o capitão-general Afonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça(Visconde de Barbacena), a quem se apresenta o coronel Francisco Dias d’Ávila obtendo licença para fazer a guerra ofensiva contra os nativos e a patente de capitão-mor da dita entrada.

Depois de formar tropa composta por cem homens brancos armados, acrescida de mulatos, negros e indígenas aliados, com o auxílio de outros criadores, parte no verão daquele ano ao encalço dos nativos rebelados, tendo por imediato Domingos Rodrigues de Carvalho, demorando-se mais de ano e meio nessa conquista. Também, o capitão Domingos Afonso Sertão comandou um troço de combatentes da Casa da Torre(AHU. Bahia, verbete 4224).

Na primeira entrada buscam o rio Salitre, encontrando a caminho a destemida nação Gurgueia ou Guegué, que os enfrenta com hordas guerreiras combatendo em terra, munidas de arco e flecha, apoiadas por índios canoeiros no rio. A disparidade de armas era enorme. Depois de combates e escaramuças com algumas baixas, os combatentes da casa da Torre põem os indígenas a correr pelo rio São Francisco acima. Alcançam Sento Sé, logo mais estão no Rio Verde. Correm os índios em desesperada fuga, seguidos pelos soldados de Francisco Dias d’Ávila, em sanguinária perseguição. Não demoram a atingir as margens do Rio Grande, afluente do São Francisco, seguindo por seu curso acima até a barra do Rio Preto, seu afluente, seguindo por este último. A fuga era desesperadora, correndo homens, mulheres e crianças, sem lhes dar trégua os soldados da Casa da Torre. É provável que poucas léguas acima tenham os Gurgueias torcido pela vereda do Sapé, cujas vertentes, por chapadões secos, distam menos de 17km das do riacho Fresco, afluente na lagoa de Parnaguá, cujas águas derramam no rio, pela primeira vez conhecido daqueles soldados e que receberia o nome dos indígenas perseguidos. Felizmente, para os indígenas começaram a cair as primeiras chuvas do inverno, fazendo retroceder a tropa do capitão Francisco Dias d’Ávila. Porém, estava descoberto o caminho para o Gurgueia.

Em 1676, mal principia o verão, torna Francisco Dias d’Ávila a completar a conquista, estabelecendo arraial no sertão do Pajeú, ainda em princípio do mês de maio. Contava com tropa composta por cento e vinte homens montados e os índios aldeados em tropas pedestres, reforçados pelos índios missionados pelo frade francês Martim de Nantes. Depois de rastejarem os Gurgueias por seis ou sete dias de marcha, através de agrestes e caatingas, surpreendem a tribo espavorida e faminta, destroçando-os em ligeira peleja. Foi no dia 30 de maio, em que os Gurgueias se renderam aos soldados da Casa da Torre, sendo presos e manietados.

Todavia, dois dias depois, em 1.º de junho, vai ser escrita a página mais negra dessa conquista. Sob fútil pretexto, degolam 400 indígenas desarmados e presos, reduzindo à escravidão mulheres e crianças. Ainda permanecem no mato em busca de outros indígenas por todo o verão. Quem esclarece essa informação é o coronel Antônio da Silva Pimentel, ao buscar privilégios em requerimento de 22.7.1699. Diz ele ter ajudado com homens e mantimentos nessa conquista, acrescentando que a mesma começou em 1674 e “passou de ano e meio, achando-se sempre todos (os seus reforços) com o dito coronel aí na peleja do Pajeú, donde tinha assentado arraial, como em todas as mais ocasiões que teve com dito gentio, em que foram mortos muitos por se não quererem reduzir a paz, indo em seu encalço mais de 120 léguas”(AHU. Bahia, verbete 4224).

Então, se começou mesmo em final de abril ou início de maio de 1674, quando começa o verão nordestino, completaria um ano no mesmo período do ano seguinte e mais meio ano no final de outubro ou começo de novembro de 1675, e não 1676, como informa frei Martin de Nantes e alguns cronistas. De fato, em face dessa conquista, Francisco Dias d’Ávila vai ser promovido à patente de coronel das companhias de infantaria das mesmas ordenanças em 27 de novembro de 1675.

Em 1676, o coronel Francisco Dias d’Ávila, juntamente com o irmão Bernardo Pereira Gago, Domingos Afonso Sertão e Julião Afonso Serra, recebem do governador de Pernambuco, D. Pedro de Almeida, as primeiras sesmarias nas margens do rio Gurgueia, sendo dez léguas em quadra para cada um. Pediram em Pernambuco porque, no Estado do Brasil, de onde eram oriundos, as terras situadas à margem direita do rio São Francisco pertenciam à Bahia e à margem esquerda a Pernambuco. Logo, em sua concepção, a nova conquista seria incorporada à Capitania de Pernambuco.

Com o tempo Francisco Dias d’Ávila adquiriria outras sesmarias no Gurgueia e em outras partes do território piauiense, formando imenso latifúndio. Foi em seu tempo que a Casa da Torre chegou ao ápice. Depois de sua morte retrocederia em seu patrimônio, que se desintegraria com o tempo. Era um homem ágil, de porte diminuto, com capacidade de liderança e larga experiência na conquista do sertão, onde se iniciou desde a meninice ao lado do pai.

Em face de suas conquistas foi também agraciado com o hábito da Ordem de Cristo. Em salvador, foi eleito vereador do Senado da Câmara.

A exemplo do pai, casou-se com uma sobrinha, Leonor Pereira Marinho, filha de sua irmã Catarina Fogaça e do marido desta, Vasco Marinho Falcão. Faleceu em 1695, na Bahia. Vai sucedê-lo na herança e administração do Morgado o filho Garcia d’Ávila Pereira (1684 – 1734), que viria a fundar arraial no Gurgueia, a fim de proteger os currais e assegurar a conquista.

Era “ambicioso, tenaz, dissimulado, implacável, não desdenhando nenhuma empresa e não escolhendo meios”, diz Barbosa Lima Sobrinho(Devassamento e conquista do Piauí).

Francisco Dias d’Ávila, por suas conquistas e pelo devassamento do Gurgueia, merece figurar entre os vultos notáveis do Piauí, em cuja história tem lugar assegurado.
  

(*) REGINALDO MIRANDA, é membro da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/PI. Presidente da Associação de Advogados Previdenciaristas do Estado do Piauí.